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Vinhos singulares do Alentejo: A importância do barro

Comer e beber

Três vinhos de talha que ilustram as virtualidades deste processo de vinificação. A opinião do crítico gastronómico da VISÃO Se7e, Manuel Gonçalves da Silva

É aos romanos que se atribui, geralmente, o desenvolvimento do processo de vinificação em talhas de barro, que chegou ao Alentejo em data imprecisa, mas remotíssima, e vigorou até aos nossos dias, constituindo um dos elementos mais notáveis do património cultural da região. Cedeu, naturalmente, ante as modernas tecnologias usadas no fabrico do vinho e, por isso, quase desapareceram as artes dos talheiros – que faziam as grandes talhas de barro em centros de produção importantes, como os de S. Pedro do Corval, Campo Maior e Reguengos de Monsaraz – e dos pesgadores, que barravam o interior das talhas com um produto à base de pez, para impedir a infiltração do vinho no barro. Mas assiste-se, agora, ao reavivar dessas práticas, que permitem aos enólogos desenhar vinhos com perfis diferentes e bem personalizados.

A verdade é que o processo de produção de vinho em talhas de barro nunca foi abandonado em algumas povoações alentejanas, como Vila de Frades e Vidigueira, com o ripar as uvas (desengaçar à mão numa grade de ripas ou mesa de ripanço), o pisar (para extrair o mosto), o deitar o mosto e as partes sólidas na talha para fermentar e, depois, o armazenar até ser consumido. Os vinhos são geralmente brancos ou tintos, mas na região de Vila de Frades e da Vidigueira também se faz o palhete, que costumam chamar “petroleiro”, por via da cor, com uvas brancas e tintas misturadas, tal como se encontram nas vinhas velhas. O processo de vinificação é igual para todos, originando brancos gastronómicos e tintos muito frescos, merecedores de muita atenção.

Herdade do Rocim Amphora Vinho de Talha Branco 2017
Feito com uvas das castas Antão Vaz, Perrum, Rabo de Ovelha e Manteúdo, vinificado em talhas de barro e estagiado durante três meses em garrafa, tem cor dourada, aroma fresco com algum fumado e um toque vegetal. Paladar seco, algo salino, e acentuada mineralidade. Muito gastronómico. €14

José de Sousa Regional Alentejano Tinto 2016
De uvas das castas Grand Noir, Trincadeira e Aragonês, vinificado uma parte em talhas de barro, outra em lagar e a terceira em inox, apresenta cor vermelha carregada e aroma frutado com notas de especiarias. Paladar vivo com boa fruta, final com insinuante frescura. €7,99

José Piteira Vinho de Talha DOC Alentejo Tinto 2016
Uvas da casta Moreto, com esmagamento em ripanço e fermentação em talha de barro, neste vinho de cor rubi-escura, aroma intenso a frutos vermelhos, compota e notas de cacau e café. Paladar fresco, acidez e taninos em harmonia, final cativante. €19,99