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A real qualidade do restaurante Mito, no Porto

Comer e beber

Uma cozinha que, sob a capa da simplicidade, se descobre inventiva, com rigor técnico e de grande qualidade. A opinião do crítico gastronómico da VISÃO Se7e, Manuel Gonçalves da Silva, sobre o restaurante Mito, do chefe Pedro Braga

O restaurante abriu há mais de um ano, na Baixa do Porto, num antigo armazém de chocolates

O restaurante abriu há mais de um ano, na Baixa do Porto, num antigo armazém de chocolates

Lucilia Monteiro

Fez um ano em julho e já é uma referência da gastronomia do Porto, apesar do ar descomprometido, num espaço amplo e simples, a lembrar o armazém que foi (da Regina), assente na ideia de partilha à mesa, qual casa de petisco. Na Baixa da cidade, o Mito é um restaurante moderno, informal e confortável, com mesas de madeira, individuais, luzes e tubos a desenharem figuras geométricas na parede e no teto, bar e garrafeira ao fundo. A estrutura da ementa é inusual com “frios”, “quentes”, “carvão”, “conforto” e “doces”, e a identificação dos pratos também surpreende, incidindo no ingrediente principal e na enumeração dos restantes. Os pratos dos três grupos iniciais são considerados petiscos, mais pelo tamanho e o preço das doses do que pela forma e pelo conteúdo; o “conforto” remete para um conceito aparentemente afastado de uma cozinha tão elaborada como esta, mas compreensível por se referir a pratos realmente substanciais. É uma cozinha de autor com produtos de qualidade, inventiva e com técnica culinária de alto nível, e corresponde ao primeiro projeto pessoal do chefe Pedro Braga, um jovem com provas dadas do seu talento.

A partilha de petiscos ou destes com pratos de “conforto” é garantia de uma refeição diversificada e rica de sabores. Um casal fica bem com dois petiscos e um prato, por exemplo, um bao de caranguejo de casca mole, em que se conjuga a macieza do pão com o sabor delicado do marisco e a frescura da salada de tomate e da maionese de abacate; os croquetes de boi velho, com a carne macia do recheio a derramar-se na boca e a maionese de chouriço a fazer de contraponto; e o arroz de tamboril, feito com arroz carolino e caldo de marisco, e terminado com manteiga, com muita goma, cremoso como o risoto, mas com outro perfume e mais sabor, rico em peixe e camarão, com um toque exótico a caril e sriracha, de influência asiática, e outro a coentros e cebolinho, europeu e sulista.

Destaque, ainda nos petiscos, para as bolinhas de Berlim com creme de pata negra e bacon, e para o tutano com crosta de camarão, lima, especiarias asiáticas e coentros, que reserva surpresas, quando o chefe pode vir à sala; e nos pratos, para o costeletão maturado, um quilo de carne da vazia com 30 a 40 dias de maturação, grelhada, com guarnição simples: batatas fritas, arroz de cebola e pak choi. Doçaria de alto gabarito. Garrafeira com seleção criteriosa dos vinhos. Serviço jovem, atento, eficaz.

O arroz de tamboril, feito com arroz carolino e caldo de marisco, e terminado com manteiga

O arroz de tamboril, feito com arroz carolino e caldo de marisco, e terminado com manteiga

Lucilia Monteiro

Mito > R. de José Falcão, 183, Porto > T. 22 208 1059 > seg-sex 12h30-15h, seg, qua-qui 19h30-23h, sex-sáb 19h30-1h > €30 (preço médio)