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Restaurante de Tormes, em Baião: Eça, agora

Comer e beber

Ementa baseada nas múltiplas referências gastronómicas que Eça de Queirós espalhou pelas suas obras. A opinião do crítico gastronómico da VISÃO Se7e, Manuel Gonçalves da Silva, sobre o Restaurante de Tormes, em Baião

Lucília Monteiro

O conceito gastronómico que vigora no Restaurante de Tormes é simples e claro: pratos de inspiração queirosiana. Não podiam faltar, pois, o caldo de galinha, o arroz de favas, o “louro frango” e o vinho de Tormes, ou seja a “comidinha dos moços da Quinta” que uma “rija moçoila de peitos trementes” serviu a Jacinto, na quinta duriense que o fidalgo, nado e criado em Paris, tinha herdado e visitava pela primeira vez. Segundo Eça, ele rapou a sopeira, elogiou as favas (“Ah, destas favas, sim! Ó que fava! Que delícia!”), louvou o frango e a salada da horta que o acompanhava (“É divinal!”) e, mais do que tudo, entusiasmou-se com o “vinho amável destas serras”.

A Fundação Eça de Queiroz tem ali a sua sede e o seu restaurante, gerido pela Residencial Borges, referência gastronómica de Baião, com o chefe António Queiroz Pinto à frente da cozinha. Além da sala de refeições com decoração sóbria, tem uma sala para eventos e, diante dela, uma esplanada com vista arrebatadora. É aqui, sobretudo, que apetece estar, mas depende do tempo.

A ementa é pequena, pois o restaurante só abriu em 2014, num lugar pouco conhecido, apesar de ser belíssimo e rico de história(s). De Tormes tem uma réplica da refeição de Jacinto: caldo de galinha com massa estrelinha, pedacinhos de fígado e de moela, só é pena não rescender, como o outro; arroz de favas, saboroso, enriquecido com rodelas de salpicão e moura; frango alourado, que marinou longamente em vinha-d’alhos, bem frito, com textura e gosto singulares; vinho de Tormes, pois então, vinificado pela equipa da vizinha Quinta da Covela. Duas notas: na descrição queirosiana, o arroz de favas e o frango são pratos distintos, aqui, um acompanha o outro; a salada da horta deu lugar a singelas folhas de alface que nada acrescentam. Para terminar, sugerem-nos o creme queimado, que não leva leite, sendo a especialidade da Residencial Borges. Outras iguarias a considerar: para entrada, além do couvert com pão e azeite muito bons, caldo-verde, peixinhos da horta, bolinhos de bacalhau; nos pratos principais, camarão salteado; bacalhau à Alencar (tipo à lagareiro); lulas recheadas com molho de fricassé; pato com molho de azeitonas; costeleta de vitela à cortador, da carne arouquesa; lombos assados de vitela e de porco, e mais um ou outro, anunciando--se alguns sazonais. Urge melhorar o serviço.

O arroz de favas, enriquecido com rodelas de salpicão e moura, acompanha agora o frango, bem frito, ao contrário da descrição queirosiana, na qual eram pratos distintos

O arroz de favas, enriquecido com rodelas de salpicão e moura, acompanha agora o frango, bem frito, ao contrário da descrição queirosiana, na qual eram pratos distintos

Lucília Monteiro

Restaurante de Tormes > Caminho de Jacinto, Quinta de Tormes, Santa Cruz do Douro, Baião > T. 93 318 4546 / 91 625 2664 > ter-sáb 12h-15h, 19h-22h, dom 12h-15h > €25 (preço médio)