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À mesa com Camilo, no restaurante Ferrugem, em Vila Nova de Famalicão

Comer e beber

Inspirada nas referências gastronómicas da obra A Brasileira de Prazins, de Camilo Castelo Branco, o restaurante Ferrugem, em Vila Nova de Famalicão, apresenta agora uma ementa camiliana. Um manjar com quatro momentos, a conjugar a gastronomia minhota e o toque de autor do chefe de cozinha Renato Cunha

Renato Cunha serve a sua versão de arroz de frango, um galo de raça amarela e arroz carolino caldoso

Renato Cunha serve a sua versão de arroz de frango, um galo de raça amarela e arroz carolino caldoso

Diana Correia

Folheia-se a abundante obra de Camilo Castelo Branco e as referências gastronómicas são aos milhares. Em A Brasileira de Prazins, romance escrito em 1882, com Cenas do Minho como subtítulo, o autor faz um retrato impressivo da região (onde viveu, entre 1866 e 1890) e dos modos de vida da população. Não é, por isso, de estranhar, ter sido este o livro escolhido para servir de inspiração à ementa camiliana elaborada pelo chefe de cozinha Renato Cunha, em parceria com o Centro de Estudos Camilianos e a Casa de Camilo, e disponível diariamente no restaurante Ferrugem, em Vila Nova de Famalicão, também ele numa freguesia rural do concelho, rodeado pela paisagem minhota.

O primeiro momento da ementa camiliana: sardinha, cebola e pimento

O primeiro momento da ementa camiliana: sardinha, cebola e pimento

Diana Correia

Dividido em quatro momentos, o menu privilegia os produtos da região e as raças autóctones, com propostas verosímeis numa mesa do séc. XIX. “Seguimos as referências do livro, mas não houve a preocupação de fazer uma ligação direta, antes quisemos deixar passar o espírito da época”, conta Renato Cunha. Como prelúdio, há pão (a broa de milho não poderia faltar), pataniscas e presunto de porco bísaro (de cura natural, sem fumo). Passando para o primeiro momento, aparece uma versão reinventada das sardinhas de escabeche elogiadas no romance, provavelmente o prato mais autoral do conjunto, com sardinha, cebola e pimento. Já o segundo momento é constituído por feijoca branca, caldo de legumes e tora, uma sopa bem rústica no sabor e na apresentação, preparada em pote de ferro, absolutamente consoladora. Destaque-se a harmonização sugerida, um Pardusco Private de 2012, vinho verde tinto singular, a fazer esquecer o vinhão de outros tempos, criado pelo enólogo Anselmo Mendes. Para cortar a intensidade do prato, é de seguida servido um elixir de limão e genebra, a bebida destilada referida por Camilo, em modo sorvete. O terceiro momento é um galo de raça amarela (mais uma vez, uma raça autóctone) e arroz carolino caldoso, com as peças da ave a serem servidas, não inteiras, mas com a carne desfiada.

O arroz de leite, servido com um Cottas Porto Tawny 20 anos

O arroz de leite, servido com um Cottas Porto Tawny 20 anos

Diana Correia

A terminar, há uma reinterpretação do arroz de leite, como antigamente se designava o arroz doce, com a textura do leite-creme e um ligeiro granulado conferido pela farinha de arroz. A acompanhar, “uma pinga do choco”, como descrevia Camilo na novela, um Cottas Porto Tawny 20 anos. No futuro, Renato Cunha não descarta a hipótese de criar outros pratos inspirados na obra de Camilo e refrescar a ementa (€40, harmonização com vinhos €20). “Não pode ser exaustiva, para ser uma oferta diária tem de ser exequível”, explica o chefe de cozinha.

O restaurante Ferrugem é o mais recente aliado da Rota Literária Camiliana, um projeto turístico-cultural iniciado há cerca de dois anos pelo município famalicense, com o objetivo de criar parcerias e sinergias (já o fez, por exemplo, com a Livraria Lello e o Centro Português de Fotografia, no Porto, locais diretamente relacionados com as vivências do autor) que ajudem a divulgar o legado camiliano. “Hoje em dia, não se faz turismo unicamente em torno da literatura, em torno do texto, o turismo faz-se a nível cultural, aproveitando contributos que são absolutamente extraordinários”, sublinhou José Manuel Oliveira, o diretor da Casa de Camilo, considerada um dos grandes altares da literatura portuguesa. No caso do Ferrugem, “é a gastronomia que torna o contacto com o património mais valioso e interessante. E se conseguirmos que estas duas experiências se combinem e se casem é excelente”, acrescenta.

É certo que tanto a autarquia como a Casa de Camilo poderiam ter ficado à sombra da acácia de Jorge, a árvore plantada por um dos filhos de Camilo Castelo Branco, junto à escadaria da casa de campo de S. Miguel de Seide, e tantas vezes referida pelo escritor nos seus textos. Mas quiseram ter “uma visão mais alargada da dinâmica camiliana”, sublinha Paulo Cunha, presidente da câmara municipal de Vila Nova de Famalicão. Uma oferta que funcionará, certamente, como excelente aperitivo a uma visita guiada à Casa de Camilo e ao Centro de Estudos Camilianos.

A Casa Museu de Camilo, em S. Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, onde o escritor viveu entre 1866 e 1890

A Casa Museu de Camilo, em S. Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão, onde o escritor viveu entre 1866 e 1890

Diana Correia

Restaurante Ferrugem > R. das Pedrinhas, 32, Portela, Vila Nova de Famalicão > T. 252 911 700 > ter-sáb 12h-14h30, 20h-22h30, dom 12h-14h30 > menu camiliano €40, harmonização com vinhos (opcional) €20

Casa de Camilo – Museu e Centro de Estudos > Av. de S. Miguel, 758, S. Miguel de Seide > T. 252 327 186/ 252 309 750 > ter-sex 10h-17h30, sáb-dom 10h30-12h30, 14h30-17h30 > Grátis