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A linguagem universal do Geographia, em Lisboa

Comer e beber

O novo restaurante da cidade quer pôr os pontos cardeais na cozinha portuguesa e trazer para a mesa as suas ligações a diferentes países, culturas e povos

Manuel Gomes da Costa

Começamos pelo rinoceronte no meio da sala. Imponente, Ulisses recebe quem entra com o orgulho de ser um dos primeiros exemplares da espécie a chegar à Europa do séc. XVI, oferecido ao rei D. Manuel I. O desenho, assinado na época pelo artista alemão Albrecht Dürer, vê-se no toldo exterior, a ocupar uma das paredes e também nos pratos da Vista Alegre ou nos guardanapos, como símbolo da ligação dos portugueses ao mundo. É isso que se celebra na cozinha do Geographia, o novo restaurante do bairro da Lapa, perto do Museu de Arte Antiga, como nos conta Ruben Obadia, antigo jornalista e um dos sócios (juntamente com Miguel Júdice, empresário, e a polaca Lucyna Szymanska, ligada à moda). “Pensámos nos lugares por onde os portugueses passaram e, a partir daí, imaginámos como poderiam trabalhar-se esses sabores em conjunto”, resume. A pesquisa levou-os a Macau, a Cabo Verde, a Angola, a São Tomé e Príncipe e a Timor, à procura de receitas de outros tempos com margem para reinterpretações. Até porque este não é um restaurante para nostalgias, mas sim uma cozinha de mente aberta, com vontade de fazer experiências, que tanto “pode estar aqui, em Lisboa, como noutras cidades”, diz Ruben.

A gastronomia portuguesa mistura-se com os sabores de países como Cabo Verde, Angola ou Timor, como é o caso desta salada morna com frango, laranja e batata-doce

A gastronomia portuguesa mistura-se com os sabores de países como Cabo Verde, Angola ou Timor, como é o caso desta salada morna com frango, laranja e batata-doce

Manuel Gomes da Costa

Nas entradas, a escolha é difícil, mas os fritinhos dos quatro continentes (€6) chamam por nós assim que os vemos passar em direção a outra mesa. A salada morna timorense (€7), com frango, laranja e batata-doce, é uma deliciosa surpresa, enquanto a sopa de peixe com maionese de garam masala (€7) é servida no ponto. Depois, é seguir caminho com a cachupa vegetariana (€12), o original escondidinho de puré de mandioca e leite de coco com bacalhau à Bulhão Pato (€13) ou com o arroz gordo de Macau (€14), aqui numa versão mais leve. As mesmas ideias de fusão foram aplicadas aos cocktails e às sobremesas, como no groguito, um mojito feito com grogue de Cabo Verde, ou na laranja com azeite. Os vinhos são quase todos de pequenos produtores nacionais e há blends de chá e café feitos de propósito para o Geographia. Do restaurante original, de grelhados, manteve- -se a ligação à comida tradicional portuguesa, o chão de pedra e o balcão corrido, agora pintado em tons de encarnado e verde, os mesmos que dominam a decoração, cheia de pormenores e histórias do mundo, tal e qual a nossa cozinha.

Geographia > R. do Conde, 5, Lisboa > T. 21 396 0036 > seg-sáb 12h-15h, 19h30-23h