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Duelo gastronómico: Bastardo ‘passou a perna’ à Casa de Angola

Comer e beber

Sem knockouts nem golpes diretos, o chefe David Jesus passou com distinção, no primeiro duelo gastronómico do ano no restaurante Bastardo, em Lisboa, frente-a-frente aos sabores angolanos do chefe Paulo Soares

David Jesus, do Bastardo (à esquerda), e Paulo Soares da Casa de Angola (à direita)

David Jesus, do Bastardo (à esquerda), e Paulo Soares da Casa de Angola (à direita)

Sempre me ensinaram a evitar o “não gosto” quando falo de comida. Por isso, deixo apenas um ponto prévio: parti para este desafio com a premissa de que “não aprecio” assim tanto comida angolana. Mas estava pronta para mudar de ideias. De África, só conheço os sabores marroquinos e não é disso que trata o duelo entre os chefes do restaurante Bastardo, do Internacional Design Hotel e da Casa de Angola. David Jesus (Bastardo) e Paulo Soares (Casa de Angola) passaram a noite da última terça-feira, 16, a partilhar a mesma cozinha, mas das mãos de um e de outro saíram pratos muito diferentes e com sabores também distintos.

Cerveja angolana Cuca, para começar a noite de ritmos e sabores africanos

Cerveja angolana Cuca, para começar a noite de ritmos e sabores africanos

A noite começou devagarinho, ao som dos ritmos africanos da música ambiente e com uma cerveja angolana Cuca no copo. Com a casa cheia, refletida num burburinho constante ao longo do serão, todos fomos convidados a experimentar os cocktails pensados especialmente para o jantar. Destaque para o Lua Lx, o mais angolano de todos, feito com sumo de ananás, gelado de baunilha, xarope de açúcar, vinho branco e cerveja Cuca. Pela descrição, podia parecer muito doce, mas não, é leve, suave e agradável, mesmo para acompanhar a comida.

O primeiro a chegar à mesa foi o croquete de abóbora, coentros e lima, com uma geleia picante de fazer lamber os dedos. Acompanhava um shot de mucua, o super fruto do embondeiro, que funcionou como tira-gosto para o camarão e quiabo angolano. Um prato vencido pelos sabores portugueses, porque sentimos falta de um pouco de picante. Seguiu-se a sopa de peixe e pevides com a nacional hortelã-da-ribeira a dar um ligeiro toque apimentado, muito subtil e suave, mas a fazer toda a diferença. Para este segundo round, Paulo Soares preparou o tradicional feijão de palma e banana para comer à colher. Servido num tachinho, a mistura ganhava bastante quando se trincava a banana crocante. Na mesa, houve quem sugerisse talvez faltasse um chouriço, para apurar o sabor.

Bacalhau à Zé do Pipo, por David Jesus

Bacalhau à Zé do Pipo, por David Jesus

Na terceira volta, foi o frente-a-frente entre um bacalhau e uma galinha. Quem ganharia? David Jesus provou mais uma vez que é exímio a cozinhar bacalhau quando o pôs no prato na sua versão “à Zé do Pipo”, acompanhado de puré de batata com azeitona verde, azeite de trufa, maionese de alho confitado e lâminas do mesmo alho, pickle de rábano, sementes de sésamo verde e crocante de choco. De forma unânime, todos consideraram delicioso este prato vencedor da noite. Sem fazer comparações, a muamba de galinha com farinha de mandioca deu luta neste round, com o sabor apuradinho e consistente.

Terminados os salgados, os doces não se fizeram rogados e David Jesus voltou a surpreender com a sua desconstrução do pudim Abade de Priscos. A granita de hortelã e melão, o chutney de manga e malagueta, o favo de mel, a redução de vinho do Porto e o bacon crocante, tudo junto fez maravilhas. A paracuca (um snack doce de amendoins) veio com o café, mas em Angola vai sempre bem com uma cervejinha. Despedimo-nos com o Black Temptation, o cocktail com café espresso, xarope de canela, cerveja preta mais amargo e digestivo. O gongo não tocou, mas a noite já vai longa… Sem vencedores nem vencidos, todos saímos a ganhar.

Muamba de galinha de Paulo Soares

Muamba de galinha de Paulo Soares