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Cabeças do Reguengo: Vinhos bem pensados

Comer e beber

Da Quinta das Cabeças, perto de Portalegre, vêm dois vinhos biológicos e um “fora do baralho”, feitos de uvas de vinhas centenárias criadas no Alentejo. A opinião do crítico gastronómico da VISÃO Se7e, Manuel Gonçalves da Silva

Ricardo Palma Veiga

O mundo dos vinhos está cheio de histórias singulares e a de João Afonso é uma delas. Com um vida profissional intensa e rica, primeiro como bailarino do Ballet Gulbenkian, sendo primeiro bailarino à data da reforma, depois como escritor e crítico de vinhos, atividades que mantém, decidiu, em 2009, adquirir a Quinta das Cabeças, no Parque Natural da Serra de S. Mamede, entre Pedra Basta e Reguengo, a pouco mais de três quilómetros de Portalegre, para fazer vinhos à maneira antiga, exclusivamente de uvas de vinhas sem seleção genética, como as das vinhas centenárias que ali encontrou, plantadas em cerca de 4,5 hectares. O seu primeiro trabalho foi “recuperar essa vinha centenária com a sua própria (e natural) genética”, diz, resumindo nesta frase o seu projeto de ação.

Vinha de longe a paixão pelo vinho. Depois de abandonar os palcos, em finais de 1993, João Afonso fez o seu primeiro vinho, Rogenda, em 1994, com uvas de vinhas da família, na região de Pinhel. Contou, então, com o apoio de Dirck Niepoort, porventura o principal responsável pela afirmação dos vinhos Douro no mundo. E deu crédito à marca Rogenda, até 2006, quando se afastou.

O novo projeto não é só dele, envolve a mulher, Teresa, e os filhos Tiago, Inês e Margarida - toda a família. E não se limita ao vinho, é também Agroturismo, cuja gestão está a cargo de Inês. Oferece todas as comodidades urbanas em plena natureza, com os três apartamentos e oito quartos rodeados de vinhas, oliveiras, árvores de fruta e horta. E tem a adega e os vinhos. São vinhos bio, de enologia minimalista (sem produtos enológicos que não sejam algum dióxido de enxofre e ácido tartárico), e de expressão natural, que pedem tempo para expressar as suas qualidades e o seu caráter, como é próprio dos slow wines. Um regalo para quem conhece e um desafio para quem gosta de vinho.

Equinócio Vinho Regional Alentejano Branco 2014

Feito de uvas de cerca de 14 castas diferentes e antigas de uma vinha muito velha, com produção baixíssima, tem aroma intenso e rico com notas florais, minerais e fumados; sabor profundo com corpo e textura excelentes; final longo com alma e caráter. €20

Solstício Vinho Regional Alentejano Tinto 2013

Um vinho de vinhas velhas que apresenta aroma muito concentrado e complexo com notas de frutos maduros; sabor intenso, encorpado, com taninos firmes mas não agressivos e textura envolvente; um final longo e persistente. Para beber e guardar, porque vai crescer na garrafa. €25

Respiro Clarete 2014

O clarete costuma ser considerado um vinho ligeiro, que não é propriamente o caso deste, apesar de ter apenas 11,2% de álcool. Feito de uvas brancas e tintas de vinhas velhas, tem aroma vivo com notas de frutos vermelhos e pretos, algum mineral e um toque vegetal; sabor fresco, vivo, com alguma profundidade; final fresco e vibrante. €12