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O inverno no restaurante Oficina é um regresso à terra e aos produtos de Trás-os-Montes

Comer e beber

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Caça, alheiras, cogumelos, abóboras e enchidos, muitos. A nova carta do restaurante Oficina, no Porto, é um desfile de sabores da cozinha portuguesa com criações de Marco Gomes. Uma refeição aqui pode também ser uma aula de arte

Nas paredes e no teto, a arte moderna, interventiva e polémica, faz parte do cenário

Nas paredes e no teto, a arte moderna, interventiva e polémica, faz parte do cenário

Lucília Monteiro

A chuva acompanha-nos. Na rua, e à entrada do Oficina, onde nos aguarda o espelho de Jorge Perianes e a instalação de Filipe Marques, em néon. Aberto em setembro do ano passado, o restaurante, do galerista Fernando Santos e do chefe Marco Gomes, reforça a ligação à cozinha tradicional na nova carta. Três meses depois, regressamos para conferir sabores, ingredientes e texturas.

A nova carta de inverno do Oficina rende-se a produtos da época. Tem caça, cogumelos, abóboras, alheiras e uma forte presença de enchidos transmontanos. “É um regresso à terra e às origens, num encontro de ingredientes sazonais”, explica o chefe Marco Gomes. Será esta uma viagem a Trás-os-Montes, sem sair do Porto? Ao longo de oito pratos vamos conferir a resposta.

Ovo de foie gras recheado com figo confitado e areia de pistáchos

Ovo de foie gras recheado com figo confitado e areia de pistáchos

Lucília Monteiro

No Oficina, come-se ao estilo do século XXI, isto se os olhos se perderem nas obras que dão cor às paredes e teto. Uma refeição aqui também pode muito bem ser uma aula de arte. À mesa, as toalhas brancas bordadas parecem indicar outro caminho. “O espírito, a filosofia e a inspiração vem do receituário de sabores do Norte”, admite Marco Gomes. No entanto, e apesar de a nova carta ir ao encontro das suas raízes transmontanas, o chefe, que é natural de Alfândega da Fé, não fica limitado à tradição.

Para divertir o palato e baralhar os sentidos, a primeira entrada acomoda foie gras recheado com figo confitado e areia de pistáchos. Use-se primeiro a colher para partir o ovo e completar a arrojada ligação de diferentes sabores. Enquanto, no copo, servem um vinho branco Quinta da Pacheca, de 2016, que acompanhará as entradas e os pratos de peixe. Do mar, avançam vieiras frescas na chapa com ovas de salmão, crocante de toucinho e manjericão. "Não temos uma linha gourmet ou menu de degustação", avisa o chefe, as doses são sempre generosas, acrescente-se.

Taco de bacalhau meia cura com batata, salasa, pimentos e emulsão de azeitona

Taco de bacalhau meia cura com batata, salasa, pimentos e emulsão de azeitona

Lucília Monteiro

É por águas agitadas que seguimos com os pratos de peixe em dose dupla. Primeiro, chega o taco de bacalhau meia cura com batata, salsa, pimentos assados e emulsão de azeitona; depois, o taco de atum fresco laminado com puré de ervilhas e legumes salteados. Além de cenário e aconchego criativo, a cada novo prato, Marco Gomes reforça a “escolha de produtos transmontanos”, que vai buscar à origem, no interior do País.

A linha mantém-se quando, à mesa, chega a caça, agora acompanhada por um vinho tinto reserva da Quinta Vale do Bragão, de 2013. E, sem fugir à tradição, vamos até às aldeias transmontanas, quando Marco Gomes serve pintada recheada com enchidos e migas tradicionais. Mas há mais. Além da forte presença da caça e enchidos de porco bísaro, o chefe faz cuscos, uma guarnição tipo cuscus, à base de trigo.

Queque morno de queijo da serra com creme de abóbora e amêndoa

Queque morno de queijo da serra com creme de abóbora e amêndoa

Lucília Monteiro

A tarde já vai longa, mas ninguém quer abandonar a mesa sem meter a colher em terra de chocolate com gelado de frutos vermelhos ou em queijo da Serra com doce de abóbora. A escolha deste último, servido por toda a parte do País, consegue convencer e superar as expetativas. Imagine-se um queque morno de queijo, tipo fondant, rodeado de amêndoas e creme de abóbora. Irresistível, sem dúvida.

Reserve-se lugar no balcão perto da cozinha, onde os odores se impõem a cada movimento, ou bem juntinho à lareira. É bom sentir o aconchego do crepitar da lenha a lembrar as noites longas passadas na aldeia. Nos dias frios mais ainda. Sem fumo, espera-se.

Oficina arte.gastronomia > R. Miguel Bombarda, 282, Porto > T. 22 016 5807 e 936 712 384 > ter-sáb 13h-15h, seg-sáb 19h30-23h