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Pineapple Week: O hotel não se fez só para dormir – Terceiro (e último) ato

Comer e beber

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Diz que há por aí muito bom restaurante escondido atrás de uma receção, que os hóspedes estrangeiros os frequentam mais do que os habitantes de Lisboa. A Pineapple Week começou quinta, 29, para desmistificar essa realidade, disponibilizando menus entre os 25 e os 45 euros. E nós fomos comprovar, só para termos a certeza de que era mesmo assim. Aqui fica a crónica em três atos ou, se se preferir, em três refeições

Uma salada de polvo das redondezas, muito bem acompanhada por um mix de legumes frescos

Uma salada de polvo das redondezas, muito bem acompanhada por um mix de legumes frescos

Mário João

Nunca tinha posto os pés no The Oitavos. E só depois deste almoço percebi o que ando a perder. É certo que não fica assim bem à mão, já que tem poiso junto à estrada do Guincho, já depois de Cascais – mas também ninguém aqui vem para uma rapidinha. Eu cheguei de BMW, conduzida durante meia hora pelo Nuno, um motorista novato e bastante simpático da Cabify, um dos parceiros da Pineapple Week.

Avisa-se já que pode ser confuso acertar com o Ipsylon. Há várias placas a indicar o restaurante, mas a dúvida adensa-se quando a entrada se faz por um dos portões da Quinta da Marinha e depois se tem de ultrapassar um enorme corredor do hotel The Oitavos. Todos os espaços comuns são em open space e vão aparecendo ao longo da enorme perna do Y, a forma como o arquiteto José Anahory concebeu este edifício. As janelas são brutais e permitem observar a paisagem, que varia entre uns selvagens pinheiros mansos, o verde artificial do campo de golfe e o azul do mar, sempre agitado. Na esplanada, a vista acaba na piscina exterior aquecida.

Não se vê vivalma na sala do almoço, até que uma mesa se enche ao nosso lado, já tínhamos nós aproveitado para molhar o pão de tomate no azeite nacional. A música ambiente quebra o silêncio naquele sítio todo em tons de azul e branco, do chão às toalhas que estão alinhadas nas mesas sem um vinco. Também existem três mesas sobre o comprido, servidas por cadeiras altas, ideais para uma degustação de pestiscos, que se escolhem da lista, de entre uma amostra que varia dos 6 aos 22 euros (croquete de bochecha de porco ou pata negra, por exemplo). Há muitas mais variedades de oferta gastronómica, consoante o espaço e a hora do dia, mas não foi para isso que aqui vim. Por isso, avancemos para o menu especial, que neste caso são dois. O The Oitavos optou por ter duas ofertas especiais, com preços diferentes, uma disponível ao almoço, outra ao jantar.

Carne do lombelo, que é o diafragma da vaca, mal passada, se faz favor

Carne do lombelo, que é o diafragma da vaca, mal passada, se faz favor

Mário João

A minha refeição, tomada à luz de um belo dia de Sol outonal, começa com uma salada de polvo de Cascais com legumes crocantes do momento. Vem tão bem arrumada que nem apetece estragar o retrato. Mas tem de ser e depressa se percebe que até sabe bem provar o tomate vermelho e amarelo, os espargos verdes (crocantes, lá está), as beldroegas, o funcho, a cebola roxa,a beterraba, o rábano e as ervas que dão um toque de jardim a esta entrada. O polvo, esse, está super tenro, casando lindamente com o tempero que o chefe Cyril Devilliers aplica. E tudo isto está afinado com o branco Santos da Casa, que é o que estará a jeito por estes dias. Não adianta, por isso, perder muito tempo a olhar para a cave dos vinhos, muito bem apetrechada, porque esses só para outras núpcias.

Admiro-me que, no meio de tanto esmero, com obras de arte pelo caminho, candeeiros de assinatura que rasgam o pé direito e jarras de flores arranjadas em falso blasé, se deixem as garrafas de água e de vinho em cima da mesa.

Adiante, que a carne já vem a caminho e havemos de aprender alguma coisa com este prato, que é descrito como bife do lombelo, só courgettes e compota de chalotas. Chefe, explique lá o que é isto de lombelo que a minha cultura gastronómica não dá para tanto. Cyril não se admira com a minha ignorância, pois explica, com um delicioso sotaque francófono, que se trata da parte do diafragma do animal, bastante suculenta, mas que é desperdiçada por cá. "É muito francês." Olha que pena, pensamos depois de provar a carne que se desfaz (embora nas pontas esteja mais rija) e é realmente saborosa. O acompanhamento, muito simples, só serve para quem gosta mesmo de curgete (eu cá até comi a flor). Por cima, e quanto mais não seja para um contraste de cor, leva confit de cebola e tomate, que remata muito bem. Com o lombelo, preferi o vinho tinto Caminhos Cruzados, do Dão, a outra hipótese para beber com os menus.

A tarte de limão, à francesa, com alguns brindes, como suspiros e espuma de manjericão. Só para os muito gulosos

A tarte de limão, à francesa, com alguns brindes, como suspiros e espuma de manjericão. Só para os muito gulosos

Mário João

A sobremesa é tarte de limão com sorvete de arando. Se por acaso ainda não tivesse percebido qual a origem do chefe, perceberia assim que provasse o doce. Antes de lá chegar, prefiro os mini suspiros (serão uma feliz tendência?) e os cubinhos de espuma de manjericão. O gelado está em cima de um crumble e serve para desenjoar da tarde, que, para o meu singelo gosto, é demasiado potente. Fico a pensar a que saberá o mont-blanc de abacaxi que fecha a refeição da noite, depois de uns ravioli de massa tenra e requeijão de Niza, glaciados de mel de alecrim, limão, cebolas-canela e boletus e de um pedaço de raia em meunière de bolota, arroz de cogumelos silvestres e couve coração. Querem ver que vou ter de aqui voltar, depois do Sol se pôr?

Pineapple Week > 29 set-9 out > Colinas de Lisboa > Hotel The Oitavos > €35 ao almoço, €45 ao jantar

  • Pineapple Week: O hotel não se fez só para dormir... – Primeiro ato

    Comer e beber

    Diz que há por aí muito bom restaurante escondido atrás de uma receção, que os hóspedes estrangeiros os frequentam mais do que os habitantes de Lisboa. A Pineapple Week começa esta quinta-feira, 29, para desmistificar essa realidade, disponibilizando menus entre os 25 e os 45 euros. E nós fomos comprovar, só para ter a certeza de que era mesmo assim. Aqui fica uma crónica em três atos ou, se se preferir, em três refeições

  • Pineapple Week: O hotel não se fez só para dormir – Segundo ato

    Comer e beber

    Diz que há por aí muito bom restaurante escondido atrás de uma receção, que os hóspedes estrangeiros os frequentam mais do que os habitantes de Lisboa. A Pineapple Week começa quinta, 29, para desmistificar essa realidade, disponibilizando menus entre os 25 e os 45 euros. E nós fomos comprovar, só para termos a certeza de que era mesmo assim. Aqui fica a crónica em três atos ou, se preferir, em três refeições