Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

Pineapple Week: O hotel não se fez só para dormir – Segundo ato

Comer e beber

  • 333

Diz que há por aí muito bom restaurante escondido atrás de uma receção, que os hóspedes estrangeiros os frequentam mais do que os habitantes de Lisboa. A Pineapple Week começa quinta, 29, para desmistificar essa realidade, disponibilizando menus entre os 25 e os 45 euros. E nós fomos comprovar, só para termos a certeza de que era mesmo assim. Aqui fica a crónica em três atos ou, se preferir, em três refeições

Estou para aqui às voltas sem saber por onde começar este texto. Adivinho como vai ser difícil exportar para palavras as sensações que tive à mesa do Lisboeta, o restaurante da Pousada de Lisboa, inaugurada no ano passado, mesmo no Terreiro do Paço.

Para não enredar mais o emaranhado de emoções que estão presas na ponta dos dedos e tornar a prosa lógica, opto por perseguir a cadência da refeição. Posso dizer que escolhi pão de milho, de entre umas tantas variedades, para provar as três manteigas caseiras que estavam no centro da mesa: de cabra, com azeitonas ou com chouriço. Pormenores – o que se seguiu, isso sim, é digno de registo.

O carabineiro do Algarve, primorosamente arrumado num empratamento colorido

O carabineiro do Algarve, primorosamente arrumado num empratamento colorido

José Caria

Vou saltar o amuse bouche de ananás, foie gras e gel de laranja, para ir diretamente para um dos pratos mais bonitos que vi nos últimos tempos. Era tão imaculada, a sua apresentação, que não me contive: peguei no telemóvel, fotografei-o e publiquei a imagem no Instagram. O nome do prato – carabineiro do Algarve, salada de pepino, azeitona e limão mão de buda – não levanta grande véu sobre o que chega à mesa. O Chefe Tiago Bonito (quem emprata uma coisa destas só podia ter este apelido) há de desvendar aquele colorido, sobre o prato preto, que o lembra das escarpas do sudoeste algarvio: há por ali gel de tomate verde, gel de carabineiro, rocha de choco recheada com ovas do mesmo (uma delícia), o tal limão mão de buda e ainda umas folhinhas a parecerem nenúfares num lago. Isto resulta num mix de experiências relevadas à medida que se exploram todos os componentes do prato, a começar no bicho exemplarmente cozinhado e descascado, acabando no pepino. Eu cá por mim, chefe, dispensava este fruto, mas é mesmo uma questão de gosto pessoal.

Depois disto, que mais me irá acontecer nesta mesa que assenta os pés numa alcatifa florida e fofa? Estou tão bem sentada num dos sofás, debaixo dos tetos abobadados em pedra e com vista para o claustro, que nem peço muito mais. Mas entretanto vou provando as três cervejas Bohemia (Trigo, Original e Puro Malte), a marca que vai estar disponível durante a Pineapple Week (os menus dão direito a uma cerveja, um copo de vinho ou água).

Leitão da Bairrada, com um maravilhoso twist dado pelo chefe Tiago Bonito. A cerveja é um dos acompanhamentos possíveis

Leitão da Bairrada, com um maravilhoso twist dado pelo chefe Tiago Bonito. A cerveja é um dos acompanhamentos possíveis

José Caria

E eis que chega o segundo prato, anunciado como leitão da Bairrada, batata confit, morcela e laranja sanguínea. Há que ir por partes: espeto o garfo na morcela, amassada em formato de pastel de bacalhau, e só consigo pensar na sorte que tenho de poder estar aqui, a comer um produto tão delicioso como este. Mal sabia eu o que me esperava quando cravasse o dente no leitão e a sua pele fizesse aquele crac, crac, que revela um estaladiço perfeito. Além da batata confit, ainda descubro umas fatias de figo e rabanetes por ali escondidas. Vou comendo devagar, devagarinho. Deixo para o fim um pedaço de leitão com pele, já com a nostalgia de estar a acabar um momento muito saboroso a apertar-me o coração. Espanto-me quando o chefe pergunta se, ao comer, tinha viajado até à Bairrada. "Não queria fazer algo que não fosse nosso, a tradição é para manter, dando-lhe um toque contemporâneo", justifica assim a sua preocupação. Esteja descansado, chefe, que fui ao infinito e mais além.

O pastel de nata deles, para comer à colherada e bem devagar

O pastel de nata deles, para comer à colherada e bem devagar

José Caria

Antes de trazer a sobremesa, Tiago Bonito conta que, quando se mudou do Algarve para Lisboa, via, admirado, como as pessoas comiam o pastel de nata nos cafés. "Muitas vezes recorriam a uma colher para rapar o interior e deixavam a massa no prato." Estava encontrada a inspiração para o doce mais emblemático do Lisboeta: o nosso pastel de nata de comer à colher.

É nestas alturas que gostaria de recorrer ao dicionário para roubar uma mão cheia de adjetivos. Só que ensinaram-me na escola a não abusar deles, mesmo que uma sobremesa nos tire do sério. No prato que me puseram à frente, uma recriação do tradicional "pastel de nata e um café com cheirinho", descobri texturas e temperaturas diferentes, acidez e doce, crocante e cremoso. A canela encontrei-a, disfarçada, no gelado, posto em cima de um crumble, a massa folhada de pernas para o ar escondia o fondant que derrama primorosamente à primeira investida, pelo caminho ainda lambi as reduções de limão, de aguardente e de café. Não vou conseguir ficar calada: no final da refeição, houve gemidos de prazer à mesa e não estou a falar de sexo.

Pineapple Week > 29 set-9 out > Lisboeta, Pousada de Lisboa > €45

  • Pineapple Week: O hotel não se fez só para dormir... – Primeiro ato

    Comer e beber

    Diz que há por aí muito bom restaurante escondido atrás de uma receção, que os hóspedes estrangeiros os frequentam mais do que os habitantes de Lisboa. A Pineapple Week começa esta quinta-feira, 29, para desmistificar essa realidade, disponibilizando menus entre os 25 e os 45 euros. E nós fomos comprovar, só para ter a certeza de que era mesmo assim. Aqui fica uma crónica em três atos ou, se se preferir, em três refeições