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Quatro novos discos para ouvir por aí

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Do mundo onírico de Jessica Pratt às exemplares canções pop dos Ten Fé, passando pelo som produzido pelo supergrupo Piroshka e pela homenagem a Joni Mitchell, eis quatro discos recentes a merecer uma escuta atenta

1. Quiet Lights, Jessica Pratt

Há vozes com poderes. A da californiana Jessica Pratt agarra-nos instantaneamente e leva-nos com ela, como o flautista de Hamelin. Para onde? Para um mundo pouco real, onírico, algures num passado mais ou menos mitológico, sem data certa. Talvez um recuo aos anos 60 do século passado, período dourado de renovação da cena folk, aqui com tanto de nostalgia melancólica como de luminosidade mais ou menos esperançosa.
Todas as nove canções deste terceiro disco – de Opening Night (que toma, não por acaso, o título de um filme de John Cassavetes) até Aeroplane – remetem para esse universo da melancolia, mesmo se muitas vezes as palavras que Jessica canta são tão cativantes como praticamente impercetíveis. Acontece com este disco, porventura, um pouco aquilo que muitos fadistas ouvem quando atuam, no estrangeiro, para públicos que não falam português: “Não entendi uma palavra mas percebi tudo, senti as emoções todas.” Se experimentarmos escutar este Quiet Signs, de seguida, com os olhos fechados ou na penumbra, há uma viagem garantida; e, no fim, a estranheza de abrirmos os olhos para a vida quotidiana como ela é.

2. Future Perfect, Present Tense, Ten Fé

Depois do promissor álbum de estreia Hit the Light, lançado há pouco mais de dois anos, o grupo londrino, com nome em espanhol, regressa com um disco que aponta em novas direções musicais. A principal mudança tem que ver com o assumir do formato do projeto, inicialmente formado pelo duo Ben Moorhouse e Leo Duncan e agora transformado numa banda de cinco músicos. O synth-pop à moda dos anos 80 do primeiro disco mantém-se por lá como ingrediente principal, mas é assumido neste novo Future Perfect, Present Tense como algo mais orgânico, por entre pitadas de soft rock dos anos 70, a lembrar Fleetwood Mac, e pinceladas do revisionismo pop springsteeniano que bandas como os The War on Drugs tornaram tão popular já neste século. Tudo isto é embrulhado por uma sensibilidade pop cada vez mais rara de encontrar, que, por breves momentos, num presente fugaz, faz com que temas como Won’t Happen ou No Night Last Forever nos pareçam as melhores canções de sempre...

3. Brickbat, Piroshka

Apesar de não se assumirem como tal, o epíteto de supergrupo assenta na perfeição a este coletivo, liderado por Miki Berenyi, a icónica guitarrista e vocalista dos Lush, uma das bandas que deu início ao movimento shoegaze, um estilo de rock alternativo surgido no Reino Unido, na viragem da década de 80 para a de 90 do século passado. Nesta primeira aventura musical fora da sua banda de sempre, Miki surge acompanhada de outros nomes históricos da música independente britânica, como o guitarrista KJ McKillop (Moose), o baixista Mick Conroy (Modern English) e o baterista Justin Welch (Elastica). Juntos, os Piroshka assinam este Brickbat, disco assumidamente pop, com uma mensagem forte de crítica à sociedade britânica (Brexit incluído), feito por músicos experientes que apenas se querem divertir, sem se importarem muito com o passado ou o futuro.

4. Joni 75, Vários

Registo de um concerto de homenagem à cantautora Joni Mitchell, por ocasião do seu 75º aniversário, celebrado a 7 de novembro de 2018. Nessa mesma noite, vários artistas subiram a um palco de Los Angeles para revisitar as canções deste nome maior da música popular norte-americana das últimas décadas.
Ao contrário do que acontece, muitas vezes, em discos deste género, feitos de versões, aqui não há nenhum lado de transgressão ou de tentativa de atualização de um repertório, contando com os códigos diferentes de músicos de outra geração, misturando géneros e estilos. A emoção e o afeto de uma superfesta de aniversário sobrepõem-se à criatividade ou ao arrojo artístico. Nada que ofusque vários bons momentos. Curiosamente, um dos mais envolventes é a interpretação de um tema que não faz parte do vasto cancioneiro de Joni Mitchell: ao cantar Our House, com grande ajuda, em coro, do público, Graham Nash recordava, a partir dessa popular canção dos Crosby, Stills, Nash & Young, os tempos, nos utópicos anos 60, em que viveu com a cantora na Califórnia.
Destaque para a limpidez das vozes de Diana Krall (em Amelia) e de Norah Jones (Court and Spark) e para a entrega de Rufus Wainwright, que faz suas duas canções de Joni Mitchell: All I Want e Blue. Seal, interpretando Both Sides Now, foi responsável por uma das grandes ovações da noite. Los Lobos, Chaka Khan, Glen Hansard, James Taylor, Kris Kristofferson, Brandi Carlile e Emmylou Harris são outros dos músicos que podem ouvir-se neste disco de celebração de uma vida (que continua).