Visão Sete

Siga-nos nas redes

Perfil

Os dias e os desabafos de Virginia Woolf no livro "Diário 1927-1941"

Visão Se7e

A autora inglesa, que mudou a nossa maneira de entender a literatura, revela-se nos diários: original, snob, quotidiana, inquieta. Diário 1927-1941, de Virginia Woolf, está à venda nas livrarias

"Diário 1927-1941" (Bertrand, 616 págs., €18,80) é o tomo que se segue a "Diário 1915-1926", ambos traduzidos por Maria José Jorge a partir dos cinco volumes publicados em língua inglesa. A editora Relógio D’Água lançou, em 2018, "Diários", com tradução de Jorge Vaz de Carvalho

"Diário 1927-1941" (Bertrand, 616 págs., €18,80) é o tomo que se segue a "Diário 1915-1926", ambos traduzidos por Maria José Jorge a partir dos cinco volumes publicados em língua inglesa. A editora Relógio D’Água lançou, em 2018, "Diários", com tradução de Jorge Vaz de Carvalho

Alguns dos livros mais amados de Virginia Woolf (1882-1941) foram escritos durante o período aqui contemplado (1927-1941) – caso de As Ondas, que ela confessa ser o livro que mais lhe havia “moído” a cabeça, sentindo-se “colada a ele, como a mosca no papel gomado”. Num domingo de 1931, 19 de julho, regista a escritora: “‘É uma obra-prima’, disse o L., ao entrar no pavilhão, esta manhã. ‘É o teu melhor livro.’ Anoto isto; e acrescento que ele também acha as primeiras cem páginas extremamente difíceis, e não sabe até onde lerá o comum dos leitores. Mas que alívio, meu Deus! Para desentorpecer, fui dar uma volta, à chuva, até à Quinta dos Ratos, num júbilo, e quase me resignei aos factos: está a ser instalada uma quinta para criação de cabras, com a respetiva casa em construção, na encosta perto de Northease.” Obras como Rumo ao Farol, Orlando, Um Quarto que Seja Seu foram escritas, então, à máquina ou com uma caneta que, por vezes, “chora lágrimas de tinta”.

Mas este é um diário profundamente íntimo, distante do objeto-para-a-posteridade: é o repositório de dias e de desabafos, que incluem revisões de provas estafantes, cortes de cabelo, dinheiros curtos, vida doméstica com o marido Leonard ou com a irmã, Vanessa Bell, os amigos (o Grupo de Bloomsbury), chás, coscuvilhes e afetos, viagens, depressões: “Porque, para dizer a verdade, a minha cabeça é toda nervos; e um passo em falso pode conduzir ao desespero galopante, à exaltação e a toda aquela infelicidade que eu tão bem conheço.” E ainda que essa “escalada de infelicidade” a tenha feito encher os bolsos de pedras antes de entrar no lago Ouse, suicidando-se em 1941 (a última entrada deste diário é um comentário sobre L. estar a cuidar dos rododendros), este livro é um extraordinário fresco da vida dela, e dos seus contemporâneos, e da oficina literária no que esta tem de mais honesto e lúcido.