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A peça "O Crocodilo ou o Extraordinário Acontecimento Irrelevante" tem muito do Portugal atual

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Pelo seu caráter surreal, inacabado e político, o conto O Crocodilo, do jovem Dostoiévski, foi adaptado ao teatro pelo encenador Rui Neto. O Crocodilo ou o Extraordinário Acontecimento Irrelevante, espetáculo com música original ao vivo, está em cena no Teatro São Luiz até 9 de fevereiro

Cláudia Marques Santos

A peça é interpretada por Ana Guiomar, Miguel Sopas, Rui Melo e Miguel Raposo

A peça é interpretada por Ana Guiomar, Miguel Sopas, Rui Melo e Miguel Raposo

Mário Galiano

A vida parece fazer mais sentido perante a morte, e há quem não se demore a tentar tirar partido disso. Na verdade, todos os envolvidos nesta trama. Adaptado de um conto de Dostoiévski (de seu nome O Crocodilo), O Crocodilo ou o Extraordinário Acontecimento Irrelevante conta a história de um senhor, Ivan, que, de visita com a noiva a um parque natural, é engolido por um crocodilo albino. A lua de mel ia ser passada nas ilhas Galápagos (ele) e em Paris (ela) – sim, em separado, que o conto é de índole surrealista –, e este pormenor é aqui contado porque vai revelar-se da maior importância para o desenrolar dos acontecimentos. A peça abre com o narrador, melhor amigo de Ivan, a colocar os espectadores em contexto. E começa por enganá-los, com datas e locais falsos (atitude muito pertinente nos dias que correm...) para apenas depois fazer a emenda.

“O que me atraiu no conto foi este lado surrealista, absurdo, que permitia jogos cénicos e me colocava desafios: como é que este crocodilo iria ser? O que ia escolher para pôr aqui?”, conta Rui Neto, que fez a adaptação do texto e encenou a peça. Em palco, estará um mecanismo metálico, forrado a plástico transparente, a fazer de cabeça do bicho. “Para mim, é uma máquina que tritura, que nos faz desaparecer. É um sistema que destrói os sonhos”, defende. “Eu acho que esta personagem do Ivan, engolida pela máquina, é, na verdade, o único sonhador. É muito irritante, só que é o único que tem sonhos.” Ivan é uma figura cansativa, fala pelos cotovelos, tem ideias e opiniões sobre tudo. A comicidade da peça oscila entre o satírico e o absurdo, e as várias camadas de sentido das sucessivas ações conduzem a história para caminhos inesperados. “O conto original tem uma particularidade muito curiosa: é inacabado; a razão tem que ver com o facto de Dostoiévski ter escrito este conto em trechos, para um jornal, e o jornal fechou”, explica Rui Neto, que acrescentou um final à peça. “Tentei que se mantivesse em aberto, ainda assim, que pudesse pensar-se: ‘Se calhar há aqui um um erro...’”. E voltámos ao início...

Neste domingo, 3, após o espetáculo, está marcada uma conversa com os artistas, moderada por David Antunes.

O Crocodilo ou o Extraordinário Acontecimento Irrelevante > São Luiz Teatro Municipal > R. António Maria Cardoso, 38, Lisboa > T. 21 325 7640 > até 9 fev, qui-sáb 21h, dom 17h30 > €12