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Presentes no sapatinho: 15 livros para oferecer neste Natal

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Democráticos, podem ser lidos em partilha ou assumidos como prazer solitário. Seleção de 15 livros recentes, tanto romances como volumes de poesia e de ensaio, que bem merecem ganhar um laçarote e serem pousados junto à sua Árvore de Natal

1. ELIETE, de Dulce Maria Cardoso

“Escrever sobre personagens que não são especiais é dificílimo, garante Dulce Maria Cardoso sobre Eliete, Parte I A Vida Normal (Tinta da China, 288 págs., 18,90), o seu muito aguardado quinto romance, após O Retorno, esse “monstro” de sucesso, sobre a descolonização viviva pelos olhos de um rapazinho, que continua a reverberar no imaginário e nos afetos dos leitores. Retrato marcante da vida portuguesa contemporânea, com Tinder incluído, Eliete é o primeiro volume de uma trilogia anunciada. A protagonista é uma quarentona com aspirações não cumpridas, pertencente à burguesia confortável de Cascais, casada e mal amada, filha e neta de mulheres com contas a saldar com o passado, cuja (ir)realidade está toda no telemóvel. Uma mulher “mediana” que reflete as grandezas e misérias de Portugal e a gentrificação tecnológica vivida no Facebook ou no Tinder. E que serve bem o retrato vigoroso, complexo, belissimamente costurado, da geração do pós-25 de Abril, somatizado em futebol, Facebook, sexo e, ainda, Salazar como pai tirano.

2. ESTAR VIVO ALEIJA, de Ricardo Araújo Pereira

A vida não é para meninos, confirmaram os leitores brasileiros ao ler a primeira crónica, e agora os primeiros parágrafos, de Estar Vivo Aleija (Tinta da China, 152 págs., €15,90), compilação das crónicas feitas por Ricardo Araújo Pereira para o jornal Folha de S. Paulo, entre abril de 2017 e agosto de 2018 (antes de o terramoto Bolsonaro dominar as ruas e os média). O cronista excelentíssimo (causador dessa particular dislexia que faz tantos leitores começarem a folhear a VISÃO pela última página) avisa logo: “O escritor Manuel da Fonseca disse: ‘Isto de estar vivo ainda um dia acaba mal.’ Levei a cabo algumas pesquisas e sinto-me muito inclinado a concordar. Por isso, todas as semanas escreverei aqui sobre a vida, esse caminho de dor, angústia e desespero que culmina na morte. Serão textos humorísticos.” É um chapéu de chuva grande, que Ricardo Araújo Pereira salpica com temas tão diversos como os requisitos da sua cremação (inclui vacas amarelas em papier mâché, Céline Dion e a palavra “clavícula”), a falta de arrependimentos de Edith Piaf (“Eu sou o seu rigoroso inverso: arrependo-me de tudo”, garante), a tentativa de compra do silêncio de Eduardo Cunha pelo Presidente Temer (mecenato, propõe ele), as razões para ter filhos, as “falangetas pérfidas” ou os volúveis paradigmas dos estudos científicos (“Que vilão se reabilita tão depressa? Quem foi que, no espaço de um ano, convenceu as gorduras a abandonarem o lado negro e a juntarem-se ao bem, e porque é que o autor da proeza não protagoniza ainda uma série da Marvel, convertendo os bandidos de Gotham City com o mesmo método não-violento.”) Pensos rápidos para a vida, é o que é.

3. INVERNO, de Ali Smith

Charles Dickens é citado: “A escuridão é barata.” E o seu clássico Um Conto de Natal (1843) é evocado, com Ali a recordar o avarento Scrooge através da protagonista, Sophia Cleves: mulher bem-sucedida a viver numa mansão com 16 quartos, recordando Natais (e outros dias) passados. Às primeiras páginas, Sophia enfrenta uma cabeça sem corpo. Mas outros fantasmas rondam: a irmã muito diferente, Íris; o filho com pretensões artísticas (Arthur, ou Art); a namorada falsa deste, arranjada para a ocasião... Outras referências caem neste Inverno (Elsinore, 286 págs., €18,79), segundo volume (depois de Outono) de um prometido quarteto literário: Shakespeare, a escultora Barbara Hepworth, Theresa May e até Donald Trump (a endeusar notas de dólar). São o Brexit e o cortejo das misérias contemporâneas (tecnologia, refugiados, consumismo...) que, com humor, nos assombram aqui.

4. LUANDA, LISBOA, PARAÍSO, de Djamilia Pereira de Almeida

Encimado por ilustração de Susa Monteiro, Luanda, Lisboa, Paraíso (Companhia das Letras, 232 págs., 16,50) é o segundo livro da autora, após Esse Cabelo, estreia celebrada numa narrativa identitária que parte dos cabelos crespos para uma grande viagem literária. Neste volume, conhecemos Aquiles, batizado com “nome helénico” pelo pai, que assim tentou “resolver o destino com a tradição” perante o infortúnio genético da criança ter nascido com um calcanhar esquerdo avariado. É nesta circunstância fortuita que, com a força e o simbolismo do mito grego, se anunciará o desabamento da casa, futuro, afetos e dignidade, dos Cartola de Sousa. Se uma história se parece com o corpo de um animal, então pode começar por um calcanhar, lança Djaimilia Pereira de Almeida às primeiras linhas deste romance pungente, lírico, contido, serzido com simbolismos e imagens poderosas, que, em 200 páginas, narra uma demanda sacrificial marcada pelos acidentes da vida e pelo desfazer das ilusões pós-colonialistas. O pretexto da ida de Aquiles e do pai, Cartola, a Lisboa, dez anos após a independência de Angola, para que o então adolescente de 15 anos fosse operado ao pé e ressuscitasse, ágil como Lázaro, é o evento-âncora para uma viagem literária entre o passado e o futuro, entre o texto e os registos epistolares (as cartas trocadas entre Cartola e a mulher doente, Glória, a “única negra fula de luvas de renda e saltos-agulha admitida no Hotel da Ponte Branca”), entre sonho e realidade, chorinho e fado.

A Lisboa mitificada resvalará para fora do postal ilustrado: o protetor prometido, Barbosa da Cunha, médico branco encostado à vaidade e à condescendência da elite dominadora, sacudirá responsabilidades; a pobreza sem documentos levá-los-á até às margens menos triunfantes da história (a periférica Quinta do Paraíso, a miséria e os canteiros da construção civil clandestina e mal paga, onde o galego Pepe será uma jangada emocional). Se O Retorno, de Dulce Maria Cardoso, destapou as dores de regresso dos filhos pródigos, Luanda, Lisboa, Paraíso revela órfãos, inocentes e digníssimos, da História.

5. OBRA POÉTICA - LIVRO 1, de António Ramos Rosa

É um tomo impressionante, como já se vai vendo pouco (mas assinale-se outro lançamento semelhante recente: Poesia, de António Botto). António Ramos Ramos (1924-2013), poeta prolífico a quem assentava como verdade absoluta esse lugar-comum do “escrever como quem respira”, autor torrencial, orgânico e celebratório, tem agora a sua obra integral revista e fixada, permitindo-nos revisitar livros há muito desaparecidos. O primeiro volume de Obra Poética (Assírio & Alvim, 1264 págs., €44) junta poemas publicados entre 1958 e 1987, numa edição organizada pelo também poeta Luís Manuel Gaspar (com colaboração de Agripina Costa Marques e Maria Filipe Ramos Rosa, a viúva e a filha do poeta), que trabalhou sobre originais com emendas do autor. Um feliz reencontro com o poeta que clamava “o direito de viver pela escrita incorrupta”.

6. TEORIA GERAL DO ESQUECIMENTO, de José Eduardo Agualusa

Reedição de um romance marcante, Teoria Geral do Esquecimento (Quetzal, 246 págs., €16,60), belíssima metáfora histórica, tem uma personagem inesquecível: Ludovica Fernandes Mano, mulher portuguesa de Aveiro arrastada pela irmã e pelo cunhado para fora da pátria, e que, na véspera da independência de Angola, desamparada, cria a sua própria Arca de Noé. Isto é, empareda-se no seu apartamento, num prédio babilónico, contra a fúria temida durante 30 anos. Em seu redor, o país sofre as convulsões necessárias e surgem habituais personagens inesquecíveis. Ela escreve: “Os dias deslizam como se fossem líquidos. Não tenho mais cadernos onde escrever. Também não tenho mais canetas. Escrevo nas paredes, com pedaços de carvão, versos sucintos, poupo na comida, na água, no fogo e nos adjetivos.”

7. AOS OMBROS DE GIGANTES, de Umberto Eco

“Sou uma daquelas pessoas que fazem o que lhes dizem para fazer.” Poderia ser uma blague do filósofo, semiólogo e eminente medievalista desaparecido em 2016, que deixou como gigante herança de pensamento uma espécie de manual de bem-fazer, bem-analisar, bem-imaginar - tão essenciais numa altura em que valores dados como adquiridos aparentam estar em risco. Mas essa mesma frase de Umberto Eco, linha inaugural de uma aula que não chegou a proferir, Representações do Sagrado (incluída nas últimas páginas), também serve para introduzir um volume perfeito para ganhar um belo laçarote de Natal. Aos Ombros de Gigantes (Gradiva, 444 págs., 31) contém a recolha de 12 textos de Eco criados propositadamente para o festival La Milanesiana, onde o próprio os proferiu entre 2001 e 2015. Aí, o filósofo aceitou por diversas vezes seguir o tema escolhido para cada edição anual, contemplando filosofia, literatura, comunicação, estética ou teologia...

Não há exigências cronológicas na leitura. Abra-se ao acaso um dos temas: Aos ombros de gigantes; A beleza; A fealdade; Absoluto e relativo; A chama é bela; O invisível; Paradoxos e aforismos; Dizer o falso, mentir, falsificar; Sobre algumas formas de imperfeição na arte; Algumas revelações sobre o segredo; A conspiração; Representações do sagrado... Em todos, Eco pratica a coloquialidade erudita, bem-humorada, acessível, salpicada nesta edição por belas reproduções de obras de arte, como um museu imaginário e ilustrativo das suas palavras. São matéria que nos sublinha a importância da voz do intelectual, que aqui perspetiva o futuro e as novas gerações: “Os piores diagnósticos de cada época são, justamente, os contemporâneos (...). Talvez gigantes que ainda ignoramos se estejam já a mover nas sombras, prontos a sentarem-se aos nossos ombros de anões.”

8. VIDA MODERNA, de Maria Filomena Mónica

Estas crónicas, publicadas na imprensa nacional, entre 1985 e 1996, escritas quando a investigadora e autora tinha entre os 42 e os 53 anos, agora coligidas por mão atenta em Vida Moderna (Quetzal, 496 págs., €22,20) repassam as perplexidades e as paixões de sempre, assim enumeradas pela própria: rebeldia, ansiedade, hipocondria, a desconfiança em relação ao Estado, a preocupação com as desigualdades sociais e a defesa dos direitos das mulheres. A vida é observada através da forma sempre livre de Maria Filomena Mónica: o estado do mundo e os costumes pátrios são alvo da lucidez, do pendor queirosiano e do desembaraço da ex-aluna de Oxford. Da guerra do Iraque aos Natais sem filhos, da importância do silêncio ao amor por Verdi, da insegurança nas esquadras a Paris, há que ser seduzido pelas suas singularidades.

9. PRINCÍPIO DE KARENINA, de Afonso Cruz

Portugalidade granítica, ecos asiáticos e mundo globalizado entretecem-se nesta novela, versão terna do romance de Tolstoi. Princípio de Karenina (Companhia das Letras, 192 págs., 15,50) teve origem numa viagem organizada pelo Centro Nacional de Cultura ao Vietname e ao Camboja e num texto escrito por Afonso Cruz para Pasta e Basta, espetáculo de Giacomo Scalisi sobre teatro e culinária. Imagine uma enciclopédia do mundo. Depois, imagine-a a ser fechada numa caixa, agitada, misturadas as geografias, filosofias e teologias, ouvir-se abracadabra! e, tcharan, eis uma maravilha. Na literatura portuguesa contemporânea ninguém faz esse passe de mágica melhor do que Afonso Cruz. Nesta novela de capítulos curtos como histórias de embalar, pontuados por fotografias suas (ilusões de movimento), ele costura Camilo Castelo Branco, Heródoto, a Guerra do Vietname, uma homenagem ao pai, guerras religiosas, temas contemporâneos como a globalização (metaforizada através da comida) ou os imigrantes (Uma boa parte da Humanidade pode ser definida pela doença do meu pai, pelo medo, conta; e mais lá para a frente fala-se de beijos que espalham 80 milhões de bactérias: “Somos povoados de estrangeiros”). Mas também apontamentos botânicos, um vocabulário rico (“turiferário”, “apocatástase”, “sensação háptica” – sabe o que significam?) e até os contos de fadas dos irmãos Grimm (a propósito do medo do mundo, fala-se numa “fera terrível lá fora”: “O meu objetivo, aos oito anos, era chegar aos subúrbios sem morrer de medo pelo caminho”). E há, ainda, a rima constante do tema dos anjos caídos que devem ser levantados... Tudo é desfiado na longa carta de um pai a uma filha, que não o conhece, em que descreve a infância de menino coxo numa “casa de pedra” bem fechada pelo pai, que se comportava como se “o mundo que estava para lá da sua pele o agoniasse” e para quem o estrangeiro começava “no tapete da porta da rua” até à Cochinchina. A mãe, era uma estrangeira nesse lar. O amigo, Dois Metros, um estrangeiro no seu corpo. Casado, adormecido como a Anna Karenina de Tolstoi, também este protagonista medroso enfrentará o mundo através de uma paixão extraconjugal: uma criada vietnamita que lhe serve “uma espécie de planisfério à mesa”: “Quando olho para ela, vejo uma janela aberta.” O amor será trágico, o livro é agridoce. O júbilo de viver vence.

10. APRENDER A CANTAR NA ERA DO KARAOKE, de Fernando Luís Sampaio

Quem conhece a poesia produzida em Portugal entre 1980 e 2000 recorda-se bem da labareda dos volumes assinados por Fernando Luís Sampaio: Conspirador Celeste valeu-lhe o Prémio Revelação de Poesia 1981 da SEC/APE; Hotel Pimodan, Sólon (ambos de 1987) e Escadas de Incêndio (2000) sagraram uma voz elegante, uma melancolia urbana povoada de afetos e feridas existenciais. Veio o silêncio, interrompido por Falsa Partida (2005). Agora, Aprender a Cantar na Era do Karaoke (Tinta da China, 248 págs., 16,90) reúne os livros e revela o inédito Roubar o Fogo, reconciliando-nos com um poeta intimista, só aparentemente blasé, com “tralha e cicatrizes”, amparado pelas bandas sonoras de eleição e pela palavra: “Sem centro ou certezas,/ o verbo é um rumor/ que transporta o mundo/ como moeda/imaginada na tua boca.”

11. A MORTE DO COMENDADOR vol. 1, de Haruki Murakami

Se este 14º romance do autor japonês fosse uma anedota, o título poderia ser a linha de abertura: tanto o herói atormentado do clássico de F. Scott Fitzgerald como o protagonista da ópera Don Giovanni composta por Mozart são aqui chamados, fazendo-se acompanhar por (outras) obsessões familiares a Murakami, como a vontade de reclusão, as predileções sobrenaturais, a cinematografia de Akira Kurosawa, o jazz ou o rock militante de Bruce Springsteen, os fantasmas do corpo... Mas o leitor não pode ficar à espera de uma punch line direta: A Morte do Comendador (Casa das Letras, 408 págs., 19,90) é um romance de acumulação, de volteios, de curvas e contracurvas, de falsas chegadas. Em suma, um volume que promete mais desconcertos e interrogações do que respostas, exigindo um reforçado pacto de fé entre quem lê e quem escreve. Tudo começa com uma história banal: um pintor de 36 anos enfrenta a crise de um divórcio fazendo-se à estrada e refugiando-se numa casa isolada nas montanhas de Odawara. Esse é um lugar pertencente a Tomohiko Amada, artista famoso agora senil, e em cujo sótão aparece uma pintura impressionante: uma reinterpretação de Don Giovanni que há de sair do quadro e entabular diálogos metafísicos... Não é a única visitação: há um fantasma, uma amante, e esse estranho vizinho, Menshiki, um barão de tecnologias que manipula o Google e tem uma fixação por uma miúda de 13 anos (presumivelmente sua filha) que mora na região – e que evoca o referido Gatsby. São todos chamados ao bar, para uma noitada pop e imaginativa, que poderá deixar ressaca em alguns.

12. TANTAS PALAVRAS, de Chico Buarque

As letras do brasileiro genial leem-se como prosa poética, sem a muleta da música, e este livro faz prova disso. Mas, para quem quer espreitar a biografia, Tantas Palavras (Companhia das Letras, 496 págs., €23,90) inclui uma “reportagem biográfica” de Humberto Werneck, onde são narrados o princípio da carreira, os embates com a censura, as circunstâncias em que “brota” uma canção, o instante da criação em que “vai do inferno ao paraíso” aquele que, em 1969, escreveu “Agora falando sério/ preferia não falar...”.

13. POR SARAMAGO, de Anabela Mota Ribeiro

Este livro híbrido recorda e homenageia o Nobel português, rente ao mistério da intimidade. Fecha-se o volume e há o desejo de sentar-se debaixo da oliveira centenária vinda da Azinhaga, hoje enraizada em frente à Fundação José Saramago e onde estão as cinzas do escritor, “simplesmente para existir”. A expressão é de Anabela Mota Ribeiro, que a usa ao descrever esse lugar à beira de uma outra oliveira, à entrada da biblioteca da casa de Lanzarote onde o Nobel viveu, e na qual há “uma cadeira e uma pedra vulcânica com tamanho de meteorito, para pousar os pés ou para nada, simplesmente para existir, existência bela”. Por Saramago (Temas e Debates/Círculo de Leitores, 184 págs., €19,90) é uma bela e sentida homenagem da jornalista ao Nobel português, quando se celebram duas décadas da atribuição do galardão, que o reconheceu como grande autor com livros feitos para a eternidade. É uma tapeçaria intimista, composta por duas entrevistas feitas ao escritor nos últimos anos da sua vida, uma outra entrevista a Pilar del Río, dois textos evocativos − um, A Casa de Lanzarote; outro, registado a partir de uma viagem de Anabela ao México, José (Saramago) é mexicano e ainda um posfácio elegíaco do poeta e ensaísta Fernando Gómez Aguilera, diretor da Fundação César Manrique. A destacar, a presença e pontuação marcantes no livro, pelas muitas fotografias inéditas de Estelle Valente, um ensaio visual num preto-e-branco dramático. Numa última pergunta, a jornalista questiona Saramago: Escreve para ser amado? Escrever é uma forma de ser amado? Ouviu isto: “Pode ser entendido assim. O Gabriel García Márquez dizia que escrevia para que gostassem dele. É possível. É mais exato dizer que a gente escreve porque não quer morrer (...). Não é imortalidade, isso seria um disparate; é um reconhecimento por algum tempo mais.”

14. CONTOS ERÓTICOS DO VELHO TESTAMENTO, de Deana Barroqueiro

Numa bela reedição, estes Contos Eróticos do Velho Testamento (Planeta, 424 págs., €18,85) alinham com o zeitgeist da época, entre o movimento #MeToo e a denúncia das desigualdades de género. No prefácio, Maria Teresa Horta destaca que à tradicional visitação do universo bíblico moralista, “repleto de anciãos preguiçosos, libidinosos e lascivos”, acrescenta-se aqui uma leitura sensualista e atenta das (lutas das) suas figuras femininas, protagonistas destas páginas.

15. Sangue & Fogo, de George R.R. Martin

Os milhões de leitores de As Crónicas de Gelo e Fogo, saga que originou a série A Guerra dos Tronos (cuja oitava e última temporada será transmitida em 2019) esperavam algo diferente: o muito adiado sexto livro que completava a sangrenta demanda pelo Trono de Ferro, ameaçada pelos White Walkers e a muito citada chegada do inverno. George R. R. Martin subverteu o jogo: o autor de fantasia mais popular e bem pago do mundo resolveu, antes, narrar a história da Casa de Targaryen, cuja última herdeira é Daenerys Targaryen, denominada Mãe dos Dragões. Dois volumes vão arrumar a sua árvore genealógica, e este é o primeiro: Sangue & Fogo, A História dos Reis Targaryen Volume 1: Parte 1 (Saída de Emergência, 352 págs., €18,80) é uma prequela, situando a narrativa séculos antes dos eventos da série televisiva, quando a dinastia Targaryen (única família de senhores dos dragões a sobreviver à queda misteriosa de Valyria) se instala em Pedra do Dragão.

O novo livro começa com a história do criador do dito Trono de Ferro, Aegon, o Conquistador, e a saga acabará na guerra civil que destruiu a família real, pelo caminho explicando muitas pontas soltas abordadas na série, como a origem dos três ovos de dragão de Daenerys. Cerca de 200 mil palavras foram repescadas do manuscrito original das Crónicas de Gelo e Fogo, mas há muito material novo assinado por George R. R. A narrativa é ainda entrecortada por ilustrações a preto e branco, em traço realista, da autoria de Doug Whealey. O leitor só tem que se abeirar desta torrente de personagens, acontecimentos, reviravoltas, árvores genealógicas amplas, magias e tragédias proto-medievalistas.