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Estas férias, sente-se no areal com dez bons livros por companhia

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Policiais, poesia, piadas ou prosas perfeitas?Há quem não viva sem um tablet mas os dias longos, sem horários nem preocupações, ainda pedem a melhor invenção do mundo: um bom livro em papel. Escolhemos uma dezena de volumes recentemente editados, entre novidades e clássicos, para ler, partilhar e passar ao próximo

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Há quem goste de apanhar conchas na areia e há quem prefira colecionar histórias, sentado na chaise longue com vista para o mar ou para o campo. Como as de Sessenta contos (Cavalo de Ferro, 456 págs., €23,99), a antologia que Dino Buzatti (1906-1972) escreveu e organizou segundo o seu gosto pessoal - sempre elegante e imaginativo. O autor italiano, mais reconhecido por romances de grande fôlego como O Deserto dos Tártaros, revela-se igualmente um grande mestre da história curta e das ficções surreais, aqui bem exploradas. Outro oficiante da arte de narrar um conto e acrescentar um belo ponto, é Mário de Carvalho em Burgueses Somos Nós Todos ou Ainda Menos (Porto Editora, 112 págs., €16,60) , o seu 11º volume dedicado a onze narrativas curtas apenas em tamanho. Tendo a ironia e a melancolia como pontos cardeais, reencontra-se o autor, um virtuoso da língua portuguesa que derrama um olhar arguto e agridoce sobre o nosso País e as suas idiossincracias.

Contos curtos, grandes inquietações, nesta antologia premiada

Contos curtos, grandes inquietações, nesta antologia premiada

Ainda mantendo a respiração do conto, mas transportando os leitores para outras latitudes, está a antologia de dezoito histórias cirurgicamente concebidas por Samanta Schweblin em Pássaros na Boca (Elsinore, 158 págs., €16,59), reedição da sua obra galardoada com o Prémio Casa de las Americas 2008. A temperatura destes contos arrefecerá a pele: a autora argentina imprime um tom inquietante, uma vertigem de precipício a cenários quotidianos, estradas convidativas, gente aparentemente normal. Logo a abrir, em Irman, um par de amigos desemboca, sedento e cansado, numa pousada vazia, onde são atendidos por um empregado de pequena estatura e ar desorientado, “como se alguém o tivesse posto ali repentinamente e ele agora não soubesse muito bem o que fazer”. Na cozinha, jaz o corpo de uma mulher que parecia “um animal marinho deixado pela maré”: a empregada que conseguia chegar aos armários mais altos da cozinha… Esta é a porta de entrada para um universo singular, todo alcançado em apenas duas tardes de leitura.

Horas de desporto lúdico aguardam os leitores de Obra Perfeitamente Incompleta (Tinta da China, 312 págs., €22,90), último tomo da coleção dedicada ao humor, comissariada por Ricardo Araújo Pereira, que repesca agora três livros esquecidos de José Sesinando (1923-1995), o cronista que inspirou gerações de leitores no Jornal de Letras, Artes e Ideias, com aforismos, trocadilhos, “escrituralismo”. Abre-se uma página ao acaso e a mente regista uma lufada de ar fresco. E quem gosta de juntar o útil ao ócio, A Vida Secreta dos Animais (Pergaminho, 240 págs., €16,60) é uma boa escolha. Ensaio escrito pelo guarda-florestal e estrela mediática Peter Wohlleben, reúne tanto dados científicos como histórias reais sobre bichos de todos os tamanhos, observados nos bosques ou nos quintais, depois arrumados em curiosidades e reflexões que ambicionam demonstrar como os animais têm uma paleta emocional mais complexa do que se imagina. Sem radicalismos new age, o autor desafia o paradigma da singularidade emocional dos seres humanos e pondera sobre a capacidade dos animais - seja a sua cadela Maxi ou os esquilos que visitam o jardim da família - também sentirem e atuarem de acordo com emoções complexas como o amor, o altruísmo, o luto, a curiosidade.

Outras emoções são proporcionadas na companhia do primeiro romance de Roberto Saviano, jornalista a quem a Máfia napolitana aplicou uma fatwa. Os Meninos da Camorra (Alfaguara, 384 págs., €19,90) é inspirado na realidade que o autor de Gomorra conhece bem: crime, ambição, impunidade, dinheiro fácil, vividos nas ruelas dos bairros italianos dominados por famiglias. E se um thriller ou um best-seller são ingredientes essenciais em muitas listas de leituras de verão, investigue-se um livro que junta os dois mundos: O Desaparecimento de Stephanie Mailer (Alfaguara, 664 págs., €22) de Joël Dicker, suíço que chegou aos tops com A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert (2013). Para os admiradores do seu estilo, construído com capítulos curtos, uma míriade de personagens, reviravoltas e saltos temporais, muitos coelhos brancos e pistas falsas a seguir antes da conclusão, dramas familiares e cenários cinematográficos, este será um reencontro feliz. A vila balnear de Orphea, nos EUA, é sacudida, em 1994, pelo massacre da família do presidente da Câmara. Vinte anos depois, Stéphanie Mailer clama que a investigação policial e a prisão efetuada duas décadas antes não apanhou o culpado dessas mortes, mas, dias depois, a jornalista desaparece. Um retrato do lado B do postal americano, cujas centenas de páginas não pesam.

"O Poder", de Naomi Alderman explora a premissa e as metáforas de um mundo dominado por mulheres

"O Poder", de Naomi Alderman explora a premissa e as metáforas de um mundo dominado por mulheres

Outro pageturner? Obama gostou de ler este romance, que explora o zeitgeist destes tempos sacudidos pela ampla discussão em torno da igualdade de género: O Poder (Saída de Emergência, 368 págs., €17,70) de Naomi Alderman explora a premissa e as metáforas de um mundo dominado por mulheres, graças a uma misteriosa mutação genética que lhes proporciona poderes, ameaçadores para o status quo. Para quem gosta de leituras em família, eis um clássico que mantêm intacto o seu fascínio: A Ilha do Tesouro (Sextante, 288 págs., €16,60) de Robert Louis Stevenson, numa edição que recupera o charme vintage e as ilustrações de Georges Roux, proporciona um reencontro feliz com memórias da infância e com os arquétipos dos piratas e das aventuras em alto mar. Uma fábula de iniciação à vida adulta, protagonizada por um adolescente, Jim Hawkins, e por temíveis lobos do mar com pernas de pau e papagaios ao ombro, todos embriagados pela miragem do ouro. Outro tesouro é mineirado em Labareda (Tinta da China, 272 págs. €21,90), uma antologia com inéditos do poeta Alberto de Lacerda (1928-2007), nascido em Moçambique, enterrado em Londres, figura habitada por imensos amigos, e em cuja escrita são encontradas geografias tão diversas como a Ilha de Moçambique, Austin, Boston, Washington, Londres, o Palácio do Alhambra e as varandas de Espanha, a Mouraria de Cesariny… Na Cidade do México, ele escreveu estes versos luminosos, em 1969: “Um sol interior/ Um sol exterior/ Um sol interior munificente/ um sol exterior munificente/Exigente/ Uma serpente em espiral em direção /Ao sol/ As cores últimas resolvidas na coluna/Do sol/ O sol/ em majestade”. Boas leituras.