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Professores sem fronteiras II

Especial aniversário

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Além dos testemunhos que publicamos na edição impressa, chegaram-nos mais depoimentos de portugueses que dão aulas em todo o mundo. O que têm, afinal, as universidades estrangeiras que Portugal devia importar?

Pedro Antunes, gestão de informação, Victoria University of Wellington, Nova Zelândia

As universidades públicas portuguesas sofrem de uma perceção errada do que é o "bem público". Oferecendo um bem público, não podem ser tratadas como extensões da administração do estado. As universidades têm de se libertar de tutelas, leis e estatutos que corroem o seu funcionamento. A relação com a administração do estado pode e deve ser restringida a apenas duas questões, avaliação de qualidade e financiamento. Nada mais. Passem todas a fundações. Tenham bons curadores. Centrem-se nos alunos. Mas mesmo na situação atual as universidades públicas portuguesas têm uma boa imagem internacional. Porque não fazer este exercício na área da justiça?

Ana Barros, Engenharia Civil e Ambiental, Duke University, EUA

No meu caso, um dos maiores atrativos que guiou a minha decisão para ficar nos EUA foi a possibilidade de desenvolver uma carreira científica e programa de investigação independentemente e por mérito próprio sem ter que esperar por promoções incertas que podem demorar décadas a acontecer...

Ana Teixeira, Bioengenharia, Instituto Karolinska, Suécia

O Karolinska tem professores com um perfil de ensino e com perfil de investigação. Para mim, o facto de poder dedicar-me a investigação quase a tempo inteiro tem sido muito positivo. Não será tudo perfeito: somos apenas 18% mulheres professoras no departamento, embora a maioria dos estudantes sejam mulheres. Aí confesso que a situação é muito melhor em Portugal.

Maria Ana Valdez, Estudos Religiosos, Yale University, EUA

Comparar qualquer universidade portuguesa com uma Ivy League americana é uma impossibilidade. Nos últimos anos, tive a oportunidade de lecionar em escolas da Ivy League como a Brown, Columbia e Yale. Os recursos nestas instituições são infindáveis, os arquivos estão organizados, as bibliotecas trabalham 7 dias por semana. Os alunos, esses, vêm dos quatro cantos do mundo com experiências muito diferentes, apostados em aprender tudo o que puderem e mais um bocadinho. Aqui, quer seja numa aula de História de Portugal, de literatura, ou mesmo de língua portuguesa, os alunos querem sempre mais. Como professora espero sempre o impossível e, raramente fico desiludida com as ideias "out of the box" dos meus alunos. Aqui, eu trabalho para o aluno, uma aula nunca é igual e raramente segue à linha o meu plano de aula. Sou avaliada continuamente e os resultados influenciam o meu futuro. Aqui os alunos trabalham e, acima de tudo, aprendem a questionar o professor e as leituras. Sim, porque aqui os alunos leem cerca de 200 páginas por semana.

Inês Sá Almeida, Química Analítica Ambiental, Universidade de Melbourne, Austrália

Estou aqui há mais ou menos dois anos e meio e a minha experiência tem sido muito boa. Vim para Melbourne porque, depois de dois anos a tentar conseguir uma posição pos-doc em Portugal sem sucesso, decidi agarrar a oportunidade que me foi oferecida aqui.

A Universidade de Melbourne é bastante conceituada, não só a nível de ensino, mas também a nível de investigação. Mas há que ter em consideração o país e a cidade em que está inserida. Melbourne foi considerada a melhor cidade do mundo para se viver segundo o "City Liveability Ranking", sendo que esta avaliação foi baseada numa combinação de estabilidade, cuidados de saúde, acesso à cultura e ambiente e infraestruturas. Além disso, três outras cidades australianas estão entre as sete melhores cidades para se viver. Infelizmente, nas 50 primeiras posições não há nenhuma cidade portuguesa!

Penso que as Universidades Portuguesas têm sofrido bastante com a crise económica dos últimos anos. Como disse o Prof. Filipe Monteiro, os nossos problemas não se resolvem facilmente. Apesar de tudo, há várias coisas que as Universidades Portuguesas podem fazer de modo a criar prestígio. Particularmente inspirada no exemplo da Universidade de Melbourne, penso que promover o intercâmbio internacional de alunos e criar colaborações com universidades estrangeiras são bons exemplos a seguir que podem ajudar a projectar as nossas universidades para o exterior.

Sandra Maximiano, Economia, Purdue University, USA

O que me mantém cá?

Tempo: o meu tempo de trabalho é exclusivamente dedicado à investigação e ao ensino. Desenvolvo muito pouco trabalho burocrático ou de gestão.

Recursos financeiros: Sendo a minha área exigente em termos financeiros (uma experiência no laboratório pode custar em média 5000 dólares, valores que se multiplicam muito se as experiências forem de campo), a Universidade deu-me recursos suficientes para iniciar a minha investigação sem estar dependente de candidaturas a bolsas externas. Não tenho também qualquer dificuldade em obter recursos para viagens de trabalho (apresentação do meu trabalho em conferências e seminários).

Recursos humanos de apoio: para além dos serviços normais de secretariado o departamento providencia-me cerca de 6 assistentes de investigação por ano. Independência e confiança: Destaco que ao nível do ensino, foi-me dada toda a liberdade para escolher os cursos que leciono (de momento uma cadeira de licenciatura de Economia Comportamental e outra cadeira de doutoramento de Economia Experimental). Tenho total autonomia para decidir as matérias a lecionar e a forma de o fazer.

Com o risco de ser injusta, para mim em Portugal ainda existe uma estrutura hierárquica pesada, obsoleta, que retira confiança e autonomia a jovens investigadores. O princípio da distribuição de recursos ainda se pauta em muito por critérios de antiguidade.