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Histórias de portugueses a viver na Venezuela

Especial aniversário

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São histórias de portugueses que vivem em Caracas, na Venezuela. Uns pensam no regresso, outros sentem-se em casa e há mesmo quem nunca se tenha adaptado. Memórias, saudades e realidades no país da "revolução bolivariana"

Júlio e Licínia Fernandes - Um casal de braços abertos
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Júlio e Licínia Fernandes - Um casal de braços abertos

Carla dos Ramos - A portuguesa improvável
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Carla dos Ramos - A portuguesa improvável

João da Costa Lopes - O último herói português
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João da Costa Lopes - O último herói português

Júlio e Licínia Fernandes

Um casal de braços abertos

Personificam o melhor de dois mundos: o espírito acolhedor e aventureiro dos portugueses, e a entreajuda e solidariedade típica dos venezuelanos. Júlio Fernandes, 65 anos, chegou a Caracas na década de 60. Muitos anos depois, Licínia, de 57, seguiu-lhe as pisadas. Ambos nascidos no concelho de Moimenta da Beira, já andaram lá e cá em momentos diferentes da vida. Ele, empresário respeitado no ramo do mobiliário. Ela, uma antiga professora primária, que deixou saudades por onde passou. Com filhos nas duas margens do Atlântico, em casa não faltam as pontes para duas culturas. Mesa incluída. Pelas mãos sábias de Licínia, a carne e os enchidos com arroz de legumes matam saudades beirãs e o pabellon criollo homenageia as tradições venezuelanas. O vinho chileno, esse, ficaria bem em qualquer circunstância.

Júlio e Licínia têm afinidades com um ideário de esquerda, sem sectarismos nem argumentos panfletários. Pode até dizer-se que Júlio é um autêntico baú da resistência ao fascismo português na Venezuela, sendo depositário, por exemplo, de histórias e segredos do assalto ao paquete de luxo Santa Maria, em 1961, tendo privado com alguns dos protagonistas. "Vários ainda estão vivos e a história, em toda a sua profundidade, está por contar", diz ele, autêntico guardador de memórias dos homens que lutaram, longe da pátria e perto das privações, pela democracia.

Nas estantes do apartamento a poucos quilómetros do centro de Caracas, não faltam livros sobre Spínola, o socialismo português ou a biografia de Humberto Delgado. Licínia delicia-se com as crónicas da jornalista Carola Chávez sobre os costumes e os procedimentos da classe média venezuelana, um manual editado em livro com olhar crítico e sentido de humor ácido que devora em dois dias, "por ser tão divertido e verdadeiro sobre a forma como algumas famílias deste país vivem num mundo à parte". As tertúlias com este casal português tornam-se saborosas de tanta existência preenchida e vivências para recordar. Para eles, a Venezuela deu saltos razoáveis no patamar da dignidade humana, por muito que vários problemas ainda aflijam. A insegurança é um deles: há tempos, deixaram de ir ao cinema no centro comercial diante de casa quando souberam que um grupo de assaltantes entrou na sala a meio para "aliviar" os espetadores dos seus pertences. Nada que perturbe, ainda assim, a amena relação com o país, ao qual reconhecem dever alguns dos seus melhores dias. Mas desengane-se quem pense que Portugal é para eles uma mera moldura de saudade. Em casa, o noticiário da RTP é quase religioso e "o regresso sempre esteve nos nossos planos", dizem, sorrindo e sonhando com esse dia. Que, se calhar, até já esteve mais longe. 

Carla dos Ramos

A portuguesa improvável

Olhos castanhos, vivos, brilhantes. Cabelo negro e rosto sem exagerada maquilhagem, Carla dos Ramos não é a típica mulher venezuelana de classe média. Não usa unhas pintadas com cores e efeitos estonteantes, não cultiva em demasia a prática do consumismo, não tem a obsessão do telemóvel de última geração e sabe que se ficasse em casa a vender carteiras por interposta pessoa, teria uma vidinha santa. "Odeio as mulheres venezuelanas, são muito plásticas", assume. "E detesto os costumes, as modas e os hábitos venezuelanos. Nunca senti que pertencia a este país", diz Carla, 27 anos, profissional de contabilidade e finanças, já com uma carteira de clientes que, a par das aulas que dá sobre as suas especialidades, lhe permitem um salário acima da média e uma independência da qual se gaba. "Não gosto que mandem em mim".

Ela nasceu na Calheta, na Madeira. Mas foi ainda criança que emigrou para Caracas, onde se libertou das amarras maternas há oito anos, para viver sozinha. "Sempre me senti portuguesa, não me perguntes porquê. É algo que carrego por dentro", confessa, quase se comovendo quando fala de Portugal. "Amo o fado, a Amália, a Mariza. Adoro comer! Os enchidos portugueses encantam-me, amo o bacalhau de todas as maneiras. Quando atravesso o Atlântico não me apetece voltar, mas aprendi a sobreviver na Venezuela", desabafa.

Carla tem um plano: viajar, de vez, para Portugal. Já falou com o namorado sobre isso e ele também aprova a ideia. Enquanto a oportunidade não surge, ela trabalha de forma incansável e está a melhorar o seu inglês. "Sei que o País precisa de pessoas que queiram trabalhar no duro. Sou uma pessoa empreendedora e penso que aprender português será muito rápido", pensa ela, que nem por um segundo se deixa impressionar pelas notícias sobre a crise nacional que lhe vão chegando. "É um desafio. Prefiro viver com menos em Portugal, mas saber que estou onde quero, que não preciso de olhar por detrás do ombro quando saio à rua e saber que me posso divertir onde e quando me apetece. Aqui não saio à noite há mais de 4 anos", reconhece, resumindo: "Preciso de paz, de me levantar de manhã, ver as ruas limpas e saber que não preciso de ser rica para ter a vida que desejo". Podendo escolher, gostaria de trabalhar na área da gestão financeira. E cumprir um sonho: "Melhorar os meus estudos, de preferência na Universidade de Coimbra". Aos desejos, Carla junta memória. "O meu avô materno combateu na Índia portuguesa e essa referência marcou-me", diz ela, viciada em História, sobretudo do período da II Guerra Mundial. A política, a atualidade, interessam-lhe menos. Mas sabe uma coisa: "Um presidente deve ser eleito para gerir um país com humildade, não para enriquecer. Chávez não ficou rico, mas o seu socialismo deixou muitos vícios pelo caminho".

João da Costa Lopes

O último herói português

"Se tiver de ir ao Inferno para falar da cultura portuguesa, vou. Basta que me ponham ar condicionado". João da Costa Lopes, 71 anos, é assim: irónico, humorado e deliciosamente desassombrado. Presidente do Instituto Português da Cultura na Venezuela - país ao qual chegou aos 16 anos, em 1958, seguindo a trajetória do pai, fugido à PIDE - João Lopes, natural de Lisboa, estudou jornalismo e marketing, e foi co-fundador do IPC em 1985, "instituição que nasceu sob a égide de Fernando Pessoa". Por Caracas, já passaram alguns dos que melhor representam as letras portuguesas, de Saramago - na fase pré-Nobel - a Lídia Jorge, passando por Alice Vieira e Valter Hugo Mãe. Tertúlias, encontros, debates, enfim, a cultura portuguesa já deu para estabelecer fortes vínculos e pontes com a Venezuela ao longo de décadas. "Mas ainda há gente nossa que se assusta", adverte João. "A forma como o país tem sido falado no exterior nos últimos faz com que alguns escritores não estejam disponíveis para vir cá. Além disso, há governos que recomendam aos cidadãos que não se viaje para a Venezuela. É absurdo", acrescenta o "embaixador" da cultura nacional em Caracas.

Apesar da escassez de apoios financeiros, o caminho faz-se andando. Criou-se um blogue sobre as atividades do IPC e mantém-se um espaço radiofónico sobre a cultura portuguesa numa emissora venezuelana. O Governo contribui com uma verba para as atividades e os empresários portugueses ajudam a compor o cenário, oferecendo por vezes queijos e vinhos para os cocktails e as cerimónias, sem que João Lopes alguma vez tenha percebido qualquer preconceito, pelo menos da parte das autoridades nacionais. "Com uma exceção: uma vez queríamos convidar o José Manuel Mendes, mas fizeram saber, nas entrelinhas, que era melhor escolhermos outro nome. Não percebi porquê", recorda, ainda assim satisfeito com o que até aqui se conquistou: "Estou muito orgulhoso do papel que desenvolvemos. Mantemos uma atividade regular, interessada e participada, mas a verdade é que, enquanto país, ainda não exploramos todo o potencial externo que a nossa língua e cultura têm e que é enorme", explica.

Além das funções que desempenha no IPC, João Lopes dá aulas de língua portuguesa no Centro Português de Caracas. Uma experiência gratificante, até porque, "entre os melhores alunos, estão alguns venezuelanos". Preocupa-o, isso sim, o facto de não haver atualmente leitor de português na Venezuela. Um problema...que são dois. "Já houve três leitores de língua portuguesa, agora nem um existe. Faz muita falta. Além disso, nem sequer se podem fazer exames de português porque o diploma dos alunos não é reconhecido. É preciso resolver isto com urgência", desafia. Sobre a atualidade política venezuelana, não se lhe arranca palavra: "Sou um estrangeiro neste pais, continuo de passagem...".