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Entre a guerra e a criação do mundo

Especial aniversário

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A reportagem aproxima o jornalismo da literatura, mas a realidade também pode ser uma das maiores fontes de inspiração do escritor

Jornalista de muitas andanças - da rádio à imprensa, passando pela televisão - durante mais de 40 anos, Adelino Gomes lembrou os clássicos para mostrar que há literatura nascida dos acontecimentos, mas nem por isso podemos chamar-lhe jornalismo: "Fernão Lopes não viu a crise de 1383 e se não viu a crise não é um repórter." Mas isso não significa que "textos fundadores da nossa civilização", como a Bíblia, não usem algumas técnicas de escrita jornalística. Estilo sintético e directo incluem-se nessa partilha.

Certo é que o escritor João de Melo também fez trabalho de repórter ao relatar as dores da guerra colonial em vários dos seus romances, como A Memória de Ver Matar e Morrer ou - pela "necessidade absoluta de falar de uma guerra que nunca tinha existido" - Os Anos da Guerra. Se a ditadura recente ainda tolhia a capacidade de denúncia aos jornalistas em Portugal, o escritor esteve lá para registar acontecimentos e sentimentos. Primeiro, fisicamente, como furriel enfermeiro. Depois, em memórias, enquanto escritor.

Testemunha de várias guerras como repórter do jornal Público, Paulo Moura, defende tréguas na "luta entre jornalismo e literatura". Mas lembra que a principal ameaça contra o jornalismo - a falta de leitores - é partilhada com a literatura. Ambos terão de transformar-se. Até porque, recorda João de Melo, "o acto de escrever é incompleto sem o leitor".

Por aqui passou a tertúlia Jornalismo&Literatura, dedicada ao tema "Reportagem ou a possibilidade de o Jornalismo ser Literatura". Foi a quarta de um ciclo organizado pelo Clepul (Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias), núcleo de Jornalismo e Literatura da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e apoio da revista VISÃO.

Recorde as tertúlias anteriores: