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'Tragam autotanques! As carruagens estão a arder'

Sociedade

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Américo Borges, 69 anos, médico e bombeiro de Canas de Senhorim, desencarcerou a única vítima ainda viva dentro do comboio

Chegue atrasado Por duas razões: Em primeiro lugar para evitar ter de fazer sala com aquela colega aborrecida com quem nunca trocou uma palavra e que é sempre a primeira a chegar; E em segundo, porque, assim, quando chegar, todos terão uma desculpa para interromper as conversas de circunstância: "Olha quem chegou!"
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Chegue atrasado Por duas razões: Em primeiro lugar para evitar ter de fazer sala com aquela colega aborrecida com quem nunca trocou uma palavra e que é sempre a primeira a chegar; E em segundo, porque, assim, quando chegar, todos terão uma desculpa para interromper as conversas de circunstância: "Olha quem chegou!"

Nunca se ofereça para planear... e muito menos para limpar Os "homens a sério", garante a GQ, deixam os detalhes sujos para os outros, porque estão ocupados a ter ideias fantásticas
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Nunca se ofereça para planear... e muito menos para limpar Os "homens a sério", garante a GQ, deixam os detalhes sujos para os outros, porque estão ocupados a ter ideias fantásticas

"O controlo de tráfego ainda se fazia por rede fixa.

A estação de Mangualde recebeu a informação de que o Sud-Express estava com 18 minutos de atraso. Era via única. A tragédia começou com aquele telefonema.

Na verdade, o atraso vinha sendo recuperado, sem que o coordenador de tráfego atualizasse a informação ao regional que se dirigia a Coimbra.

O internacional seguia cheio de emigrantes, de regresso a França, depois do reencontro com as famílias, na Beira Alta. Ao ver as carruagens a aproximarem-se, e sabendo da ordem para o regional avançar, a guarda de linha antecipa o choque frontal. Tenta sinalizar.

Os 100 quilómetros por hora a que seguia o comboio não lhe dão tempo. Era já impossível evitar o pior. Por esta altura, saía eu da consulta no Centro de Saúde de Nelas, onde era diretor e delegado de Saúde. Como comandante dos Bombeiros Voluntários de Canas de Senhorim, aproveitava o fim do dia para me sentar num cubículo da central de rádio a tratar da burocracia.

Foi aí que ouvi o primeiro pedido de socorro.

"Mandem ambulâncias para a estrada de Nelas-Mangualde! " Eram 18 horas e 37 minutos do famigerado 11 de setembro de 1985.

Pedi mais informações, mas não recebia nada por causa de um problema nas comunicações. Não havia telemóveis e o INEM era praticamente inexistente.

Alguns minutos depois, segunda mensagem: "Tragam autotanques! As carruagens estão a arder!" Tinha vestido umas calças de linho e calçado uns chinelos de lona, mas quando ouvi aquilo só imaginava a tragédia que significava um acidente com um comboio. Entrei em pânico, e foi nestes preparos que me meti num autotanque para prestar socorro, no acidente de Alcafache.

As carruagens pareciam archotes. Ao ver aquilo, fiz um disparate: agarrei numa agulheta e mandei ligar a bomba para entrar na carruagem a arder. Mas sempre que tentava avançar sentia a mangueira a andar para trás. Fui ver o que se passava e estava um bombeiro a forçar, na direção oposta. Voltei à porta da carruagem e pus-me aos gritos com ele: "És maluco! Estás a puxar para quê?" E ele: "Maluco é o senhor, a meter-se aí! Quer morrer?" Era o que ia acontecer se ele não me tivesse puxado. Muitas vezes, para salvar, cometemos loucuras.

Estavam mais de 30 graus, as fricções provocaram faíscas. Como a linha ainda não era elétrica, os comboios andavam a gasóleo, e tudo se conjugou para provocar explosões. O metal das carruagens fundiu-se e isso acontece a 800 graus.

Já nem imaginava que pudesse haver sobreviventes quando vi um bombeiro aos gritos: "Está ali uma senhora presa!" Teria uns 50 anos.

Estava completamente encarcerada entre ferros e colchões.

Rastejei até ela, palpei-lhe o pulso e disse-lhe que a ia resgatar.

Levámos mais de uma hora a desencarcerá-la. Confirmei ali que a história do sexo fraco é uma anedota machista. Nós, nervosos, e ela, sempre a repetir: "Tirem-me quando puderem. Não se magoem." Acabámos a puxá-la por uma janela. Era a única vítima ainda viva.

Ambos os maquinistas viram o que ia acontecer e ambos morreram.

Só conseguimos retirá-los no segundo dia. Os números oficiais da CP falam de 49 mortos, mas terão sido cerca de oitenta. A quantidade de água usada para apagar o fogo dissolveu muitos corpos carbonizados e era impossível fazer uma contabilidade exata.

Passámos lá três dias. Três dias sem dormir. Na segunda noite, o inspetor regional dos bombeiros do Centro obrigou-me a ir para a cama. Eu obedeci.

Deitei-me, mas não consegui dormir e voltei.

Chorei e, se calhar, muitos bombeiros fizeram o mesmo. Na altura, os psicólogos eram os ombros uns dos outros. Durante muito tempo, acordava à noite, a sonhar com o acidente. Só lá esteve um médico, que era eu. Quando viam corpos, os bombeiros vinham chamar-me. Acabei por tirar a maior parte dos carbonizados.

Recordo-me, sobretudo, do silêncio. Não havia gritos nem histeria, apenas aquele silêncio de tragédia. Ficou uma cruz de homenagem, feita com os carris estragados. É junto desse monumento que ainda hoje se encontram, regularmente, familiares e amigos das vítimas de Alcafache. Foi há 27 anos. Mas as velas e as flores continuam a aparecer.