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'Todo o hospital se mobilizou para os queimados'

Sociedade

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Paula Antunes, 56 anos, cirurgiã plástica da Unidade de Queimados do Hospital S. José, em Lisboa, soube da explosão na escola pela rádio

Chegue atrasado Por duas razões: Em primeiro lugar para evitar ter de fazer sala com aquela colega aborrecida com quem nunca trocou uma palavra e que é sempre a primeira a chegar; E em segundo, porque, assim, quando chegar, todos terão uma desculpa para interromper as conversas de circunstância: "Olha quem chegou!"
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Chegue atrasado Por duas razões: Em primeiro lugar para evitar ter de fazer sala com aquela colega aborrecida com quem nunca trocou uma palavra e que é sempre a primeira a chegar; E em segundo, porque, assim, quando chegar, todos terão uma desculpa para interromper as conversas de circunstância: "Olha quem chegou!"

Nunca se ofereça para planear... e muito menos para limpar Os "homens a sério", garante a GQ, deixam os detalhes sujos para os outros, porque estão ocupados a ter ideias fantásticas
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Ia a caminho de casa, mas fez inversão de marcha e voltou ao serviço

"Tínhamos meia hora para organizar tudo. Na Unidade de Queimados, havia dez camas e só duas estavam vagas. Foi preciso transferir doentes. Embora fosse já de noite, deu-se alta aos que podiam sair. A principal causa de morte, nestes casos, é a infeção, e era importante evitar que as vítimas da explosão se misturassem com os outros.

Se fosse hoje, eu teria como função retirar da enfermaria os doentes que conseguissem andar. Mas isso é agora. Na altura, ainda não havia planos de catástrofe. Somos conhecidos por sermos um serviço muito unido. Confirmou-se.

Nesse dia, todo o hospital se mobilizou para os Queimados.

Soube da explosão na escola do Cartaxo pela rádio quando já ia a caminho de casa. Tinha ficado um colega de serviço, sozinho, na cirurgia plástica. Lembrei-me disso e fiz imediatamente inversão de marcha. Na verdade, poucos minutos depois desta notícia, estava cá o serviço em peso: 40 médicos e 60 enfermeiros.

Eu frequentava o segundo ano da especialidade de cirurgia plástica e passara um mês na Unidade. O acidente do Cartaxo foi a minha primeira experiência com grandes queimados. Traumatizante.

Começaram a chegar por volta das 18 horas. Vinham dois em cada ambulância, conscientes, muito perturbados. Uns eram franzinos e outros uns matulões, entre os 14 e os 16 anos. A maior parte tinha a cara e as mãos queimadas, com aspeto desfigurado.

Era impressionante. A professora apresentava uma área queimada maior, porque levou mais tempo a fugir da sala.

Os dois em pior estado tinham queimaduras no corpo todo... Ainda conservo a sua imagem na cabeça. Ver as queimaduras é o maior impacto. Tinha receio de não aguentar.

Pela meia-noite, começaram a chegar os pais. Foi o mais difícil. Da lista das vítimas, constavam vários Ruis, Paulos e Anas. Havia o medo de misturar processos e dar informações erradas.

A Unidade era toda azul, com janelas muito altas, num ambiente de penumbra, com os doentes a gemer.

Intimidava um bocado. Reduziu a ansiedade o facto de as alterações do corpo não serem muitas, inicialmente. Nas doze horas seguintes é que a cara incha e os olhos deixam de se ver.

Alguns doentes não sabiam o que acontecera, outros queixavam-se do cheiro a gás, na aula de desenho, numa sala com tubagens para a disciplina de química. Uma das versões explicava que a explosão ocorrera quando alguém ligou um interruptor, mas também houve quem falasse de um isqueiro. Nunca se apurou exatamente a causa do desastre. E eles não falavam disso.

O que sabemos é que o ar passou de 20 para 3 mil graus. Por se terem atropelado uns aos outro, alguns tiveram dificuldade em fugir. Outros, em pânico, saíram a correr, o que atiçou mais o fogo. Só não foi pior porque era inverno e usavam mangas compridas.

As lesões foram provocadas mais pelo ar quente do que pelo fogo e as queimaduras inalatórias implicaram ligar os doentes a ventiladores, depois de induzir o coma. Toda a gente teve de passar pelo bloco operatório. Não houve intervalos nem descanso. Cancelámos as cirurgias programadas. Nas três ou quatro semanas seguintes, trabalhámos em exclusivo para salvar as vítimas do Cartaxo. Algumas ficaram connosco durante muito tempo.

Na noite do acidente fizemos pensos até de manhã. O último por volta das sete. Só depois disso voltei para casa. Mas não fui dormir. Passei o resto do dia ao telefone, a falar com amigos de amigos das vítimas, ansiosos por saber notícias.

Em número de queimados, nunca houve um acidente tão grave. A professora estava em estado crítico, devido à profundidade das queimaduras.

Teve de ser operada nos EUA. Foi um caso difícil. Ironicamente, morreu quinze anos depois, assassinada pelo segundo marido.