Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Sova na professora

Sociedade

Luísa Capelo, professora: As nódoas negras desapareceram, mas ficaram os antidepressivos e as consultas no psiquiatra

Foto: Nuno Botelho

A REPORTAGEM:

Naquela manhã de setembro, ainda a ganhar confiança para o ano letivo que havia começado apenas há três semanas, Luísa Capelo, 48 anos, estava longe de imaginar como seriam os próximos meses. Nascida e criada em Castelo Branco, a professora com formação base em Matemática e Ciências ficou com uma turma do 2.º ano da Escola Básica do Rossio ao Sul do Tejo, Abrantes. Uma turma de 15 alunos, em média com sete anos, e com dificuldades cognitivas e comportamentais. Chegada à escola, uma funcionária avisou-a que a mãe de um aluno queria falar-lhe. Mandou dizer que a atenderia no próximo intervalo. Luísa ficou positivamente expectante. Tratava-se de um menino irrequieto, que ela mudara de lugar, por não ter terminado os trabalhos de casa, e avisara os pais escrevendo um recado na caderneta. Mas o intervalo em que Luísa e mãe deviam falar nunca chegou: os pais irromperam pela sala cheia de crianças e a mãe desatou a bater na cabeça da professora com uma pasta pesada. Luísa defendeu-se levando as mãos à cara e, sem saber como, ficou encurralada junto à janela. "Saltaram os anéis, as pulseiras e o relógio", recorda. Só mais tarde percebeu que o aro metálico do soutien se espetara no peito, entre as mamas; que o dedo anelar esquerdo e o braço direito estavam inchados; que tinha uma lesão do menisco e dos discos tibiais. Em pânico, vários alunos esconderam-se debaixo das carteiras.

Luísa soube mais tarde que alguns voltaram a fazer xixi na cama.

A mulher só parou de a sovar quando o coordenador da escola disse que chamara a polícia. Nos meses seguintes, Luísa continuou apavorada com a ameaça da mãe: "Isto agora fica por aqui porque estão aqui os miúdos." O caso de Luísa não é isolado. Há muitos. Mas o dela não entra nas estatísticas do Observatório de Segurança Escolar, por este organismo ter sido extinto.

O último relatório refere-se ao ano letivo de 2010/2011 e aponta o conjunto dos professores e dos funcionários da escola com um peso significativo no total de vítimas: 643 professores (mais 84 do que no ano letivo anterior e mais 286 do que em 2006/2007) e 237 funcionários (mais 23 face a 2009/2010). Casos em que a vítima é o professor e o autor o aluno foram contabilizados 556: 28 vítimas de ofensas à integridade física tiveram tratamento médico e seis acompanhamento psicológico.

Desde 2009 que Ivone Patrão e Joana Santos Rita, investigadoras da Unidade de Investigação em Psicologia e Saúde do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA-IU), têm em mãos um estudo para "identificar e compreender os aspetos relacionados com o bem-estar dos professores do ensino básico e secundário ". Com uma amostra de 927 docentes, o estudo, agora divulgado, apresenta algumas conclusões que corroboram as consequências dos casos de agressão.

Trinta por cento dos professores avaliados estão em burnout (um tipo de stress ocupacional permanente). São na maioria mulheres, mais velhos, efetivos e com mais anos de experiência no ensino secundário os que apresentam níveis de burnout superiores.

Sete meses depois, as nódoas negras de Luísa desapareceram, mas, sem notícias do andamento do processo criminal, e como a depressão se acentuou, ficaram os medicamentos e as consultas regulares no psiquiatra.

Mas mudar de profissão está fora de questão para esta mulher franzina que seguiu as pisadas profissionais da mãe. Luísa vê cada aluno como uma planta.

"A escola é a estaca de que precisam para crescer direitos."