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Sem TV à hora da novela

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Na aldeia mineira de São Domingos, no Alentejo, há programas que ficam a meio e habitantes que vão no terceiro descodificador, sem conseguirem acertar no sinal de televisão

Faltam poucos dias para a chegada das equipas da RTP ao perímetro da praia fluvial da Tapada Grande, na mina de São Domingos, concelho de Mértola, de onde será emitido, em direto, mais um programa Verão Total. No bairro do antigo couto mineiro, a notícia espalha-se de boca em boca. Depois da chegada dos filhos e dos netos, em agosto, este será, ali, um dos acontecimentos deste verão. Mas, ironicamente, é também um momento em que a revolta dos habitantes vem à tona. É que, desde o apagão das emissões analógicas, há um ano, grande parte da população só consegue ver a emissão televisiva durante o dia. À noite, o ecrã fica negro, habitualmente a seguir ao telejornal, como se, na localidade onde a Meo há uns anos anunciou o fim do "segredo de Canal Caveira" - um anúncio para divulgar um novo serviço de satélite, e que, afinal, fora rodado nas minas e não na terra do cozido -, existisse agora um novo fenómeno. Desta vez, o mistério do apagão à hora da novela.

Aqui, os antigos mineiros e as suas famílias convivem com dois problemas técnicos. Por um lado, ninguém se lembrou de os avisar de que, na freguesia de Corte de Pinto, à qual pertence a mina, só existe emissão via satélite; por outro, ninguém lhes disse que, ao contrário da informação veiculada pelo anúncio institucional da TDT, segundo a qual bastava comprar o descodificador e ligá-lo à televisão, era preciso adquirir um outro aparelho e um prato recetor do satélite. "Fui a Mértola comprar três descodificadores, dois para mim e outro para a minha vizinha. Antes do apagão, fiquei a ver melhor. Mas, depois, deixámos de conseguir sintonizar o aparelho à noite e durante algumas partes do dia", conta Encarnação Branco, 61 anos, dona da mercearia com o seu nome. Para garantir que ficava bem servida, investiu 50 euros em cada descodificador, seguindo o conselho de um vendedor que lhe passou para as mãos "um dos melhores". Quando a emissão começou a falhar, Encarnação ligou para a ANACOM, onde, pela primeira vez, a informaram de que se encontra numa zona com cobertura via satélite. Logo, teria de adquirir o equipamento específico, em vez daquele mais económico que só está preparado para o sinal terrestre. Nesta típica mercearia portuguesa, onde se vende desde pão a camisas de dormir, a televisão passa, agora, a maior parte do tempo desligada, porque Encarnação se cansou dos momentos em que as frases ficavam a meio. E se, no verão, o movimento gerado pelos familiares ajuda a esquecer o problema, nos outros meses o silêncio televisivo amplifica a solidão desta mulher, que conta pelos dedos os clientes que procuram a sua loja, no inverno.

José Carlos Carvalho

Sinais trocados

Desde que perceberam ser necessária uma ligação via satélite, os responsáveis da Junta de Freguesia de Corte de Pinto apresentaram à ANACOM, à Portugal Telecom e à DECO indignadas reclamações. E a Liga de Amigos da mina de São Domingos promoveu um abaixo-assinado a exigir a substituição do transmissor analógico da freguesia por um digital ou, em alternativa, o aumento do sinal a partir de Mértola. Mas em vão. Como explica João Venâncio, presidente da Junta, conseguiram, na sequência dos protestos, que uma equipa da PT se deslocasse à terra, para realizar testes, tendo-se concluído que ao sinal correspondem taxas terrestre e de satélite, respetivamente, de 3,8% e 100 por cento. A solução é inequívoca: perante o "erro cometido pela população", o que há a fazer é deitar para o lixo os descodificadores de 30 ou 50 euros e comprar os adequados, cujo kit e montagem pode atingir 200 euros. A Junta e a Câmara de Mértola põem à disposição um técnico para instalar os kits a um preço fixo de 70 euros, depois comparticipado em 50%, através de um programa nacional que visa promover o acesso, ao mesmo preço, de toda a população do País ao TDT.

Sérgio Denicoli, professor e autor da tese A implementação da televisão digital terrestre em Portugal garante que, em Portugal, apenas em nove concelhos se regista uma cobertura de rede de 100% da população (Almada, Alpiarça, Entroncamento, Faro, Odivelas, Palmela, Póvoa de Varzim, Redondo e Vizela) e que há cinco concelhos com uma cobertura que não chega senão a menos de metade dos residentes: Alcoutim, Góis, Marvão, Mira e Pampilhosa da Serra. "A TDT não foi implantada para funcionar eficazmente, mas tão-só para promover o aumento do número de assinaturas pagas. Não há vontade de resolver as falhas de cobertura", acusa Denicoli.A Portugal Telecom refuta as acusações, afirmando ser impossível garantir a cobertura terrestre de todo o território. "Em certas zonas, os emissores não podem funcionar com a potência máxima, porque, se assim fosse os seus sinais cruzar-se-iam, deixando os recetores confusos e provocando emissões com problemas de qualidade. Estas zonas, a que não conseguimos assegurar um sinal com qualidade, são designadas 'zonas de cobertura complementar'", explica a empresa. Quanto às variações de sinal durante o dia, elas serão explicadas por fenómenos atmosféricos: com calor ou à noite, o sinal propaga-se para mais longe, provocando quebras e conflitos de sinais.

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