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Romântico: Em busca do tempo perdido

Sociedade

Caminhos misteriosos, cascatas de água e túneis secretos, numa viagem ao interior de nós próprios

Luís Almeida Martins, Mário David Campos, Patrícia Posse, Sara Belo Luís e Vânia Fonseca Maia

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A ideia é que o leitor se disponha a fazer como Almeida Garrett. E que, depois de ter "viajado" sem sair do seu quarto, se meta a caminho num percurso geográfico que é também um percurso interior. Não vamos de Lisboa a Santarém. Estas "viagens na minha terra", versão revista e actualizada num século (o XXI) com muito menos patine, começam no Porto, com uma ampla vista sobre o Douro. Do Palácio de Cristal, que dá nome ao parque, resta apenas a memória. O Pavilhão (Rosa Mota) que lhe sucedeu pode não ter tanto charme, mas ainda lá está o Jardim dos Sentimentos, um dos jardins dentro do grande jardim oitocentista projectado por Émile David há 150 anos.

Seguimos por este País abaixo. Com paragem no Penedo da Saudade, em Coimbra, lugar dos poetas e dos estudantes (quando uns e outros ainda eram mais ou menos a mesma coisa). Há versos esculpidos na pedra e do alto do jardim, datado de 1849, também se vê o Mondego, que os românticos sempre gostaram de se rodear de água (de rios, de riachos, de cascatas, de fontes, de pequenos lagos...). Fazemos como no filme de John Ford e, na dúvida, preferimos a história à realidade. Reza a lenda que ali terá D. Pedro encontrado um refúgio para chorar D. Inês. E que terá sido ele próprio a chamar à Pedra do Vento (designação do local desde o século XIII) Penedo da Saudade.

'Éden glorioso'

Camões disse-o maravilhosamente. Sintra é o lugar onde a Europa diz adeus, "quando enfim encontra o mar". Percurso romântico que se preze, por mais voltas que dê (e normalmente os percursos românticos dão muitas voltas), tem de passar pela vila a que Byron chamou "Éden glorioso". Se chegarmos de manhã bem cedo, somos capazes de ainda encontrar neblinas e nevoeiros. Subamos ao Palácio da Pena, de preferência no autocarro feito comboio com bancos de pau (a viagem não está incluída no bilhete de entrada). No interior do palácio, mandado construir por D. Fernando II, viúvo de D. Maria II, sobre o que ali restava de um mosteiro hieronimita, combinam-se os estilos arquitectónicos, os arcos manuelinos com os torreões mouriscos, os vitrais com os azulejos, o trompe-l'oeil com o mobiliário em papier-maché.

De regresso à vila, já vai para mais de dez anos que abriu ao público a Quinta da Regaleira. Sonho concretizado de Carvalho Monteiro, o "Monteiro dos milhões" vindos do Brasil, bibliófilo, coleccionador, provável maçon e profundo conhecedor iconográfico. A atmosfera da quinta reflecte o perfil do homem que, com o arquitecto Luigi Manini (o mesmo do Palace Hotel do Bussaco), imaginou um lugar onde o científico se mistura com o espiritual. É possível fazer visitas guiadas, ainda que aos mais audazes se aconselhe um percurso entregue a si próprio. Em particular, uma descida ao "poço iniciático": uma torre invertida com 27 metros de profundidade, uma escadaria em espiral, uma descida ao Hades que, se tudo correr bem, há-de acabar com a luz (e a água, claro) ao fundo do túnel.

Um pouco mais "solar" é o percurso pelo Parque de Monserrate, mais adiante na misteriosa estrada de Sintra em direcção a Colares. Há quem cá venha só para ver os pompons do metrossídero, os 50 metros de altura da araucária de Norkfolk ou as enormes pinhas da bunia-bunia. Por fora, o palácio transformado em 1856 como residência de Verão da família Cook, está recuperado, mas por dentro as obras de restauro ainda estão a decorrer. No espaço de um século, Monserrate tanto teve de

grandeza (no século XIX) como de decadência (no século XX). Como escreveu Byron no poema Childe Harold's Pilgrimage, composto após uma estada em Monserrate: "Como são frágeis sempre os luxos deste mundo,/ Que o tempo em seu caudal, arrasta para o fundo." É a busca pelo nosso tempo perdido.

>> Onde dormir

Tivoli Palácio de Seteais, Sintra

Jardins luxuriantes constituem a envolvência da requintada arquitectura do séc. XVIII. Nos quartos, não se espera menos que um ambiente digno de reis. Duplo desde €280. Tel. 219 233 200.

Lawrence´s Hotel, Sintra

Um local cheio de estórias, onde os quartos não têm números, mas nomes de individualidades que neles se instalaram. Inaugurado em 1764, é o hotel mais antigo da Península Ibérica. Duplo desde €110. Tel. 219 105 500.

 

>> Mais sugestões

  • O eléctrico Sintra-Praia das Maçãs A tilintar estrada fora desde 1904, proporciona uma viagem de 12 km de sexta a domingo, estando os restantes dias reservados a excursões
  • Mata Nacional do Buçaco Espécie de Sintra na Beira, alberga o Palace Hotel do Bussaco, uma construção em estilo neomanuelino do último quartel do século XIX
  • Caldas de Monchique Um arzinho de frescura romântica em plena serra algarvia
  • Quinta das Lágrimas (Coimbra) Exemplo de recuperação de um local carismático

 

>> Para Ler

'Viagens na Minha Terra'

Almeida Garrett

Publicado pela primeira vez em 1846, é o livro por excelência do romantismo literário português. O narrador viaja de Lisboa a Santarém porque quer conhecer "as ricas várzeas desse Ribatejo".