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Que língua devo aprender para arranjar emprego?

Sociedade

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O inglês e o portunhol não chegam. Cada vez mais portugueses se aventuram por idiomas que lhes abrem melhores perspetivas de carreira - mesmo que isso signifique emigrar. Mas em que línguas devemos apostar?

Num momento como este, nenhuma empresa portuguesa contrata um especialista em programação robótica. O receio de Gonçalo Gomes, 30 anos, logo se transformou numa dolorosa certeza, a cada novo currículo enviado e invariavelmente ignorado. Para piorar a situação, também a sua mulher, Marta, enfermeira, de 25 anos, não conseguia mais do que uns trabalhos precários e a meio tempo, numa clínica ou noutra."Começámos a pensar na nossa filha, que tem agora 4 anos, e no nível de vida que lhe conseguiremos dar nos próximos dez anos", recorda Gonçalo. "Decidimos abrir os nossos horizontes e enviar currículos para o estrangeiro. E, em junho, tivemos excelente feedback de empresas alemãs. O único problema é que exigiam que soubéssemos falar a língua."Em setembro, Gonçalo e Marta entraram para um curso intensivo na DUAL, o departamento de qualificação profissional da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemão, em Lisboa. Em menos de três meses, a quatro horas por dia, cinco dias por semana, tiraram o certificado que comprovava o domínio aceitável da língua germânica. Em fevereiro ou março, Marta deverá partir para a Alemanha (que tem uma enorme carência de enfermeiros), faltando apenas saber para que região.E não se pense que o casal corre o risco de se separar: a empresa com que Gonçalo tem mantido contactos está de tal forma interessada em contar com a sua experiência que lhe dará até a possibilidade de escolher entre várias sucursais, presentes nas maiores cidades alemãs. Isto para não falar dos salários - dizer que vão ganhar o dobro do que poderiam esperar em Portugal seria pecar por defeito. A filha de Gonçalo e Marta, que emigrará com os pais, crescerá com menos sol e menos praia, mas terá uma vida bem mais confortável."Temos tido muitas solicitações de empresas germânicas para profissionais de diferentes áreas", diz Elísio Silva, gestor da DUAL. "Na maior parte das profissões, é indispensável conhecer a língua, pelo que será sempre uma boa aposta aprender alemão.

Em muitos casos, as próprias empresas assinam um contrato com o potencial trabalhador, pagam a formação linguística necessária e ainda lhe dão um ordenado, durante esse período."Nada disto significa que o inglês está a perder importância. Ser fluente na língua universal, no entanto, não diferencia um candidato dos outros. Além disso, na maior parte das profissões é obrigatório dominar o idioma do país - ninguém imagina, por exemplo, um médico ou um professor do ensino básico a trabalhar em hospitais ou escolas públicas de Portugal sem saber uma palavra de português. Hoje, a mais-valia está noutras línguas. Quais? Depende do que se quer.

De pequenino se aprende mandarim 

Com o País em crise profunda e a apresentar taxas de desemprego recorde (sobretudo entre os jovens - quase 40% entre os que têm menos de 25 anos), muitos portugueses já se aperceberam da importância crescente de alguns países, na economia internacional. Uns no centro da Europa, como a Alemanha, que continua a crescer em contracorrente, e outros bem mais longe. Nos últimos anos, o aumento da procura de cursos de russo, árabe e mandarim mostram bem de onde vem o poderio económico."Saber o idioma é uma grande vantagem competitiva. Se se quiser trabalhar numa multinacional alemã, a probabilidade de arranjar um emprego bem remunerado é muito maior; para trabalhar num país árabe, convém aprender árabe", garante Fernando Neves de Almeida, presidente da Boyden Portugal, uma multinacional de recrutamento de executivos. Sem surpresas, atendendo ao crescimento imparável da China, o mandarim é o que tem atraído mais atenções. Com razão de ser. "Um gestor que domine inglês e chinês tem emprego garantido e um salário pelo menos 50% superior do que auferiria se não falasse as duas línguas", acrescenta o especialista em recursos humanos.Nos últimos anos, surgiram em Portugal vários cursos de mandarim. Entre os mais populares, destacam-se as aulas para crianças, procuradas por pais especialmente preocupados com o futuro dos filhos. "Há a convicção de que o inglês já não chega. No outro dia, um pai dizia-me que, sem saber chinês, o filho não ia poder ser, sequer, varredor de rua", conta Ana Filipa Landeiro, 24 anos, professora de mandarim no Museu do Oriente, em Lisboa. A procura é tal que os próximos três módulos do curso preparatório de chinês para crianças encontram-se esgotados. O que se tornou habitual. 

*Com Lorena Amazonas 

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