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Quando o teatro e o cinema eram censurados

Sociedade

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A censura ao Teatro e ao Cinema, no antigo regime, foi o tema de um seminário promovido pelo movimento cívico Não Apaguem a Memória (NAM) em conjunto com o Centro de Investigação de Media e Jornalismo (CIMJ) e o Projecto Censura ao Cinema e Teatro e que decorreu no passado dia 23 de abril na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, em Lisboa. VEJA O VÍDEO

Promovido pelo movimento cívico Não Apaguem a Memória (NAM) em conjunto com o Centro de Investigação de Media e Jornalismo (CIMJ) e o Projeto Censura ao Cinema e Teatro, decorreu, no dia 23 de abril, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, em Lisboa, o primeiro seminário sobre Censura e Liberdade de Expressão,, subordinado ao tema A censura ao Teatro e ao Cinema.

Após ter dado as boas vindas ao público moderadora do seminário, Ana Cabrera, investigadora do CIMJ, falou acerca do projeto sobre a Censura e Liberdade de Expressão, baseado na análise de documentos históricos, guardados na Torre do Tombo, referindo que "o objetivo da censura era calar a diversidade."

O painel era constituído por Helena Pato, presidente do NAM, Leonor Areal, do CIMJ, a investigadora e professora da Universidade de São Paulo, Cristina Castilho Costa, que participou através de videoconferência, Ana Bela Morais, investigadora na área da Censura ao Cinema, o crítico de Cinema Jorge Leitão Ramos, a professora de Teatro, Maria João Brilhante e Manuel Augusto Araújo, crítico de Artes Plásticas.

Helena Pato apresentou o NAM, movimento cívico surgido a partir da indignação gerada pela construção de um condomínio de luxo no lugar onde antes se encontrava instalada a sede da PIDE, explicando que tal apaga parte da nossa história, "sem qualquer respeito pelos presos políticos que por lá passaram".

Nas suas intervenções, os convidados falaram sobre a Censura em Portugal, durante o Estado Novo, nos períodos salazarista e marcelista, fazendo também referência à atualidade.

Assim, Leonor Areal, que começou a estudar as atas da censura há três ou quatro anos, confessou que no princípio "estava convencida de que a censura era uma coisa de outros tempos" e só mais tarde se apercebeu de "que nos rodeia a todos". Leonor Areal considera que, hoje em dia, não existe uma "censura formal", existem, sim, "outros tipos de censura informal, não denunciados". Ao estudar os arquivos da censura ao Cinema, descobriu, contou, algumas lacunas que não estavam documentadas, como, por exemplo, a autocensura, em que eram os próprios realizadores a censurar o seu trabalho, de forma a escaparem à ação dos censores.

Já Cristina Castilho Costa falou da censura no Brasil e contou um episódio passado em São Paulo: "Houve uma peça de teatro sobre o assassínio de uma criança, cujos pai e madrasta estão presos. A peça foi censurada porque a mãe da menina pediu ao tribunal que a peça não fosse encenada. O tribunal concordou, alegando que não se podia explorar a dor da mãe e a desgraça da menina. No entanto, ao longo de um mês, os meios de comunicação social não falaram de outra coisa, explorando o acontecimento que, deste modo se tornou conhecido de muito mais gente."

Ana Bela Morais focou, por seu turno, os primeiros anos do marcelismo e concluiu que o amor era o tema mais censurado durante aquele período, dando um exemplo que, a seu ver, continua atual. A situação envolve um filme em que a protagonista, de 40 anos, tem um filho, de 20, e mantém um caso com um homem com quase a idade do filho. Os censores alegaram que o filme era imoral. E a investigadora alertou para o facto de "ainda existirem comentários semelhantes na nossa atual sociedade."

Referindo-se a algumas afirmações anteriormente produzidas, Jorge Leitão Ramos, afirmou que não se podem confundir duas coisas completamente diferentes: a opressão perpetrada pela censura oficial, um dos pilares da ditadura, e "cada um dizer o que lhe apetece". Depois, falando da censura nas antigas colónias, disse que era menos rigorosa que em Portugal. O crítico de cinema do Expresso recuou até 1966: tinha 14 anos e vivia em Angola, onde, primeira vez, viu, num filme, os seios nus de uma atriz (The Pawnbroker, de Sidney Lumet, de 1965, censurado, na mesma altura, na então chamada metrópole). Mais tarde, a 26 de Abril de 1974, A Piscina, com a atriz Romy Schneider que aparecia nua, ao ser exibido no Tivoli, tornou-se, de acordo com Leitão Ramos "o único filme reconstruído com os bocados que a censura antes tinha cortado."

Para Manuel Augusto Araújo a censura nas Artes Plásticas era "completamente diferente da praticada no Cinema e no Teatro". Em 1946, na primeira exposição geral de Artes Plásticas não houve censura. Já na segunda edição da mesma mostra algumas obras foram censuradas. Verificaram-se, até, casos de pintores que viram os seus nomes e moradas expostas no Diário da Manhã, órgão da União Nacional, o partido único. "A partir daí", disse Manuel Augusto Araújo, "as Artes Plásticas passaram a ser submetidas à censura prévia."