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Quando João Magueijo encontrou John Nash no elevador...

Sociedade

A genialidade e a loucura andam muitas vezes de mãos dadas. O cientista João Magueijo conta o episódio embaraçoso em que se cruzou com Nash, o matemático brilhante que sofria de esquizofrenia paranoica  

Na VISÃO desta semana, o cientista João Magueijo, professor de física teórica no Imperial College em Londres, escreve sobre o outro lado dos génios. Aqui fica um excerto sobre oum episódio que o marcou: o dia em que encontrou no elevador John Nash, o matemático esquizofrénico pioneiro da teoria dos jogos falecido em maio passado.

"Uma vez apanhei um elevador em que assim que se abriram as portas percebi de imediato que ia haver celeuma. Estava lá dentro um senhor de idade, de cara enrugada e cabelos brancos, que mal me viu deu um salto no ar, encolheu-se todo, e começou a fitar-me com aquela expressão esgazeada inconfundivelmente ligada ao desequilíbrio mental: um desassossego profundo, uma preocupação infinita com um grave perigo, que evidentemente existia apenas entre as paredes do seu crânio. 

Entrei no elevador com os dois amigos que me acompanhavam, mas por qualquer motivo era eu o único a excitar as atenções deste senhor. Após o choque inicial, a estranha criatura abandonou a sua postura retraída e aproximou-se de mim, pondo-se a inspecionar-me cuidadosamente, de vários ângulos, sempre com um olhar lunático à beira do pânico. 

A dada altura ergueu um dedo, mas quando estava prestes a tocar-me afastou-o bruscamente, como se tivesse medo de se queimar ou de apanhar um choque elétrico. Quando saímos do elevador, perguntei aos meus amigos, que já sorriam:

- Mas quem é aquele idiota?

Aí é que eles desataram a rir às gargalhadas. 

- Aquele idiota ganhou o prémio Nobel no ano passado. 

Era John Nash, recentemente falecido, um matemático genial, pioneiro da teoria dos jogos, notório por sofrer de esquizofrenia paranoica, o que o rodeava de figuras imaginárias e seres sobrenaturais, em alucinações tão vívidas que o deixavam incapaz de distinguir real e imaginário. Em toda a minha vida foi a única ocasião em que alguém questionou a realidade da minha pessoa, e devo dizer que é uma experiência enervante. (...)A julgar pelas afirmações do próprio, os canais mentais que o levaram à genialidade coincidiam em tudo com aqueles ligados ao que denominamos de patologia mental.

Nash recusou medicação psicotrópica, dizendo que os efeitos secundários não são devidamente incluídos na equação, quando os médicos a receitam. A palavra "fármaco" em grego antigo quer dizer veneno: no caso de Nash, o pior efeito destas poções venenosas era o de lhe fechar uma janela privada sobre a clarividência matemática." 

 



 

  • Leia o artigo de João Magueijo completo na VISÃO desta semana  

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