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Pressão contra mão-de-obra estrangeira leva a dispensa de portugueses em Inglaterra

Sociedade

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Apenas 12 dos 100 trabalhadores portugueses contratados para uma obra em Birmingham, no centro de Inglaterra, permanecem no local, uma situação que a empresa de recrutamento atribui à pressão contra o uso de mão-de-obra estrangeira

"Penso que isto resume-se tudo a política e ao facto de a região ter uma taxa de desemprego de dez por cento. Ficaria mal que dez por cento da mão-de-obra fosse portuguesa, é essa a razão porque pensamos que limitaram o número de trabalhadores [portugueses] para quase zero", revelou hoje à agência Lusa Steve Craigs, diretor da Bespoke Resources Group International.

A mudança de atitude do seu cliente, disse, foi também consequência da polémica causada pela revolta de um grupo de trabalhadores há duas semanas.

Este grupo de 29 pessoas invocou quebra de contrato e exigiu o regresso a Portugal por lhes ser proposta uma redução da remuneração enquanto não trabalhavam devido ao atraso do projeto.

Além da intervenção das autoridades portuguesas, a presença de 100 trabalhadores portugueses e outros 100 espanhóis foi tema de notícia do jornal local, o Birmingham Mail, que criticou os empreiteiros por não recrutarem mão-de-obra na região.

Por conseguinte, o município prometeu dar prioridade, no próximo ano, a britânicos na segunda fase da obra, que consiste na reparação e modernização de dois túneis rodoviários na cidade.

A partir de então, lamenta Craigs, o número de trabalhadores portugueses requisitados foi sempre reduzido e pelo menos 30 foram dispensados por falta de qualificações profissionais ou desconhecimento da língua inglesa, restando agora apenas 12.

Em consequência, a Bespoke diz estar a ter apoio jurídico para levar o cliente a tribunal para tentar recuperar as mais de 120 mil libras (138 mil euros) gastas com a operação, nomeadamente em ordenados, viagens, alojamento e alimentação.

Adiantou também que os advogados "vão escrever aos trabalhadores para lhes explicar que vamos invocar denúncia de contrato".

Steve Craigs, que é britânico mas dirige esta empresa de recrutamento a partir de Cascais, alega ainda "mal-entendidos" na relação com os trabalhadores e nos termos contratuais.

Luís Gonçalves, armador de ferro, queixou-se à Lusa de lhe ter sido descontado abusivamente gastos com alimentação, transporte e alojamento, além de uma taxa agravada de imposto de 30 por cento, reduzindo o vencimento para quase metade do esperado. 

"Sinto-me enganado, burlado e escravizado", disse, alegando que pagou a própria alimentação e que lhe foi dito que o quarto numa residência universitária seria custeado pelo empregador.

Porém, o responsável pelo recrutamento diz que foram feitos descontos para pagar produtos alimentares avançados aos trabalhadores antes de estes receberem o primeiro ordenado e que os impostos são os obrigatórios por lei.

Quanto ao alojamento, explicou: "Pagamos 1000 euros por semana. O contrato era de 3500 euros por quatro semanas, o que que já contava com o desconto de 100 euros por semana de alojamento".

Steve Craigs manifestou-se disposto a corrigir situações individuais irregulares, mas denunciou as ameaças e mau comportamento de vários trabalhadores, que já resultaram na perda de um outro contrato no Reino Unido.

"Os empregadores começam a questionar a volatilidade dos portugueses e isto tem efeitos", avisou.