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Em 2008, cerca de duas dezenas de adolescentes foram vítimas de violação e agressões sexuais, depois de marcarem encontros pela Internet. A estratégia dos abusadores é sempre a mesma, mas os alvos estão a aumentar. Veja o VÍDEO  

Tempo de sobra, hormonas que se agigantam. E um computador cheio de promessas. Está lá tudo. O bom e o mau. Os pais ficam descansados, convencidos de que os perigos andam na rua. Esquecem-se de que já cabem no quarto - geralmente fechado - de um adolescente. Esta é a primeira geração que pode descobrir o mundo sem sair de casa - na aldeia global.

- "Oi. Teclas?"

- "Ok. Cm xamas?"

- "António. Tu?"

- "Diana."

- "És mt gira!"

Parece conversa inocente - entediante, até -, mas é o início mais banal de um abuso sexual do século XXI. A escolha começa nos perfis em sites sociais como o Hi5 ou o MySpace e passa para a troca de mensagens instantâneas como o messenger (MSN).

Logo vem o elogio que reforça a auto-estima, sempre em linguagem abreviada para entrar na onda juvenil. Depois, oferece-se compreensão sobre as dificuldades de relacionamento com os pais. E qual é o adolescente que as não tem? Seguem-se novos elogios e pedidos para se conhecerem melhor.

Introduzem-se palavras menos inocentes, como "virgindade", "sexo" ou "pénis" para ver a reacção. Continua o interesse. Trocam-se umas fotos (as deles geralmente falsas), elas percebem que o "amigo" é um pouco mais velho, mas até ficam orgulhosas com a conquista. Além disso, já lá vão umas semanas e começam a gostar daquela companhia.

Não tarda muito e a webcam está ligada para trocar intimidades. À distância custa menos e pode ser uma forma de aprender alguma coisa para quando, finalmente, se tiver um namorado "a sério". Na altura em que o virtual começa a insistir num encontro real, é tarde de mais para recuar. "Se não vens ter comigo, ponho as tuas fotos nua na Internet!"

O jovem tinha, afinal, 52 anos. Era tudo falso. Tudo menos as ameaças. Foi assim com Diana. Foi assim com mais de duas dezenas de adolescentes portugueses, em 2008.  Dez investigados na Judiciária do Porto, oito na de Lisboa e um na da Madeira.

Em flagrante

Diana é, de facto, gira. Mas precisa que lho digam. Alta e esguia, cabelo longo, com corte moderno, disfarça mal a timidez. Não parece ter apenas 13 anos. Talvez a experiência de vida - forçada - do Verão passado lhe tenha amadurecido as feições.

Olhando para trás, havia indícios de história por contar. Mas também podia ser o retrato de milhões de adolescentes. Porta do quarto sempre fechada, atrasos permanentes à hora da refeição para poder estar mais um bocadinho a teclar, telemóvel debaixo da mesa a enviar mensagens.

Naquela noite de lágrimas, a mãe, técnica comercial, de 39 anos, percebeu que não era só uma fase. Desculpou-se perante as visitas e fechou-se no quarto com a filha. "Então, conta lá." Ainda foi preciso ir buscar um copo de água para acalmar choro e soluços. Só faltava pôr cara de mãe paciente e compreensiva para o que pensava ser "mais um drama de adolescente".

Um amigo na Net. Nada de mais. Uma foto nua. Ainda não estava impressionada. "Há tantas. Não sou moralista." Chantagem para um encontro de sexo... A filha começava a ficar aliviada e a mãe a afligir-se. "Esse tipo é um parvalhão, mas não vai ter sorte nenhuma connosco!", conseguiu dizer.

Inquietude de mãe não tem horas. Embora fosse já de madrugada, alguns amigos ainda receberam telefonemas. Denunciar o caso à Polícia Judiciária era o conselho inevitável. Na manhã seguinte, já tudo estava a andar. Diana tinha instruções para esperar que o chantagista voltasse a contactá-la e combinar o temido encontro. Ia fazer de isco para a PJ apanhar o pedófilo em flagrante.

"Mãe! Ele está no messenger. O que faço?", grita Diana. "Empata-o!" Era preciso dar tempo para ligar à PJ. Ele repete a ameaça: "Tem de ser hoje, senão já sabes. Os teus amigos vão ficar todos a saber!" Ela concorda. Ele propõe encontro em local demasiado movimentado. Por indicação dos inspectores, ela inventa que não consegue lá chegar. Acorda-se outro local, público, mas de maior visibilidade, na área da Grande Lisboa.

A mãe de Diana não sabe bem como passou aquela hora em que estava obrigada a esperar por notícias em casa. "Não é a fugir que apanhamos tipos destes. Aceitei, porque confio na PJ", afirma. A jovem adolescente recusa-se a falar mais no assunto. Mas este é o único caso em que a polícia foi chamada a intervir antes do mal feito.

Troféus filmados

Fingindo que fazia o percurso de transportes públicos, Diana foi respondendo aos sms do homem que, poucas semanas antes, parecia o seu melhor amigo. No local combinado, não foi muito difícil à polícia identificar alguém que, apesar dos mais de 50 anos, estava sempre com o polegar no telemóvel.

Tudo indica que outras meninas, algumas até mais jovens, foram menos inteligentes a lidar com a chantagem. Como é costume no comportamento dos pedófilos, também este, com família e residente na margem sul, terá guardado troféus filmados dos abusos.

Internet, telemóvel e teletexto

A coragem de Diana foi festejada pela família e elogiada pela polícia. Não é para menos. Quando os casos chegam às autoridades - e todos admitem que a maioria das vítimas não se queixa - já os desaparecimentos, violações e agressões sexuais aconteceram.

Ainda esta semana a PJ de Coimbra divulgou o caso de uma jovem de 19 anos, violada por um homem de 33, depois de o conhecer num chat.

Há a adolescente que foge de casa, pensando que vai juntar-se com um loiro de olhos azuis e tem à sua espera um adulto de outra raça e com uma deficiência física. Há a desportista de 13 anos que tem relações com os colegas mais velhos, nos balneários, e se suicida, depois de eles divulgarem as imagens na Internet. Há rapazes que pensam que combinaram encontro com uma rapariga e acabam violados por vários homens.

Em todos existe algum voluntarismo, gosto pelo perigo e, sobretudo, inexperiência. "Qualquer pessoa pode entrar num chat e tentar seduzir quem está do outro lado. Os miúdos passam muita informação sobre eles próprios. É uma companhia virtual, que se interessa e lhes dá muita importância. Sentem-se à vontade para se expor, porque não são criticados", concluiu a psicóloga forense Catarina Ribeiro, 32 anos, depois ter ouvido o testemunho de cinco vítimas de abusos on-line do Norte do País.

Embora a Internet seja a novidade tecnológica mais associada ao perigo, também há registo de contactos iniciados por telemóvel e até pela televisão, através do teletexto.

"Olá. Gostava de te conhecer." Singelas mensagens como esta, enviadas por telemóvel, deram origem a três vítimas de agressões sexuais, duas em investigação na PJ do Porto e uma na de Lisboa. O sms é enviado ao acaso e qualquer um pode recebê-lo.

A maioria vê-o como um engano e apaga, mas alguns jovens entendem-no como uma forma divertida de conhecer pessoas novas.

Maria, 12 anos, respondeu. Poucos dias depois, já tinha dito o nome, a idade e em que escola andava.

Especialistas na arte de bem manipular, aos pedófilos bastam algumas semanas para conseguir que a curiosidade das adolescentes fique aguçada ao ponto de desejarem tanto o encontro como o agressor. Só que, ao contrário deste, não sabem ao que vão.

Maria esperava um rapaz pouco mais velho do que ela. "Vou ter contigo e damos uma volta de carro." Ela aceitou. Acabou violada num descampado, à beira-rio, por um homem com cerca de 40 anos.

"A imaturidade na antecipação do perigo, juntamente com a vontade de conhecer o desconhecido e de testar os limites são próprios da adolescência. A Internet é só um meio diferente de criar riscos. Há características coincidentes entre estas vítimas e as de abuso sexual em geral. São carentes, com baixa auto-estima e falta de supervisão", defende Catarina Ribeiro.

Interessados em sexo

David Finkelhor, 61 anos, autor do estudo Predadores on-line e as suas vítimas, e director do Centro de Investigação sobre Crimes Contra as Crianças da Universidade de New Hampshire, nos EUA, também evita a diabolização das novas tecnologias. "Só um pequeno número de adolescentes procura o risco on-line. Sem Internet, correriam riscos na mesma." Mas contraria a ideia de que os jovens desconhecem os perigos: "Em certos aspectos são ingénuos. Acreditam que eles gostam delas, que dará certo, que ninguém vai perceber. Mas não são ingénuos no sentido de desconhecerem o que pode acontecer na Internet. Sabem que as pessoas com quem falam estão interessadas em sexo."

Filipe Reis, 14 anos, admite que não consegue viver sem Internet. "Esteve avariada dois dias e parecia que me faltava o que comer", reconhece. Desde que sai da escola, pelas cinco da tarde, até às onze da noite, não faz mais nada. "Às vezes, nem janto." Trabalhos de casa? "Levanto-me um bocadinho mais cedo e faço-os a correr."

Mas nem este vício assumido lhe tolda o discernimento. "Não vou muito a chats. Nota-se que há lá pessoas com outras intenções. Quando começam a pedir dados pessoais e a ter conversas mais íntimas, desligo." O que não quer dizer que a Internet não sirva para arranjar namoradas: "São sempre amigas de amigos e confirmo se são giras antes de marcar um encontro", diz, como que a provar a tese de Finkelhor.

Sempre on-line

Ver televisão, "conversar" com cinco pessoas no messenger e, simultaneamente, "ouvir uma música", resume o tempo livre de Camila, 13 anos, colega de Filipe. Ao cinema diz que não, meter conversa pessoalmente parece uma missão impossível. "On-line nem coro", reconhece. Fora da Internet, seria muito mais difícil fazer amigos.

Já Catarina, 14 anos, também não dispensa o Hi5, mas o seu forte são as mensagens. Tem um pacote com 1 500 sms gratuitos por semana. E usa-os todos.

Nenhum destes alunos do Colégio S. Miguel, em Fátima, foi vítima de abusos sexuais. Nem associavam a Internet a perigo até umas colegas mais velhas terem apresentado à escola o seu trabalho sobre predadores on-line (ver caixa).

Nesse dia, o auditório encheu-se. Tal como se esgotam os lugares em todas as sessões dadas por Tito Morais, um pai de 46 anos que criou o Projecto Miúdos Seguros, na Net. "Há muitos pais e professores

infoexcluídos. Quando vêm com a história de que não percebem de computadores digo logo que isso não tem nada a ver. É um problema de crescimento. Os filhos dominam a parte tecnológica, não a experiência de vida."

A leveza virtual

Se é verdade que milhões de jovens usam a Net e só um pequeno número se expõe ao perigo, não é menos certo que os pedófilos passaram a ter autênticos catálogos por onde escolher.

E nada mais fácil do que prová-lo. José Félix Duque, 33 anos, assessor técnico da direcção da Associação de Apoio à Vítima (APAV), ficcionou perfis de jovens adolescentes na Internet e recebeu dezenas de contactos, chegando mesmo a marcar encontros com vários adultos. "Quando insistia que era muito nova, diziam sempre que era a primeira vez, que só ia acontecer porque era especial."

Tal como a polícia, também José Félix Duque concluiu que há novos, velhos, casados, solteiros, com filhos, sem filhos, quadros superiores ou semianalfabetos entre os predadores.

Além do gosto pelo poder sobre alguém inexperiente, têm em comum o desvio sexual. "Perguntavam muito como era a roupa interior. Para ganharem a confiança delas, vão-se expondo. Na primeira foto, aparecem de óculos de sol, depois tiram os óculos e, passados uns dias, já estão a masturbar-se para a webcam."

A experiência, usada na elaboração do manual de procedimentos para atendimento a crianças vítimas de violência sexual, deixou-lhe uma certeza: "A pessoa, na Internet, perde valor. Tudo é fictício. Tudo se torna insustentavelmente leve."

A história de Sérgio, 15 anos, prova que nem só do sexo feminino se fazem as vítimas de abuso sexual. De resto, os detalhes são os do costume. Adolescente e adulto conhecem-se no Hi5, mantêm contactos no messenger. O encontro com Manuel, 30 anos mais velho, é marcado de livre vontade.

Como muitos adolescentes do sexo masculino, a fase era de dúvidas. O apartamento de Manuel, na Madeira, vinha a calhar. Mais privado era impossível. Será?

Para Sérgio, era experiência tida, experiência acabada. Mas Manuel não estava pelos ajustes. Começou a chantagem. Ou continuavam a encontrar-se ou divulgava as imagens gravadas enquanto tinham relações sexuais. Manuel acabaria por ser acusado e condenado a quatro anos de prisão com pena suspensa, por violação.

Mais computadores, mais vítimas

Os telemóveis já são pequenos computadores e, segundo a Marktest, estão na mão de quase 90% dos jovens entre 10 e 14 anos.

Para uma geração que considera o mail uma ferramenta demasiado lenta, nem vale a pena pensar em proibir o uso da Internet. Há sempre a casa de um amigo, um cibercafé ou - pior ainda - alguém que compra os miúdos com carregamentos de telemóvel.

Por isso, com ou sem conhecimentos de informática, convém falar com os filhos, quando chega a idade, cada vez mais precoce, de entrar no maravilhoso mundo das tecnologias, defende Manuel Coutinho,

46 anos, coordenador do SOS Criança. "Se não lhes damos um carro sem terem a carta de condução, também não devemos entregar-lhes um computador com Internet, sem lhes dar informações. São precisas vacinas para as tecnologias. Ensinar os miúdos a protegerem-se."

O que, receia a polícia, não está a acontecer: "Sete por cento dos abusos sexuais tem origem em crimes informáticos. E o número tenderá a aumentar, porque as novas tecnologias estão cada vez mais presentes", afirma Jorge Duque, 47 anos, inspector-chefe da secção de investigação de crimes de alta tecnologia da PJ.

No Porto, o ano passado já foi de boom. "Até aqui quase não tínhamos casos. Em 2008, chegou-nos uma dezena. A continuar assim, vamos precisar de formação para a equipa toda. Os abusadores descobriram um atalho. Conseguem entrar em casa, sem abrir a porta. E com a entrega de computadores nas escolas, aos 10 anos os miúdos já têm Internet só para eles. Estamos à espera de um aumento de casos", admite a inspectora-chefe da brigada dos crimes sexuais da PJ do Porto, Ana Fernandes, 48 anos.

Mesmo que a pedofilia não aumente na razão do número de computadores por criança, este tipo de abusos tem consequências que nem os especialistas estão preparados para enfrentar. "Uma vítima disse-me que é mais difícil ultrapassar a ideia de que a foto fica lá para sempre do que o facto de ter sido violada", recorda Jorge Duque, para quem há ainda outras preocupações. "A Internet  gera dinheiro. A clientela é global. Há toda uma máquina: angariação, produção, disponibilização. Isto não tem fronteiras."

Ninguém corre riscos só por estar na Internet. Pois não. E tirar o privado do contexto do privado acontece tanto a jovens como a adultos. Mas, para os adolescentes, pode ser a diferença entre o início de uma vida sexual feliz ou traumática. Ou mesmo entre a vida e a morte.  

NR: Os nomes das vítimas e dos abusadores foram alterados para protecção dos menores.

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