Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

Pagar para passar à frente

Sociedade

  • 333

D.R.

Com o aumento de serviços que cobram o atendimento ais rápido, o debate aquece: é justo que os mais ricos tenham prioridade nas filas?

Todos os homens são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros - quem tem dinheiro, frequenta restaurantes caros, conduz desportivos de 200 mil euros e dorme nos melhores hotéis, numa separação de classes encarada com naturalidade. Mas a vantagem de quem mais tem começa a notar-se num campo que, até agora, estava relativamente imune ao poder da carteira: as filas.

Nos EUA, multiplicam-se os serviços que vendem a possibilidade de se passar à frente dos outros. A Six Flags, uma cadeia de parque de diversões, começou por testar "passes dourados", no seu complexo de Atlanta, na Geórgia, que custam o dobro e permitem aos visitantes esperarem metade do tempo. A empresa ficou tão satisfeita com os resultados que decidiu implantar o sistema em todos os seus parques do país.

Da mesma cidade americana chega um caso mais perverso. Numa das estradas de acesso a Atlanta, o Governo estadual trocou a faixa "ambiental", para carros com dois ou mais passageiros, por uma via exclusiva para quem paga um passe próprio. O privilégio de passar à frente dos outros tem um custo médio de 120 dólares (93 euros) e reduz uma viagem de hora e meia a pouco mais de meia hora. Este sistema é criticado por grande parte da população, que alcunhou a medida de "via Lexus" (marca de carros de luxo). Os governantes defendem-na, dizendo ter encontrado uma forma de financiar as estradas. O debate já levou políticos a dizer que soluções como estas chocam com a Constituição e o princípio de igualdade de tratamento.

Portugal não escapa

A "desdemocratização" das filas não se limita aos EUA. Companhias low cost como a Ryanair e a Easyjet, sem lugares marcados, vendem entradas prioritárias no avião. Ou seja, pode-se pagar um extra para entrar primeiro e escolher o lugar.

E há muito que, nos aeroportos de todo o mundo, os passageiros de business ou primeira classe passam à frente no check in ou nos pontos de segurança. Em Lisboa, há um corredor rápido para os portadores de bilhetes mais caros, que desemboca diretamente no controlo de metais.

Humberto Estrela, CEO da HPG, empresa portuguesa de soluções tecnológicas, incluindo gestão de filas de clientes, diz que esta tendência deverá acentuar-se e que Portugal não foge à regra. "Há cada vez maior apetência das empresas para oferecerem privilégios a clientes que pagam uma taxa por um atendimento diferenciado", observa. "As filas não são exceção." Um dos casos em que tal já acontece é a cadeia de compras online Pixmania Portugal: quem tem o cartão VIPix, que custa 20 euros, passa à frente nas longas filas para levantar as encomendas na loja.

Os ingleses preparam-se para elevar a fasquia da desigualdade de tratamento. No aeroporto de Heathrow, as autoridades  ultimam um sistema para livrar os mais ricos das exasperantes filas de duas horas no controlo de passaportes para cidadãos de países que não pertencem ao espaço Schengen: por 1 800 libras (2 227 euros), o passageiro sera transportado de limusina para uma sala VIP; aí esperará que o seu passaporte seja controlado, enquanto beberica um aperitivo. Entre iguais.