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Os superpoderes de um vegetal

Sociedade

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D.R.

É uma alface? É um molho de espinafres? Não, são os agriões, que, agora, renascem no panorama nutricional, sob a capa de superalimento  

Tem folhas pequeninas e verde-escuras que animam qualquer prato (ou qualquer página...). E um sabor apimentado, versátil, que tanto vai bem numa sopa como numa salada ou num sumo. Mas, durante anos, sobretudo em Portugal, os agriões não gozaram de boa reputação e ficaram algo arredados do nosso regime alimentar. Como nasciam, na sua forma selvagem, junto de águas estagnadas, eram associados a contaminações. "Só se comiam depois de fervidos ou lavados com lixívia", lembra a nutricionista Helena Cid, 43 anos.

Hoje, os agriões que são vendidos nos supermercados não representam qualquer perigo para a saúde, pois o seu cultivo é controlado. Tão controlado como o das alfaces, por exemplo. E mais: vários estudos científicos têm provado a importância nutricional desta verdura pertencente à família das crucíferas, como os brócolos e as couves.

O investigador britânico Steve Rothwell, consultor da associação de produtores The Watercress Alliance, chama-lhe "superalimento". Arrisca-se até a apelidá-lo de "alimento de combate ao cancro". Paula Ravasco, 37 anos, investigadora em nutrição e oncologia do Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa, não é tão ambiciosa. Sem negar as excelentes propriedades dos agriões ou os resultados dos estudos, prefere não se entusiasmar antes do tempo. Ainda não se comprovou nada que tenha a ver com doentes com cancro (apenas em linhas de células, em caixas de petri).

Até Hipócrates os comia

Os resultados mais recentes, dignos de serem publicados no British Journal of Nutrition, foram atingidos por cientistas da Universidade de Ulster, na Irlanda. Ficou demonstrado que a ingestão diária de uma pequena porção desta verdura faz subir os níveis de antioxidantes e vitaminas que ajudam a proteger o corpo dos radicais livres, especialmente para quem fuma ou faz exercício intenso.

Os agriões aliviam o stresse natural causado às células quando o esforço físico é grande, acentuando assim os benefícios desse esforço. "Um crescente pedido de energia ao corpo pode criar uma acumulação de radicais livres, que levará à alteração do ADN", explicou Gareth Davison, coordenador do estudo.

Ao ser rico em antioxidantes, como o caroteno, a luteína ou a quercetina, o agrião ajuda a defender as células. "A grande vantagem é estas propriedades estarem disponíveis na sua forma fisiológica - as doses nunca são tóxicas, pois não excedem o limite", nota Paula Ravasco. Quando isso acontece, por exemplo com a toma de suplementos alimentares, os antioxidantes também protegem as células neoplásicas, porque a estas - mais "aceleradas" - só se consegue chegar com doses suplementares.

Os agriões têm poucas calorias e são isentos de gorduras, mas contêm mais de 15 vitaminas e minerais essenciais, sendo ainda fonte de uma série de fitoquímicos com potenciais benefícios para a saúde, como os glucosinolatos. Estes libertam isotiocianatos, em que se incluem o PEITC (phenethyl isothiocyanate) - o composto que contribui para o seu sabor apimentado e o responsável por resultados animadores na prevenção e desenvolvimento do cancro.

Não terá sido por acaso que Hipócrates, o chamado pai da Medicina, no ano 500 a.C., mandou construir o seu primeiro hospital perto de uma nascente. Assegurava, assim, uma fonte de agriões frescos para tratar os seus doentes.

CURIOSIDADE

Sabia que?

Os agriões têm...

Mais ferro do que os espinafres

Mais vitamina C do que as laranjas

Mais cálcio do que o leite

Mais vitamina E do que os brócolos

Mais vitamina B do que as groselhas