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Opinião de Esther Mucznik

Sociedade

Fez a comunidade dirigida por Amzalak tudo o que podia? (...) Entrevistei refugiados horas a fio, estudei os arquivos da CIL e não sei responder a essa pergunta

Uma história mal contada Mais do que uma investigação histórica séria, O Segredo da Rua do Século (referido no texto O Fantasma de Amzalak, VISÃO 767) tem como objectivo o derrube do "monumento" Amzalak. Contrariamente ao que afirmam os autores, nem o citado teve "um papel decisivo na preparação do putsh militar e na consolidação da ditadura salazarista", nem era amigo pessoal de Salazar, nem com ele estudou em Coimbra, tendo sempre feito os seus estudos em Lisboa. Acima de tudo, e para além das suas convicções pessoais certamente favoráveis ao Estado Novo, Amzalak seguia nessa, como noutras questões, a orientação milenária da diáspora judaica de procurar a protecção do poder político por forma a preservar as comunidades da violência persecutória. Para os autores do livro, a simpatia de Amzalak pelo salazarismo faz dele um colaborador do regime nazi e a prova está na condecoração que recebeu em Fevereiro de 1935 da Cruz Vermelha Alemã. Em 1935, o carácter anti-semita do regime nazi era claro, não só pela retórica de Hitler, mas por acções como o boicote antijudaico de Abril de 1933. Mas como dirá mais tarde uma sobrevivente: "Esperávamos o pior, não o impossível." O impossível aconteceu, mas não podemos deixar de situar essa condecoração num momento em que ainda não se sabia o desfecho final. A sua aceitação por parte de Moses Amzalak e, em particular, o facto de não a ter devolvido mais tarde constitui uma mancha indelével na sua vida, mas seria desonesto julgá-la à luz do que sabemos hoje, como o fazem os autores do livro. Mais desonesto ainda é o passo seguinte que não hesitam em dar: "As afinidades do dirigente judeu com o nazismo e o fascismo" tornaram-no indiferente à sorte dos judeus refugiados durante a guerra, impedindo a comunidade judaica de cumprir o seu papel. Os autores silenciam e difamam a colaboração intensa da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) na organização do trabalho de apoio aos refugiados com as organizações judaicas americanas realmente empenhadas no salvamento de judeus como a Joint, a Hicem e a Hias. Silenciam o trabalho dos membros da CIL, como o dos irmãos Sequerra que, entre 1942 e 1945, salvaram cerca de mil pessoas. Desses não reza a obra. Com a imaginação inflamada pelas histórias dos heróis da guerra de Espanha, entre os quais muitos judeus, aos quais recorrem para melhor denegrir, por comparação, a actuação de Amzalak, os autores esquecem-se de que o quadro de estrita legalidade no qual actuou a CIL na época, embora muito pouco romântico, foi talvez a garantia do salvamento de numerosos judeus, durante a guerra. Fez a comunidade dirigida por Amzalak tudo o que podia? Era uma pergunta que me atormentava: entrevistei refugiados, horas a fio, estudei os arquivos da CIL e confesso que não sei responder a essa pergunta. Na trágica tormenta desses anos, todo o esforço era insuficiente e a nossa consciência nunca fica tranquila. Excepto, pelos vistos a de António Louçã que, no conforto do seu gabinete, e apesar de "roído de escrúpulos" tem uma certeza: a de estar no bom lado, em defesa dos judeus revolucionários contra o "traidor" Amzalak... Eu prefiro lembrar-me das inúmeras pessoas da comunidade, acolhendo, albergando e ajudando refugiados a construir uma nova vida.