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O 'padre motard'

Sociedade

Álvaro Isidoro

É mais do que um pároco famoso. José Lambelho é um ícone. Apaixonado por motos, conquistou milhares de fãs, que enchem as suas megamissas. Histórias de um sacerdote único

Estamos no último dia 6, pela uma da tarde. Um grupo de cerca de 20 homens com idades a partir dos 40 anos, encontra-se reunido, num restaurante de Carnaxide, em Oeiras. Abundam as T-shirts sem mangas, as tatuagens, os cabelos longos, os óculos escuros e os coletes de cabedal pretos. É ali no seu ambiente que tropeçamos no "padre Zé". Entre os Amigos do Roxo, nome de barragem que inspira a tertúlia de amantes de motorizadas de cuja reunião falamos, é tradição que sempre que um dos membros tenha algo a comemorar patrocine o whisky. E o padre Zé prepara-se para ter uma nova moto e, portanto, para pagar a garrafa.

"Dura lex sed lex", comenta entre risos.

No próximo domingo, 17, quando se comemorar o Dia Nacional do Motociclista, em Coimbra, será ele a celebrar a missa perante uma assistência que rondará as 25 mil pessoas. A efeméride partiu, afinal, de uma ideia sua assim como também passou por ele a designação de S. Rafael, o arcanjo que conhece todos os caminhos, para padroeiro dos motards.

É uma cerimónia religiosa que reúne motoqueiros de todo o País. "E que acontece por causa dele", diz um dos Amigos do Roxo. "Uniu os motociclistas de norte a sul. E isso não teve necessariamente a ver com a religião. Teve a ver com a pessoa." José Fernando Lambelho, 53 anos, o "padre motard" a sua alcunha e o título de uma autobiografia agora lançada, não é uma pessoa normal. Beirão, nascido numa casa com vista para as serras da Estrela e da Gardunha, cresceu no campo, no meio dos animais, numa família pobre, um de vários irmãos. Ao almoço, comiam-se "papas de carolo" (de milho e leite), hoje "o arroz-doce dos pobres" das Beiras. Era um ser livre que "só ia a casa para dormir".

Em 1969, foi para o seminário, primeiro no Fundão e depois na Guarda, porque percebeu que o País estava em guerra e não necessariamente por vocação.

E foi um choque. "Costuma dizer-se que galinha do campo não se dá em capoeira... " Estranhou todas aquelas normas.

Uma delas, a de dormir com as mãos sempre à vista, para evitar "pecados", é hoje tida como uma forma de tortura do sono. Vivia confinado a uma casa, obrigado a andar em silêncio e em fila, de sala de estudo em sala de estudo, com horários para levantar, estudar, rezar. Estranhou e chumbou o primeiro ano a todas as disciplinas. "Era um mundo de regras, fechado", recorda, hoje, o padre. "Mas, no ano seguinte, fui tão bom aluno que ganhei uma bolsa de estudo."

NAMORAR E OUVIR ZECA AFONSO

Estava, pois, bem encaminhado. Em 1974, porém, a queda da ditadura apanha José com apenas 16 anos. "Os livros falavam agora de revoluções e da Rússia. E de Cuba. E até de Marx. Tanta coisa que tinha sido escondida", escreve em O Padre Motard Boas Curvas... Se Deus Quiser (Edições Estrela Polar, em coautoria com Rosa Ramos). "Eu só me lembro de ver uma foice e um martelo já depois do 25 de Abril", diz.

No seminário da Guarda, o estudante tro ca cartas com amig as, re corrend o a um estratagema: elas só lhe escreveriam em no me de um padre co m qu em José se correspondia, para que as mensagens não fo ssem intercetadas e lidas pelos responsáveis eclesiásticos. E, para o truque ser a inda mais perfeito, os envelopes vinham sempre com o mesmo selo, pequeno, ma is barato, qu e o pa dre utilizava. C erta vez, o "a m igo" es cre veul he quatro cartas na mesma semana e o esquema não ruiu por pouco.

O semin arista viria a gostar de Ze ca Afonso e Sérgio Godinho, e a simpatizar com... o maoísta Arnaldo Matos, líder do MRPP. E era um ser irrequieto, com mais qued a pa r a a prá tic a pa r oqu ial do que para a solidão monástica. Mudou-se para Évora, um dia antes de lhe ser comunicado que não deveria voltar à Guarda.

No Alentejo, encontrou um ambiente l iberal, mais aberto. Foi estudar Teologia, mas de cidido a não ser p adre. "Mal cheguei ao seminár io de É vora, deramme uma chave", recorda. Havia horários, claro, mas "cada um era responsável pelas suas ações". Foi então que conheceu Maria, com quem viria a namorar vários anos. Só que o apelo de Cristo falou mais alto e um dia 9 de janeiro de 1983, um domingo, lembra-se bem a relação acabou, entre choros e por mútuo acordo.

INCÓMODO E CRÍTICO

No Alentejo, ganharia a fama de " padre comu nista". Em 1984, a pós ser ordenado na Sé de Elvas, é-lhe atribuída a paróquia de Reguengos de Monsaraz, onde os seus métodos pouco dados a hierarquias depressa o tornaram notado. Certa vez, por exemplo, recusou-se a dar a hóstia aos fiéis. O Vaticano dissera que a comunhão podia ser ministrada por padres ou por leigos, uma inovação com a qual concordar a, mas que demor av a a ser seguida: a fila dos leigos para receber a hóstia ficava vazia, a do padre sempre cheia. E, um dia, ele sentou-se e obrigou toda a gente que pretendia comungar a tomar a fila do acólito...

Ta mbé m a sua ami zade c om Manuel Talhante, ateu, marxista-leninista e então à frente da Secundária de Reguengos, onde o padre dava aulas de Religião e Moral, lhe valeria a fama de "esquerdalha".

Que hoje não admite nem renega: "Não tenho ideias de esquerda ou de direita.

Mas se eu defender, como o ex-bispo de Setúbal, que toda a gente tem direito a comer com uma toalha sobre a mesa e se isso é ser comunista, então sou comunista.

" Uma certeza possui: "A Igreja não deve ter o monopólio da salvação." O padre José Fernando cultiva uma postura prática e eclética que já lhe trouxe problemas. Por exemplo, quando foi repreendido por ter dado uma absolvição coletiva. Este espírito rebelde fá-lo por vezes criticar a Igreja. "Eu não percebo ", confessa, "que um homem unido e feliz com a mesma mulher há 15 ou 20 anos não possa comungar só porque esteve casado, uns meses, numa primeira relação que não correu bem..." Foi, porém, esta sua atitude que conquistou a alma dos motards que nunca tinham visto um padre deixar entrar uma moto na Igreja ou permitir que se ligassem os motores, ao ralenti, durante uma celebração, como acontece hoje, a cada Dia do Motociclista, na hora de lembrar os mortos.

É com uma abnegação quase sem limites que continua a conquistar os por vezes duros corações dos motards: ninguém que o visse ao longe, naquele restaurante de Carnaxide, alegre e sorridente, no meio de motoqueiros tatuados e guedelhudos, desconfiaria que o "nosso padre Zé" recebera, uma hora antes, uma notícia catastrófica: a doença de que padece há seis anos, um cancro nos rins, chegou já aos pulmões, onde tem instalado um tumor com sete centímetros. A morte pode não estar longe e ele sabe-o.

Mas não é isso que o desanima. "Eu precisava de autorização da Igreja para dizer isto, mas, para mim, a minha sobrevivência tem sido um milagre." A ciência e os médicos já não sabem o que fazer com ele, diz. "Ultrapassei todos os protocolos e tratamentos..." Nem a doença lhe cala as críticas. A questão do celibato, por exemplo, preocupa-o. Não pelo sexo, que "isso há por aí a rodos, o que não há é amor". Aflige-o a própria vivência dos padres mais velhos, quando a morte se aproxima: "Quem é que lhes dá o pão? Quem é que lhes dá carinho?", pergunta, sem ter respostas...