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O mundo escondido dos nossos intestinos

Sociedade

Nos últimos anos, a Ciência começou a olhar para uma população que vive anónima no corpo de cada um de nós: os micróbios da flora intestinal. Além de produzir vitaminas e ajudar na digestão, esta espécie de segundo cérebro pode determinar o aparecimento de problemas como a diabetes, obesidade, cancro ou até depressão

As nossas entranhas estão povoadas de vida. Milhares de milhões de micróbios que trabalham desde que nascemos, assegurando o nosso bem-estar. Produzem vitaminas que somos incapazes de fabricar, decompõem a comida para que dela possamos extrair os nutrientes necessários à nossa sobrevivência, ensinam o sistema imunitário a reconhecer os invasores e produzem substâncias anti-inflamatórias que combatem agentes causadores de doença. Por cada célula do nosso corpo, há dez micróbios - fungos, vírus, mas sobretudo bactérias. Estamos a falar de organismos muito pequenos, que pesam pouco na balança - cerca de 1,5 quilos no total - e escapam à vista, passando despercebidos, mesmo à comunidade científica. Até que se começou a perceber que alterações na composição desta população (a que se chama microbioma) podem levar ao aparecimento de doenças ou explicar problemas como a obesidade.

"Há uma boa hipótese de o seu microbioma estar associado a todas as doenças de que se conseguir lembrar - diabetes, cancro, autismo", disse Michael Snyder, médico e diretor do Centro de Genómica e Medicina Personalizada, da Universidade de Stanford, Estados Unidos, ao site de notícias médicas WebMd.

De tal forma que o Instituto Nacional de Saúde Americano financiou um projeto megalómano - só comparável à descodificação do genoma humano - de descodificação do genoma das bactérias que vivem no nosso corpo. O chamado Projeto do Microbioma Humano, que mapeou a flora de várias partes do corpo (como a boca, o nariz e a cavidade vaginal, onde há maior concentração de bactérias), cada uma com características muito próprias. O projeto recorreu a amostras de 300 voluntários, de duas regiões do país, St. Louis e Houston, e espera-se que ainda venha a gerar muito conhecimento. "O nosso microbioma pesa tanto como o cérebro e terá a mesma importância", defende Rob Knight, o microbiólogo à frente do projeto.

O papel do parto

Quando falamos de microbioma, há um interesse mais acentuado num órgão em particular: o intestino. Ao longo dos seus sete metros de comprimento, distribui-se uma riquíssima população de microrganismos, ganhando tanto protagonismo que já lhe chamam "o segundo cérebro". Ainda não se conhece bem a composição deste material, mas prevê-se que numa pessoa saudável haja pelo menos mil espécies diferentes. 

Esta população começa a formar-se ainda durante a gravidez. Mas o passo mais determinante para a sua formação é o parto. A passagem pelo canal vaginal é essencial para a criação do que serão os primórdios do microbioma. "A primeira colonização acontece durante o parto", realça o gastrenterologista do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Fernando Ramalho. "As crianças que nascem por cesariana têm mais doenças alérgicas e do sistema imunitário", continua. Em bebés nascidos por parto normal detetam-se lactobacilos, característicos da flora vaginal, enquanto os que nascem por cesariana apresentam bactérias características da pele, como os estafilococos. A importância deste contágio é tal que em alguns hospitais americanos já se inocula nos bebés nascidos por cesariana um extrato retirado do canal vaginal da mãe - como revelou Rob Knight, acerca da sua própria filha, durante a TED Talk que deu em Vancouver, no ano passado.  

Ao longo do primeiro ano de vida e com o enriquecimento da alimentação e a exposição ambiental, vai aumentando a complexidade e riqueza desta flora. Aos três anos de idade, o microbioma gastrointestinal é 40% a 60% semelhante ao de um adulto.

No intestino, as bactérias ajudam a digerir a comida, produzem vitaminas essenciais à vida, enviam sinais ao sistema imunitário e libertam pequenas moléculas que ajudam o cérebro a funcionar.   

"Sem as bactérias do intestino não seríamos nada. São uma parte crítica de nós e essenciais à nossa saúde", continua o cientista americano Michael Snyder.

Do 8 ao 80

As primeiras pistas surgiram quando se passou a perceber que pessoas com determinadas patologias tinham uma flora intestinal diferente da dos indivíduos saudáveis. "A comunidade médica começa a ficar muito interessada neste assunto. É um mundo. E a quantidade de publicações científicas nesta área tem aumentado exponencialmente", nota Henrique Veiga Fernandes, investigador do Instituto de Medicina Molecular, em Lisboa. A questão pode ser explorada em duas vertentes: a terapêutica e a de diagnóstico.

Vários centros em todo o mundo começaram a utilizar uma técnica que tem tanto de repugnante como de promissor: o transplante de fezes. Ainda com caráter experimental, o procedimento tem dado resultantes surpreendentes no tratamento de uma infeção intestinal complicada, causada pela bactéria C. difficile. Num estudo publicado no New England Journal of Medicine relata-se que o transplante de matéria fecal de um dador saudável apresenta um prognóstico melhor no tratamento da infeção - caracterizada por um grande mal-estar, febres altas, dores e diarreias - do que o uso de antibióticos.

Nada disto é ainda feito por rotina, e ao que a VISÃO conseguiu apurar não se pratica em Portugal. Mas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Austrália há várias unidades de saúde que se tornaram conhecidas por realizarem o transplante de matéria fecal, mantendo uma base de dadores regulares, aos quais pagam em média 30 euros por doação - de fezes. O material depois é lavado e aplicado através de uma sonda nasogástrica ou ainda em comprimidos - numa evolução recente. "No tratamento da infeção por C. difficile, o transplante fecal apresenta um enorme sucesso, interrompendo a doença porque restaura a comunidade microbiana", sublinha o gastrenterologista Fernando Ramalho. "Quando damos um medicamento para a diarreia, estamos a fornecer apenas um tipo de bactéria. Numa cápsula de fezes vão milhares de microrganismos", compara.

Daqui, rapidamente se extrapolou para outros problemas de saúde, como o tratamento da esclerose múltipla, partindo da pouco explorada, mas provada, relação entre o sistema digestivo e o sistema nervoso. Numa clínica britânica, pratica-se rotineiramente o transplante de fezes para o tratamento desta doença autoimune. Alegadamente com resultados espetaculares, de remissão de sintomas. "Interessa muito estudar a relação entre o sistema nervoso e o intestino. Está ainda pouco explorada e pode ajudar a resolver problemas clínicos e de diagnóstico. Mas é preciso que se perceba que isto não é nem nunca será uma panaceia, não vai resolver tudo", alerta Henrique Veiga Fernandes, que se dedica ao estudo do sistema imunitário. "Neste assunto, passámos do 8 [a falta total de interesse] ao 80."

O cientista realça que até agora quase todos os estudos referem uma correlação, ou uma associação entre fatores, e não uma relação de causa e efeito. Por exemplo, há uma clara associação entre um microbioma pobre - um problema que tem o nome de disbiose - e a obesidade. Por outro lado, pessoas magras têm um microbioma mais variado, com mais espécies de microrganismos. "Pela análise dos micróbios do intestino pode dizer-se, com uma precisão de 90%, se uma pessoa é obesa ou não", refere Rob Knight. Ratinhos criados em laboratório, num ambiente totalmente estéril, tendo nascido sem qualquer micróbio, receberam microbioma de ratos obesos. E passaram eles mesmos a ser obesos porque começaram a comer desalmadamente. A experiência dá os mesmos resultados se forem transplantadas bactérias de pessoas gordas, o que representa um grande potencial de experimentação científica.

Uma coisa que os cientistas parecem já ter percebido é que não é a presença ou ausência de um tipo particular de bactérias que faz um microbioma ser saudável ou não. Mas a sua diversidade. "Um sistema mais diverso é mais robusto e capaz de resistir e de voltar ao normal depois de uma agressão, como uma doença ou a toma de um antibiótico", reforça Henrique Veiga Fernandes.

"É fácil perceber que potencialmente há um maior benefício se tivermos uma grande variedade de bactérias. Estas podem decompor diferentes fontes de alimentos, produzir várias moléculas distintas que contribuem para a maturação do nosso sistema imunitário, e ainda fabricar moléculas de que o nosso cérebro precisa para funcionar normalmente", nota o médico Joseph Petrosino, diretor do centro Alkek, no Baylor College of Medicine, Houston, Estados Unidos, no já referido artigo do site WebMd.

Já foi encontrada uma relação entre a composição do microbioma e patologias como o cancro do cólon, doença de Crohn, colite ulcerosa, diabetes e obesidade. O que parece relativamente natural, já que se trata de patologias que afetam o intestino. Mas já não será tão evidente a ligação entre estes microrganismos e doenças autoimunes, como a artrite reumatoide. "Muitas doenças - da pele, dos pulmões, articulações, e outros tecidos - são causadas por um processo inflamatório" diz Petrosino. "Um desequilíbrio bacteriano pode elevar os níveis de inflamação", continua.

Bactérias para a depressão 

Além do parto e da amamentação, o ambiente em que se cresce e o regime alimentar determinam o tipo de flora intestinal - diferente de pessoa para pessoa. "Chegou-se ao ponto de, através da análise do microbioma, ser possível dizer se uma pessoa tem ou não um animal doméstico, e que de que animal se trata, ou se pratica exercício físico num ginásio ou no exterior," refere o imunologista Henrique Veiga Fernandes. Uma dieta rica em fibras vegetais produz uma flora intestinal muito mais variada e rica do que uma alimentação baseada em hidratos de carbono e gorduras saturadas. "O tipo de hidratos de carbono na alimentação humana pode afetar a composição das bactérias no intestino. E, ao contrário, a composição da comunidade pode influenciar a sua capacidade de metabolizar os hidratos de carbono ingeridos", escreve-se num artigo publicado na revista médica Gastroenterology.

No mesmo artigo pode ler-se que uma grande riqueza bacteriana e diversidade correspondem a um melhor estado nutricional, menores comorbilidades e maior estado geral de saúde, num grupo de indivíduos idosos.

Há até quem sugira que a cura para a depressão crónica pode vir de um preparado de bactérias. "Ressonâncias magnéticas feitas aos cérebros de um grupo de mulheres mostrou que há áreas que são estimuladas quando estas tomam probióticos [microrganismos vivos] e há evidência de que a colonização bacteriana tem uma relação com a esquizofrenia e a depressão", relata o médico Fernando Ramalho.

O psiquiatra e investigador da Fundação Champalimaud, Joaquim Alves da Silva, refere uma experiência feita com ratinhos deprimidos em que a um grupo foi dado um suplemento com lactobacilos e a outro não. Nos animais alimentados com aquele tipo de bactérias registaram-se muito menos sintomas de depressão e ansiedade do que no grupo que não recebeu estes microrganismos. E mais: cortado o nervo vago - que faz a ligação entre o sistema digestivo e o cérebro -, este efeito protetor deixava de se verificar. Levando a pensar que sim, há uma ligação entre a flora intestinal e o sistema nervoso central e que os sinais chegam ao cérebro através do nervo vago. "Sabemos que há uma relação bidirecional entre o nervo vago e o intestino. A depressão induz alterações na flora e o contrário parece igualmente acontecer", sublinha o psiquiatra e investigador.

Também já foram encontradas relações com a ansiedade, perturbação obsessivo-compulsiva, autismo e doença de Alzheimer. Especula-se que a ligação ocorra através de moléculas pequenas, produzidas pelas bactérias, e que chegam ao cérebro. Pode não ser a panaceia. Mas, depois de ter lido este texto, vai com certeza olhar com outros olhos para a vida escondida nas suas entranhas.