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O misterioso desaparecimento de 'Zuki'

Sociedade

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Viajou do Funchal para Lisboa para se divertir com os amigos de infância. Após uma noitada de copos, nunca mais foi visto. Siga os últimos passos conhecidos de João Medeiros desde que aterrou na Portela 

Na quarta-feira, 6, por volta das onze da noite, o voo proveniente do Funchal aterra no aeroporto da Portela. João Medeiros, ou Zuki, como é tratado pelos amigos, recolhe a bagagem e envia uma mensagem de telemóvel ao pai, dando-lhe conta de que chegou bem. A aguardá-lo está João Raposo, 24 anos, um amigo de infância com quem jogava à bola no Micaelense, uma equipa de São Miguel, ilha onde ambos cresceram.

O plano é simples: cinco dias de diversão com Cheiroso, Sansão, Carraça e Bobina, alcunhas de João Cardoso, Diogo Cabral, João Raposo e André Tavares, seus conterrâneos que hoje estudam e trabalham em Lisboa. Zuki, que tem um mestrado em desporto, terminara, recentemente, o estágio profissional numa academia de karaté do Funchal. Está desempregado, é frequente ouvi-lo queixar-se de não ter nada para fazer. Uma semana de farra com os amigos vinha mesmo a calhar.

André Tavares preparara um manjar especial para receber o amigo. O arroz de peixe desaparece em três tempos, entre gargalhadas e comentários ao excesso de picante da refeição. Entretanto, João Raposo informa Zuki (alcunha inspirada numa marca de sumos) que lhe vai enviar para o telemóvel a morada do apartamento onde estão a jantar, para que, depois, possa regressar a casa sem dificuldade. "Ele costuma sair mais cedo das discotecas", justifica, agora. "Queria evitar que se perdesse, nas ruas de Lisboa." Zuki recusa a ideia, garantindo fazer questão de voltar ao mesmo tempo que os amigos.

Convidado a sair

O grupo abandona o apartamento já depois da meia-noite, em direção ao bar Marretas, ponto de encontro de açorianos, na zona de Santos. Zuki troca várias mensagens com Sofia Brito, namorada com quem mantém uma relação há cinco anos. O casal conheceu-se na universidade, a madeirense é licenciada em Relações Empresariais; pretendem viver juntos assim que conseguirem emprego.

A conversa, no bar Marretas, arrasta-se até às 2 e 30 da manhã. Zuki está entusiasmado com o futuro. Anuncia aos amigos que, em junho, vai frequentar um curso de personal trainer, o que lhe poderá valer um trabalho num ginásio. Os brindes repetem-se até o grupo decidir atravessar a Avenida 24 de Julho e caminhar em direção ao Urban Beach, uma discoteca muito movimentada, com instalações encostadas ao rio Tejo. Pagam 12 euros à entrada e mergulham na agitação.

Zuki está vestido com uma camisola azul, umas calças de ganga claras, e uns ténis escuros. Ao longo da noite, separa-se dos amigos várias vezes, circulando entre os bares e as pistas de dança. Às 3 e 09, envia uma mensagem à namorada. "Estávamos a ter uma conversa normal", garante Sofia Brito. "Falámos durante toda a noite." Sete minutos depois, é visto com dois copos na mão, até, segundo os amigos, ser convidado por um segurança a sair da discoteca, por estar embriagado.

Às 3 e 30, João Raposo repara na ausência prolongada do amigo, e envia-lhe uma mensagem com a morada do apartamento. Zuki paga 24 euros de consumo e sai do Urban às 4 e 13. "Um amigo nosso ajudou-o a caminhar até à porta, e veio avisar-nos de que ele já se encontrava no exterior da discoteca", conta Diogo Cabral. Às 4 e 30, João Raposo volta a enviar uma mensagem a Zuki, perguntando-lhe onde se encontra. "Nós saímos às 4 e 52. Como não o vimos, julgámos que tinha ido para casa."

O grupo de amigos estava cansado e vencido pelo excesso de bebida. Quando chegaram ao apartamento, atiraram-se para a cama, julgando que Zuki acabaria por aparecer.

Tejo demasiado acessível...

Na quinta-feira, 7, só despertaram por volta da uma da tarde. Nem sinal do amigo. Seguiram-se horas de grande angústia. "Regressámos ao Urban para procurá-lo. Batemos as redondezas, mas nada", conta João Raposo. Depois de avisarem a família de Zuki deslocaram-se à polícia, a vários hospitais e lançaram uma campanha de alerta nas redes sociais.

"Ainda não tive coragem de ir à discoteca para ver as imagens dessa noite", confessa o pai, Pedro Bettencourt Medeiros, que viajou de Ponta Delgada para Lisboa, logo na sexta-feira, 8. Zuki é filho de um casal divorciado de professores, tem um irmão mais velho, médico no Porto, e uma irmã mais nova, estudante de arquitetura. "Ele foi sempre muito saudável, adorava desporto", conta o pai. "Para já, e pelo que sabemos, não existem indícios de crime."

As imagens recolhidas pelas câmaras de vigilância da discoteca mostram que Zuki saiu, cambaleante, pelo seu próprio pé. Em vez de esperar pelos amigos, caminhou na direção contrária à da praça de táxis, rumo a um longo passeio ribeirinho que desemboca no Cais do Sodré. "É inacreditável como aquela zona, perto de uma discoteca, não tem qualquer proteção", protesta Pedro Bettencourt Medeiros.

A passadeira de saída do Urban dista apenas dez metros do rio Tejo. Apesar disso, só uma semana após o desaparecimento é que a Polícia Marítima recebeu um pedido para investigar o local. À hora de saída de Zuki, ainda faltavam duas horas para que a maré atingisse o pico. Pelos cálculos do comandante Cruz Gomes, era tempo suficiente para que um corpo chegasse a Algés. Acontece que, nas seis horas seguintes, o cadáver retomaria o local de partida, empurrado pela maré preia-mar. Só ao final da tarde de quinta-feira é que o corpo seria levado novamente em direção ao mar. "Numa semana, um cadáver pode chegar a Peniche. Isso já aconteceu", conta Cruz Gomes. "Durante as buscas, fizemos mergulho a dez metros de profundidade, explorando a hipótese de o corpo estar preso nalgum ferro ou pedra."

Na noite do desaparecimento, Zuki deixou o seu smartphone em casa dos amigos (temia ser roubado), e levou consigo um telemóvel mais barato e sem possibilidade de ser localizado à distância. Sofia Brito foi a última pessoa a receber uma mensagem sua, a sms ativou uma antena de telecomunicações perto da discoteca. Depois, o silêncio.