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"O jornalismo grátis na Internet foi um erro fatal"

Sociedade

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Trabalhou em televisão durante 35 anos, boa parte dos quais na CBS. Walter Dean faz parte do Comittee of Concerned Journalists, grupo de jornalistas, preocupado com o rumo dos media. VEJA O VÍDEO E LEIA A ENTREVISTA

Depois do julgamento de O.J. Simpson, um grupo de jornalistas, preocupado com o rumo que os media estavam a seguir, criou o Comittee of Concerned Journalists. Walter Dean, que veio recentemente a Lisboa, não só se juntou a esse grupo, como deu continuidade ao trabalho: ainda hoje é um dos professores do Projet for Excellence in Journalism

Que aconteceu ao jornalismo público e cívico, que chegou a ter bastantes adeptos nos EUA?

Era um movimento que considerava o público nosso parceiro. Precisávamos de ouvir mais os leitores/espetadores e de os deixar participar mais, fosse como fontes, fosse como colaboradores ou mesmo na marcação da agenda. Nós, jornalistas, tínhamo-nos tornado muito poderosos e, para ser franco, arrogantes. Éramos tão independentes que nem ouvíamos o público.

Esse movimento cresceu, mas a Internet acabou por dar origem ao jornalismo cívico em muito maior escala.

   E o público quer hoje o quê?

Cada vez mais o jornalismo tem de "agarrar" o público. O objetivo continua a ser tornar interessante o que é importante, mas hoje há muita distração lá fora. Quando comecei na televisão, há 40 anos, a minha comunidade tinha três estações de televisão, enquanto hoje haverá umas duzentas. E claro que a Internet, ao contrário de nós, chega a um número ilimitado de sítios. A existência de tantas escolhas fragmentou de tal maneira o público, que o nosso modelo de negócio se deteriorou.

E é nesse contexto que temos de identificar o que é importante. Mas, em alturas de crise, como no 11 se Setembro, é aos sites dos media profissionais e credíveis que as pessoas vão informar-se.

Mas será que os media estão a fornecer a informação de que o público precisa?

Os jornalistas, especialmente os da televisão, criaram uma série de mitos sobre as audiências. Acham que o público se interessa por poucos assuntos e, sobretudo, por notícias sensacionais, coisas assustadoras ou crimes. De certa forma, isto é muito ilógico, porque a função do jornalismo é dar às pessoas a informação que lhes permita tomar decisões na  vida diária. E que não são, certamentente, esses assuntos. Portanto, muitas vezes, haverá um desajuste entre a informação que recebem e aquela de que precisam, e por isso procuram na  Internet.

Adquirimos a ideia de um público que não é muito inteligente nem pensa muito nos problemas e só quer ser entretido. Mas se ouvirmos as pessoas falar no café ou na fila para autocarro, veremos que têm outras preocupações, seja a educação dos filhos seja os impostos.

A crise dos media, sobretudo da imprensa, será mais por ter perdido leitores ou anunciantes?

O modelo de negócio pressupunha um número elevado de leitores, que se conseguia com algum equilíbrio e alta qualidade. Mas esse público foi pulverizado pela Internet, pelo cabo e pelo satélite. Hoje, o negócio assenta em públicos mais reduzidos, que tem sido difícil agrupar.

Pela mesma razão, também a publicidade se dividiu. Aquilo que eram organizações independentes, fortes, tiveram de ajustar-se a menos receitas publicitárias, o que lhes torna difícil manter não só a independência como a dimensão dos seus quadros.

A outra questão é que a publicidade na Internet não é tão eficaz como se pensava. Assim, foi todo um modelo de negócio que foi perturbado. Veja-se o caso de The New York Times, hoje com um milhão de leitores na edição em papel e 22 milhões na Internet. Criou um mural, para que só se tenha acesso aos artigos completos, pagando. Mesmo assim, só 13% a 15% das receitas publicitárias vêm da Internet. O grosso, 85% a 87%, tem origem na edição em papel, apesar de mais reduzida.

Se a publicidade na Net não é eficaz, porque não voltou à imprensa?

Por causa da crise económica e também por termos hoje menos leitores, o que reduz o interesse dos anunciantes. Esperamos que a publicidade encontre modelos eficazes para os media eletrónicos. Aliás, os tablets como o iPad surgiram, em parte, para divulgar melhor a publicidade.

Nos EUA, estão a tentar desenvolver um modelo de negócio que permita às empresas de tecnologia, a Google e outras, saber quem são os seus utilizadores e o que veem. Na Europa, a publicidade online tem ainda mais dificuldades, devido às restrições à invasão da privacidade.

Um dos aspetos que mais mudaram nos media foi a propriedade. Com que resultados?

Nos EUA, os donos eram grandes famílias, que faziam jornais de muita qualidade e outros menos bons. Depois, foram quase todos comprados por grupos económicos. Os meus amigos que estudam o assunto dizem-me que o resultado foi ter melhorado a qualidade dos maus jornais e piorado a dos bons, sendo o resultado geral mais mediano.

Estamos na fase Murdoch da comunicação social.

É curioso que a FoxNews seja aquilo que mais se associa a Murdoch, nos EUA, quando ele é dono de 30 estações de televisão em grandes cidades americanas que, ao contrário da Fox, não têm uma orientação política clara e que representam grande parte dos lucros dele, nos EUA.

Voltando ao público: onde vai ele hoje procurar as notícias?

Em geral, as pessoas usam seis ou sete fontes. De manhã, podem ligar a TV, só para ouvir as notícias enquanto vestem os filhos; depois ouvem rádio no carro. No emprego, podem ouvir rádio ou, se têm acesso a um computador, ir aos sites preferidos ou às redes sociais; e à noite, em casa, veem televisão. Mas, nos EUA, informam-se cada vez mais por dispositivos móveis.

E como formam a opinião?

Depende do tipo de informação que procuram, como mostram estudos recentes nos EUA: a TV para as últimas notícias da noite ou para a meteorologia; os jornais para as notícias locais, a rádio para o trânsito e a Internet para informação sobre escolas ou empregos.

Outro diferenciador é a idade. Acima dos 40 anos, tendem a formar a  opinião a partir da TV e dos "velhos" media, enquanto os mais novos preferem dispositivos móveis. E o lugar onde vivem também é importante: nas cidades, vão mais a  telemóveis e tablets, além do mais pelos mapas que podem ajudá-los a encontrar um lugar. Já nos subúrbios usam bastante a rádio, que ouvem nas viagens entre a casa e o emprego, e, nas zonas rurais, os jornais ainda dominam. Não podemos levar o público a usar este ou aquele suporte. Como dizia um professor, "só porque determinado aparelho foi inventado e é uma boa ideia, não quer dizer que as pessoas gostem dele ou vão usá-lo".

Como imagina o jornalismo do futuro?

O mais lógico será basear-se no jornalismo do passado. Sempre fizemos três coisas: procurar a informação, verificá-la e dar-lhe um sentido. Creio que será tudo isso que temos de continuar a fazer. Resta saber sob que plataforma, para podermos definir, a partir daí, um modelo de negócio. Até agora, vivemos num ambiente em que tudo tem sido grátis. As pessoas podiam não pagar muito, mas devia ter havido alguma contrapartida. Termos prescindido de que a informação fosse considerada um valor revelou-se um erro fatal.

O que achou do anúncio da Newsweek de que vai abandonar a edição impressa?

Digo apenas que não me surpreendeu, porque, desde há uma década, tinha muita dificuldade em definir a sua identidade.

Os jornais seguirão esse caminho? Ou precisarão sempre de um "corpo" para juntar ao virtual?

Não estou certo de que vamos precisar sempre do jornal "físico", mas pode acontecer que os anunciantes não aceitem prescindir completamente dele.

Também é bom lembrarmo-nos de que a rádio mataria a leitura, o cinema mataria a rádio, a TV mataria o cinema e os jornais, o cabo mataria todas as outras TVs, o satélite mataria o cabo, e agora a Internet mataria tudo. Afinal, ainda cá estão todos!.

Mas, em relação aos jornais diários, talvez de segunda a quinta-feira possam surgir, sobretudo, online, e reservem o papel para enormes edições de fim de semana, quase revistas, com muito comentário.

A edição de livros também não acabou, pelo contrário, só que grande parte dos leitores usam hoje suporte eletrónico. O público escolherá o que achar melhor, mais útil e mais fácil. Só que levaremos tempo a perceber exatamente o que virá a ser.

B.I. - Jornalista e docente

Trabalhou em televisão durante 35 anos, boa parte dos quais na CBS. Depois de sair, em 1998, tornou-se vice-diretor do Pew Center for Civic Journalism. Aí produziu A Journalist's Toolbox (A caixa de ferramentas do jornalista), um conjunto de vídeos para treino de profissionais e alunos de jornalismo, ainda hoje muito usado. Tem artigos seus publicados em várias revistas sobre os media, como a Columbia Journalism Review