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O ioga chegou ao mar

Sociedade

É um dois-em-um insólito: paddle-surf com ioga. Será tão difícil como parece? VEJA O VIDEO

Sílvia Duarte acaba de chegar à Praia Grande, no concelho de Lagoa, Algarve. São 08h30 e o cenário parece exalar paz. Grandes falésias contornam a pequena baía. Ondas suaves de água cristalina rebentam aos nossos pés. À medida que as pessoas chegam para a aula, a professora de ioga vai sorrindo e dizendo às alunas para relaxarem, alternando entre o inglês e o português. A certa altura, pede que nos aproximemos da água, para fazermos alguns exercícios de aquecimento e preparação: temos de descontrair e tentar manter os joelhos soltos para facilitar o equilíbrio em cima da prancha. Daí a uns minutos, estaremos todas no mar calmo, a praticar ioga.

O stand up paddleboard ioga, ou paddle ioga, é exatamente o que o nome indica: uma variante do paddle (surf com ajuda de um remo, modalidade que tem conquistado cada vez mais adeptos nos últimos anos) em que a prancha faz as vezes de tapete de ioga. O desporto começou a ser praticado aqui, no Algarve, quando o luso-holandês Arnaud Van Der Dussen (campeão nacional de kitesurf e vencedor do Stand Up Paddle Algarve 2012) convidou Sílvia Duarte para iniciar as aulas na praia.

"A humanidade está cansada e assustada com o que se passa atualmente: vive-se muito à pressa, não se tem tempo para quase nada que nos dê prazer", diz Sílvia, 45 anos. "As pessoas que nos procuram, a mim e aos meus colegas, precisam de harmonia." Uma hora por dia a praticar paddle ioga faz milagres contra o stresse do trabalho e a correria do dia a dia, assegura a professora, que dá estas aulas há três anos.

 

 

Nem toda a gente percebe a mistura entre as duas modalidades. "Podem até ser feitos julgamentos pelo facto de o ioga ser uma tradição tão antiga, e esta ser uma nova forma de praticar." Mas o que importa é o resultado. "Eu tento trazer comigo pessoas que se sintam bem, seja em cima de uma prancha, na areia da praia ou dentro de um edifício. A pessoa sente que tem de se libertar da sala de aula e, às vezes, é preciso praticar diretamente na natureza. Temos de saber ouvir e entender o nosso corpo e as suas necessidades."

Uma sereia!

Quando pegamos na prancha pela primeira vez, transportando-a para a água, ocorre-nos um só pensamento: como conseguir manter-me em pé e ainda fazer ioga? A ansiedade é suavizada pela água fresca nos braços, enquanto remamos até à linha de boias onde iremos prender o arnês da prancha.

O truque, explica a professora, é mudar de postura quando nos sentimos desconfortáveis.

À primeira vista, fazer posições de ioga em cima de uma prancha a flutuar pode parecer coisa apenas ao alcance de gente com muita experiência. Mas não é verdade. "Nunca tinha praticado ioga nem paddle", garante a holandesa Jessica Heinhuis, 37 anos, funcionária de um centro de fitness. "Na Holanda, a água é muito fria e raramente temos um sol tão radiante."

Ao contrário de Jessica, Joana Freitas, 24 anos, fotógrafa, já tem dois anos de experiência. "A vantagem do paddle ioga é poder juntar todas as minhas paixões em cima da prancha. Notei que tenho mais equilíbrio no surf e mais força na remada", afirma, a sorrir.

A sul-coreana Chiwon Choi, 34 anos, por seu lado, está a fazer ioga pela primeira vez nos últimos quatro meses, desde que uma cirurgia a obrigou a parar. E já promete não perder uma única destas aulas, que aqui se repetem todos os sábados de manhã.

"A vantagem de poder praticar ioga na água, em cima da prancha, é que nos dá a oportunidade de encontrar equilíbrio: em terra, pensamos que estamos a fazer a posição corretamente, mas na água, com o desequilíbrio, percebemos exatamente como nos devemos posicionar para distribuir o peso uniformemente."

 

 

Na verdade, paddle ioga é tão fácil que até crianças o podem praticar. Aliás, as turmas mais entusiasmadas são precisamente as de miúdos, afiança Sílvia. "Eles estão sempre entusiasmados e ansiosos por aprender coisas novas. É muito bom porque ainda não estão formatados pela sociedade e são mais abertos a novas práticas. Também é mais fácil, porque conseguimos contar-lhes histórias com os nomes das posturas - e há muitas que têm nomes de animais. O facto de ser na água ainda os cativa mais."

Termina a aula. No final, ainda equilibradas nas pranchas, sorrimos umas para as outras e saudamo-nos com o típico Namasté. Todas nos sentimos em paz, mas há quem sinta também a água fria no corpo - uma de nós caiu ao mar, o que, apesar de tudo, é habitual, até entre praticantes experientes. No paddle ioga, quem cai, é chamado sereia.