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O dia em que o Chiado ardeu

Sociedade

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Vinte e cinco anos depois do incêndio que deflagrou no coração da capital, a olisipógrafa Marina Tavares Dias, autora dos livros Lisboa Desaparecida, recorda as emoções de uma das mais duras reportagens que teve de escrever para o Diário de Lisboa, onde então trabalhava

Chegue atrasado Por duas razões: Em primeiro lugar para evitar ter de fazer sala com aquela colega aborrecida com quem nunca trocou uma palavra e que é sempre a primeira a chegar; E em segundo, porque, assim, quando chegar, todos terão uma desculpa para interromper as conversas de circunstância: "Olha quem chegou!"
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Chegue atrasado Por duas razões: Em primeiro lugar para evitar ter de fazer sala com aquela colega aborrecida com quem nunca trocou uma palavra e que é sempre a primeira a chegar; E em segundo, porque, assim, quando chegar, todos terão uma desculpa para interromper as conversas de circunstância: "Olha quem chegou!"

Nunca se ofereça para planear... e muito menos para limpar Os "homens a sério", garante a GQ, deixam os detalhes sujos para os outros, porque estão ocupados a ter ideias fantásticas
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Leve sempre um acompanhante É a melhor desculpa para ser anti-social
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Guarde as substâncias ilícitas para quando o patrão estiver a falar Pode querer sair dalí quando estiver a ouvir falar do ótimo desempenho da empresa que em nada reverte para si
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Guarde as substâncias ilícitas para quando o patrão estiver a falar Pode querer sair dalí quando estiver a ouvir falar do ótimo desempenho da empresa que em nada reverte para si

Quando o telefone tocou , às 6 da manhã do dia 25 de agosto de 1988, eu não tinha dormido mais de três horas. Julguei ouvi-lo a meio de um sonho qualquer. Deixei tocar. Foi a insistência que me acordou. Era o chefe de redação do Diário de Lisboa e o apelo foi rápido: "Vai para o Chiado que Lisboa está a arder!" 

(...)

Não demorei mais de um quarto de hora a tomar banho, vestir-me de lavado, apanhar um táxi e rumar ao Rossio onde, em época anterior aos telemóveis, tentei ligar de uma cabina para o jornal: não podemos subir pela Rua do Carmo, mas deixam os jornalistas ir pelo lado da Rua do Ouro. O Grandella está totalmente queimado e talvez ameace ruir.

Paro e tiro uma fotografia aos bombeiros que continuam a encher de água a lava cor de laranja e fervente. "Venha por aqui, menina." O bombeiro conduz-me até ao passeio fronteiro ao gaveto da Rua do Crucifixo: "Se quer subir, é melhor ir dar a volta pela Rua Nova do Almada. Os Armazéns do Chiado já têm o fogo deste lado." Os Armazéns do Chiado? Apercebo-me, então, daquilo que está em jogo. Que o Grandella, todo de ferro e vidro, construção de 1907, inovadora mas frágil, com pisos pela encosta do Carmo acima logo na dobra do século, apresente ameaça de destruição total, não me parece paradoxal.

Mas os Armazéns do Chiado, instalados num palácio com a estrutura sólida dos antigos conventos de Lisboa? Sopra um vento ligeiro que suponho nefasto em tais circunstâncias. O dia amanhece límpido, e o vulto do fumo negro sobre a Baixa quase inteira denuncia, imediatamente, uma tragédia de grandes proporções. 

(...) 

O fumo negro não deixa perceber onde termina o incêndio. "Posso ir ver os Armazéns do Chiado?" A resposta é breve, enquanto passa entre nós mais uma mangueira. "Não há nada para ver, menina. Já ardeu tudo!"

 

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