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O Americano que doou esperma mais de 500 vezes

Sociedade

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Jeffrey Harrison não se encaixa no perfil de povoador. De cada vez que entrou num dos cubículos de recolha de esperma fê-lo para receber os 25, 35 ou 50 dólares por amostra. Até agora já lhe apareceram 14 filhos

Esta é uma história sem arrependimentos. Muita coisa correu mal aos protagonistas mas nenhum voltaria atrás para fazer de maneira diferente. Nem mesmo o autor do filme que resume numa hora e picos várias vidas cujos destinos começam por se cruzar em tanques de criopreservação.

A cena favorita do realizador Jerry Rothwell tem um pombo perdido num parque de estacionamento em Venice Beach, mas ele não hesitou ao escolher as primeiras cenas de Donor Unknow, adventures in the sperm trade. Lá estão os cilindros enormes do California Cryobank, em Los Angeles, e o médico Cappy Rothman, fundador do banco de esperma norte-americano, a dizer: "Cada um destes tanques tem milhões e milhões de espermatozoides. Podíamos povoar o mundo inteiro!"

Jeffrey Harrison não se encaixa no perfil de povoador. De cada vez que entrou num dos cubículos de recolha de esperma fê-lo para receber os 25, 35 ou 50 dólares por amostra (os preços iam subindo). No final dos anos 80 fazia-o duas a três vezes por semana - o suficiente para lhe garantir a renda da casa. No total terá doado mais de 500 vezes. "Pensava nas famílias que tentavam ter filhos", garante ao telefone. "Imaginava que um dia ia olhar esses pais nos olhos e dizer-lhes que tinham sido momentos mágicos." 

Nu na 'Playgirl'

Quando se tornou um dador regular Jeffrey ainda não fizera 30 anos. Trazia no currículo algum trabalho de modelo nu (chegou às páginas centrais da revista Playgirl), entregava telegramas a fazer strip tease, dançava num grupo do género Chippendales e servia à mesa. No formulário que preencheu no banco de esperma, escreveu: "28 anos, caucasiano, 1,83 m de altura, 80 quilos, olhos azuis, cabelo castanho-claro, última ocupação bailarino." Sabia tocar guitarra, cantava, dava aulas de ginástica e estudara Filosofia.

Indiciava que era bem-parecido, dado às artes e culto. Mas seria a maneira como encarava a vida a torná-lo popular entre quem buscava um dador: "A minha aspiração mais profunda é espiritual. A vida terrena é passageira e as alegrias deste mundo são efémeras. Se formos sinceros teremos sorte."

Chegara ali por acaso depois de ter sido abordado por uma desconhecida num cabeleireiro, em Beverly Hills. A mulher queria ser mãe e procurara em vão, entre os amigos, algum que se dispusesse a ajudá-la no processo. Jeffrey era bonito e simpático. "Porque não?", pensou também ele. Mas foi quando passou por um banco de esperma para fazer o despiste de eventuais doenças que entreviu um futuro como dador.

A mulher que o abordara no cabeleireiro teve dois filhos seus. De cada vez que ovulava, aparecia no restaurante onde ele trabalhava. "Eu ia à casa de banho e voltava com um copinho", conta Jeffrey. 

'Olá, sou tua irmã'

A mais de 4 mil quilómetros de Los Angeles, no Estado da Pensilvânia, Lucinda Marsh foi uma das mulheres que ficaram fascinadas com o formulário de Jeffrey. Em 1989, ela e a companheira encomendaram por correspondência uma amostra de esperma.

JoEllen nasceu em 1990. Filha única até aos 6 anos, olhava para o resto da família e sentia-se diferente. "Mexia-me de outra maneira, por exemplo", conta à VISÃO. A mãe nunca lhe escondeu que tinha existido um dador. Quando quis engravidar novamente, de um outro homem, mostrou-lhe a ficha de inscrição de Jeffrey. A filha leu e releu a descrição do Dador 150. Tinha 7 anos e imaginou de tudo: um artista, um empresário de sucesso. Fantasiou que iria conhecê-lo mas continuou a sua rotina num lar feliz.

Aos 12 anos a mãe contou-lhe que havia um site que ajudava os filhos e os dadores a encontrarem-se, criado por Wendy Kramer e o seu filho, Ryan, que nascera por intermédio de um banco de esperma. JoEllen inscreveu-se em www.donorsiblingregistry.com sonhando que o pai haveria de contactá-la.

Dois anos depois seria contactada, sim, mas por uma meia-irmã, Danielle Pagano, que morava em Nova Iorque e acabara de saber pelos seus pais que era filha do Dador 150. JoEllen tinha 15 anos e Danielle 16 quando se conheceram. "Esquisito" foi a palavra que mais usaram nesse encontro numa estação de comboios, em Nova Iorque. Tinham os mesmos olhos e sobrancelhas, os mesmos tiques, os mesmos gostos. Olhos azuis, sobrancelhas à Brooke Shields, o gesto de pôr o cabelo atrás da orelha, paixão por música e por cães. "Olhávamos para homens na Penn Station e dizíamos: 'Este podia ser o nosso pai... Ou aquele...'", conta JoEllen.

A história seria escrita pela primeira vez em 2005, no New York Times, com destaque na primeira página. Olá, sou tua irmã. O nosso pai é o Dador 150 era o título que reproduzia o primeiro contacto das duas miúdas no site. Jeffrey estava a tomar café em Venice Beach quando leu este título. "Pousei o jornal. Olhei em volta e pensei antes de voltar a pegar-lhe: 'Há muitos bancos de esperma, não deve ser o California Cryobank'." Era.

Ainda são raros os casos de dadores que dão o passo de se apresentarem aos seus "filhos". Os "eventuais problemas" são muitos, nota Jeffrey. "Devia haver um mediador que ajudasse dadores e miúdos a encontrarem-se. Se deixo que me chamem pai fico com responsabilidades só morais ou também legais e financeiras? Num processo de adoção há psicólogos e advogados envolvidos. Aqui não há nada, o risco é imenso."

Um 'vagabundo de praia'

Por esta altura Jeffrey já passara por cenas dignas de um guião de Hollywood. Fora perseguido por um detetive que tinha sido contratado por um casal de celebridades desejoso de saber - ilegalmente - quem era o pai do filho. "Larguei o apartamento onde morava e mudei-me para uma autocaravana para fugir daquela loucura", conta. Mas ao ler que Danielle estava magoada por os pais lhe terem escondido ser filha de um dador Jeffrey sentiu-se impelido a agir. "Em criança mentiram-me e nunca me recompus", justifica. Apresentou-se no site como Dador 150 e foram-lhe aparecendo "filhos".

Em Portugal o mesmo dador só pode dar origem a um máximo de oito gravidezes de termo; Jeffrey ficou a saber que permitiu pelo menos 14. Oito miúdos já se conheceram e mantêm um contacto regular entre eles. Têm todos mais de 18 anos, os mesmos olhos azuis e sobrancelhas grossas. E de vez em quando visitam Jeffrey na autocaravana que ele mantém parada num parque de estacionamento perto de Venice Beach.

O encontro de JoEllen e Jeffrey foi filmado com pinças por Jerry Rothwell. No documentário vemos a transformação de Jeffrey, de início aparentemente à vontade com o que se vai passar, depois nervosíssimo. Tenta disfarçar o caos na velha autocaravana onde vive com quatro cães, desconfia-se que fuma erva para ganhar coragem. E, no momento da chegada de JoEllen ao parque de estacionamento, é apanhado à procura de um pombo com uma asa partida que recolhera dias antes. "Não passo de um vagabundo de praia, o que vão pensar de mim?"

A coragem de Jeffrey seria recompensada com o passar do tempo. No último ano reencontrou parte da sua própria família ao pôr JoEllen em contacto com uma prima que fez uma árvore genealógica muito completa. Não tem com JoEllen e os seus meios- irmãos uma relação de pai e filhos mas ganhou laços para a vida. "Voltaria a fazer o mesmo", garante.

O documentário

Realizado por Jerry Rothwell, Donor Unknow, adventures in the sperm trade (2010) teve rodução de Hilary Durman que também produziu All About Me, um filme inspirado na história o Dador 150. Depois de o ver Jeffrey Harrison contactou-a, levando-a a avançar com o documentário que pode ser comprado na Amazon (€20, mais portes) ou em vimeo.com/ondemand/donorunknown (€3,80).

Artigo publicado na revista VISÃO nº 1061 

 

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