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Natal sem presentes

Sociedade

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Este ano, as festas ameaçam evitar o consumismo. Há menos dinheiro e mais solidariedade. Uma notícia amarga para as contas das lojas...

Está um dia cinzento, frio. Nas ruas do Chiado, uma das zonas mais comerciais de Lisboa, as pessoas circulam apressadas, as mãos cheias de sacos. As amigas Sara Catarino e Vera Castro, sentadas numa esplanada a conversar, observam o movimento. Falta uma semana para a Consoada e elas continuam com a árvore quase despida de embrulhos. Os rendimentos diminuíram, nas suas famílias, mas não foi essa a única razão que as levou a desacelerar nas compras. "Temos um grupo que se reúne sempre, a seguir ao Natal, para comer as sobras. Já só dávamos presentes às crianças, mas, agora, decidimos concentrar-nos no mais importante - estarmos juntos." Os filhos pequenos recebem algo simbólico. E encerram assim os gastos. Em anos anteriores, Sara e Vera ofereceram presentes a toda a família. Mas "não havia a falta de perspetiva que existe agora".

Estas amigas, na casa dos 30, estão bem retratadas num estudo do Observador Cetelem que analisou o comportamento dos consumidores em Portugal e registou que 80% pensa gastar menos em presentes do que em 2011 (ano em que todos os contribuintes sofreram um corte de 50% no subsídio de Natal). Agora, 21% dos inquiridos já não tem esse subsídio, e os que o recebem utilizam-no menos (63%, face a 82% em 2011). Quem ainda vai às compras não investe mais do que 126 euros - uma quebra de 35% em relação ao período homólogo.

A 15.ª edição do Xmas Survey, da consultora Delloite, também encontrou os portugueses pessimistas e com intenção de consumir menos, nesta época, avança o consultor Nuno Netto. "Embora ainda exista um enorme desejo de gozar as festividades natalícias, os consumidores estão a ser cuidadosos na forma como gastam o dinheiro. O preço é cada vez mais um atributo crítico, no processo de decisão de compra."

Dar e não dar

Carla Salsinha, da União de Associações do Comércio e Serviços, perspetiva uma quebra do consumo da ordem dos 40%, nesta quadra, porque a classe média - o motor que faz andar o País - está a desaparecer. "Mesmo os que ainda têm alguma capacidade se retraem", nota.

As lojas, já começaram as promoções. Há descontos em todo o lado. Nas montras, anunciam-se reduções até metade do preço. E é essa circunstância que ainda consegue estimular o consumidor. "Os saldos vão ser arrasadores, especialmente no setor da moda. Os empresários precisam de escoar a mercadoria", lembra Carla Salsinha.

Na alimentação, registam-se quebras inferiores à média, embora os produtos escolhidos para a ceia sejam os mais baratos. Nas restantes áreas, a perspetiva é o ano acabar com menos 10% de volume de negócio. As linhas brancas dos eletrodomésticos cairão 17%, a eletrónica de consumo descerá 13% e o entretenimento (livros, jogos e CD) 16 por cento.

"O Natal não chegará para equilibrar as perdas que se têm vindo a sentir, desde o final do ano passado", acredita Ana Isabel Morais, da Associação Portuguesa das Empresas de Distribuição, revelando profundas preocupações com a quebra de rendimentos em 2013 e o reposicionamento dos portugueses em face do consumo.

Na casa de Carla Braz, 35 anos, não há um único embrulho em redor da pequena árvore de Natal. E isso nada tem a ver com o facto de o seu filho ainda ser um bebé de colo. Este ano, a colaboradora da Zon decidiu pegar no dinheiro que gastaria com os presentes para a família e oferecê-lo a uma instituição. Perguntou à Fundação Ronald McDonald quais eram as necessidades mais prementes e com 400 euros comprará dois micro-ondas e turcos para as 24 crianças que a fundação alberga. Cada membro da família de Carla receberá um cartão a explicar o "presente" deste ano. No dia 24, juntam-se todos, mas só os mais pequenos vão estar ocupados a desembrulhar prendas. Para que a magia do Natal não se perca por completo... Os comerciantes agradecem.