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Meu nome é Tony Miranda

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Foto: Luís Barra

Como um aprendiz de alfaiate das Beiras fez a diferença em Paris. E hoje não desiste de talhar fatos de alta costura em Portugal

Desafia-se o mais empedernido dos citadinos a concentrar-se nalguma outra coisa quando há melros por perto a debicarem nos frutos de uma enorme amoreira de um jardim em Lisboa. Não sabemos se existiam árvores destas em Torrados no tempo em que António Miranda ali cresceu, último de cinco irmãos, filho de uma costureira e de um sapateiro que era bom a fazer botas. Mas melros havia com certeza na pequena aldeia beirã do concelho de Felgueiras, e se calhar tantos quantos os habitantes, recorda ele que nem duzentos nos anos cinquenta.

Quando não estava entretido a ver a mãe a coser, quando não se sentava nos seus joelhos enquanto ela se punha a fazer quilómetros na máquina de costura, António gostava de andar pelos campos. Hoje diz que a "obsessão pelos trapos" vem desde que nasceu mas foi preciso o padre da aldeia instalar um televisor no salão paroquial para acontecer a grande epifania da sua vida. Era a primeira vez que via televisão e logo nessa primeira vez havia de passar um desfile do francês Christian Dior. Chegou a casa e a mãe ouviu-lhe: "Tenho de ir a Paris para fazer aquilo que vi hoje."

Tinha quase 14 anos e sabia umas coisas de costura. Desde os 12 que trabalhava noites e fins de semana num alfaiate da terra e já fizera o seu primeiro fato completo para um noivo. Saiu a salto perto de Chaves como se usava na altura, com dinheiro emprestado pelo antigo patrão e por dois dos irmãos mais velhos. Fê-lo às escondidas porque o pai estava contra - queria-o sapateiro como ele e não era homem de aventuras.

Quase cinquenta anos depois é aos campos que António volta sempre que cria uma nova coleção de alta costura. Quando põe nos chariots os vestidos ("Todos vestíveis") que vai apresentar no próximo dia 26, no Hotel Ritz, em Lisboa, vê um jardim onde acaba por colocar alguma flor, nem que seja bordada. Só escapam os fatos smoking, uma linha que o acompanha sempre porque a sua formação principal foram os fatos de homem.

Tudo à mão

Se estiver bom tempo o desfile L'Art de la perfection será no jardim do hotel e terminará ao som de La vie en rose, cantada por Gilbert Bécaud. António vestiu-o muitas vezes quando trabalhou em Paris com o criador Ted Lapidus, entre as décadas de sessenta e setenta. A lista de famosos seria imensa porque ia lá quase toda a Paris, mais uns chefes de Estado africanos e muita realeza das Arábias. António tem os nomes dos clientes bem presentes, de alguns até recorda as medidas, exigências, pequenas manias.

Vinte e cinco anos depois de regressar a Portugal são alguns desses clientes que mantêm a laborar o seu ateliê em Guimarães.

  • Leia a reportagem na edição da VISÃO desta quinta-feira

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