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Maria e o lobo em pele de cordeiro

Sociedade

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O caso da atriz Maria Zamora, encontrada morta em casa, depois de meses de perseguições e ameaças de um ex-namorado, para recordar, num fim de semana em que se fala do novo hino APAV e se assinala o Dia da Mulher

"Olhem bem: este é o olhar da Maria Zamora. Pessoa maravilhosa, atriz talentosa, amiga extraordinária, transmontana de fibra, clown arco-íris, música de 7 instrumentos, melhor cantora do Maná-maná dos Marretas no mundo inteiro, dotada florista, pessoa duma imaginação e duma generosidade infinitas, corajosa lutadora contra todas as adversidades que a vida lhe pôs desde criança, vida dura, e foram muitas." A emocionada declaração pública é da cineasta Raquel Freire, num post que correu a internet, a meio da semana passada. A Operação Nariz Vermelho acabara de anunciar o adeus da Dra. Tutti Frutti, há cinco anos a espalhar sorrisos pelos hospitais do país. "Perdemos a nossa colega e querida amiga Maria Zamora. Faleceu de súbito aos 40 anos." Rapidamente surgiram em blogues, aqui e ali, indicações de que aquele 'de súbito' queria dizer 'suicídio'. Raquel Freire avançava: "Deve fazer-nos questionar a forma como a sociedade trata as mulheres quando elas são vítimas de violência." Sua amiga há anos, a cineasta haveria de acrescentar, via telefone, "não estar de todo convencida de que [a morte de Maria] tenha sido suicídio" e que era "impossível" não a relacionar com as ameaças e perseguições de que era vítima por parte de um ex-namorado.

O nome da atriz fora já anunciado no elenco de um novo espetáculo, ao lado de São José Lapa, chamado Das Guerras à Cultura do Medo. Mas seria de outra ordem o medo que apontara, no seu último post no Facebook, em letras capitais: "VIVA SEM MEDO" e depois numas letras pequeninas acrescentava "de ser verdadeiro". Uma hora antes, nesse mesmo dia 22, insuspeito domingo de fevereiro, também publicara: "Note to self: You are enough". Uma nota para si própria, lembrando que era suficiente. Na véspera, confidenciara ainda que estava em casa a fazer as malas para sair da cidade, porque não se sentia segura. Transmontana de fibra, estava num estado de fragilidade imensa, e medicada com tranquilizantes, para conseguir descansar. Tudo desde que, no final do verão, se separara de Vítor V., um burlão que primeiro a roubara e depois se revelou violento um vilão em vez de um príncipe.

"Mal o conheci mas cheguei a falar com ele numa apresentação pública da peça Violência ", confirma o dramaturgo Joaquim Paulo Nogueira, autor da peça protagonizada por Carlos Santos e Maria Zamora, no final de 2014, escrita a pedido da atriz, no qual se conta a vida de Alice e o seu regresso a casa para acompanhar as cerimónias fúnebres da mãe, que vira tantas vezes ser agredida pelo pai. À época, Maria Zamora justificava: "A solução para esse flagelo que é a violência doméstica está na ação e não na omissão." Ainda não imaginava o pesadelo que se havia de tornar a sua vida. As palavras são de Joaquim Paulo Nogueira: "Essa relação teve um desenlace terrível, com roubo, violência, agressões físicas, o que fragilizou muito a Maria e a impossibilitava de organizar novamente a sua vida."

Os primeiros sinais

De seu nome completo Maria Leopoldina Guerra Zamora, a atriz nasceu em Macedo de Cavaleiros em 1974 e mudou-se para Lisboa em 2004. Logo no ano seguinte, fez parte do elenco do filme O Crime do Padre Amaro. Apaixonada pelo teatro e por causas solidárias, começou a colaborar com a Operação Nariz Vermelho, em 2009, ao mesmo tempo que participava em novelas (Sol de Inverno, na SIC, ou Jardins Proibidos, na TVI, agora em exibição) e fazia cinema (o último filme foi Operação Outono, de Bruno de Almeida, sobre o assassinato do General Humberto Delgado).

No início de 2014, julgava ter encontrado o amor da sua vida, um homem forte, loiro, de olhos azuis e sardas, sempre muito generoso e cavalheiro até ao momento em que lhe disse que tinha um problema no seu apartamento e se instalou na casa dela, na Amadora.

Como sabia que a instabilidade da vida de atriz a preocupava, assegurou-lhe ainda que lhe arranjaria um trabalho certo, noutra área.

Mas a tal entrevista de emprego nunca chegou.

Ao mesmo tempo, começou a dizer-lhe que tinha de deixar de ser atriz, que "aquilo era para as p*", conta outra amiga. Os dois desaparecem do Facebook (e ela, também, do contacto com o resto do mundo). Até ao princípio do outono.

"Ele é um lobo vestido de cordeiro, mostrou-se muito trabalhador no verão mas enganou-nos a todos", conta Maria dos Anjos, mãe de Maria Zamora, a lembrar como o então namorado da filha conquistou "tudo e todos" na fábrica de granitos e floristas da família, em Macedo de Cavaleiros, no distrito de Bragança. "Até me diziam: 'Ó tia Maria, a Dina [de Leopoldina] teve sorte com este rapaz!'" Em lágrimas, lamenta: "Mal sabíamos que ele se preparava para dar o golpe". Depois de ganhar confiança, continua a mãe da atriz, "serviu-se à grande".

Na última vez que falaram, foi bem menos polido: "A senhora não me denuncie.", disse-lhe, em tom de ameaça.

Chegou outubro e Maria já andava, contam as amigas, de casa em casa, a esconder-se, depois dele a ter roubado e lhe ter batido, e a seguir, pedido desculpa, para de novo voltar ao mesmo, quase a estrangulando com um lenço, numa noite em que ela gritou tanto que os vizinhos chamaram a polícia. Foi quando soube que outras duas mulheres já se tinham queixado dele por violência doméstica. Passou a ter acompanhamento médico e também de um dispositivo GPS com botão de pânico, a acionar em caso de necessidade. Nada que, ainda assim, lhe devolvesse a tranquilidade. Para quem vivia de mostrar a cara, ter de se esconder era uma agressão que sentia infligir a si própria.

"Prometo-te que vou saber do processo contra a besta que te andou a fazer mal", garantia ainda Raquel Freire, no tal texto publicado após a morte da amiga. Pouco depois, a Procuradoria-Geral da República confirmava a existência de um processo pendente por violência doméstica e de um outro inquérito, agora aberto para apurar as circunstâncias da morte da atriz. Raquel é, ainda assim, uma amiga inconformada: "A tua morte não me parece real, minha mais que querida Maria. Quando voltar [a cineasta está fora do país em trabalho] vou ligar-te, vens lá a casa beber um chá e vamos conversar e rir das amarguras como só tu és capaz de o fazer. As verdadeiras palhaças riem mesmo quando choram, não é, Maria? ".