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Mais perto de descodificar a química da felicidade

Sociedade

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Lucília Monteiro

Assinala-se hoje o Dia Mundial da Felicidade, que este ano é precedido por um estudo: Para além da dopamina, existe uma biomolécula que pode alargar o nosso conhecimento sobre a química por detrás da felicidade, mas também dos vícios e até da raiva

A hipocretina, assim que chama a biomolécula, é um químico que atua nas mesmas áreas do cérebro que a dopamina, para acentuar sentimentos de prazer e recompensa, o que leva os especialistas a pensar que os dois agentes trabalham juntos. Desde 1998 que a hipocretina - também conhecida por orexina, porque dois grupos de investigadores descobriram a molécula simultaneamente - esteve sempre associada ao sono e ao apetite.

No ano de 2000, Jerome Siegel, professor de psiquiatria na Universidade da Califórnia, descobriu com a sua equipa que pessoas que sofrem de sonolência profunda durante o dia, e repentina perda de força nos músculos associada com narcolepsia, também apresentavam uma ausência de neurónios no cérebro que regulam a hipocretina.

Num estudo recente, publicado na revista Nature Communications, o grupo de Siegel agora reporta que os níveis da hipocretina-1 (existem dois tipos de químicos cerebrais) sobem em sintonia com emoções positivas, interacções sociais e a raiva. Siegel observou oito indivíduos que sofrem de epilepsia, e verificou que os níveis de hipocretina-1 subiam quando os pacientes viviam emoções felizes, mas também quando se enfureciam.

Investigações prévias já tinham associado a hipocretina com a narcolepsia. Pessoas que sofram de narcolepsia, a quem falta hipocretina, tendem a registar maiores taxas de depressão, que podem estar ligadas ao baixo nível do químico cerebral que está associado com o bom humor.

Um estudo mais aprofundado da hipocretina pode vir a iluminar a questão dos comportamentos aditivos. Os testes em animais revelaram que a hipocretina está associada ao desejo por experiências prazerosas, como tomar drogas e comer alimentos com alto teor de gordura. A investigação sugere que se os receptores de hipocretina forem bloqueados atenuam-se os transtornos de dependência e indica a possibilidade de os fármacos que bloqueiem hipocretina poderem contribuir para o tratamento do abuso de drogas. O "Suvorexant" (produzido pela farmacêutica Merck), originalmente concebido para tratar insónias, é o exemplo de fármaco que poderá ajudar no tratamento da toxicodependência.

Tanto a felicidade como a raiva são reguladas pela hipocretina, que ajuda a manter o controlo em momentos de emoção mais agudos. Com este estudo os neurocientistas confirmaram que as variações na felicidade humana não podiam ser explicadas por um único químico cerebral, especialmente a dopamina que é libertada apenas quando a pessoa está sob stress. A conjugação com a hipocretina deixa-nos mais perto de descodificar a química da felicidade.