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Há mais de 500 pessoas nos povoados da serra de Serpa que ainda vivem na penumbra. Para a maioria, a eletricidade só vai chegar no final de 2012. A questão está em acreditar nisso..

São apenas duas horas de caminho - pouco mais de 200 quilómetros, a partir de Lisboa -, mas mais parece que fizemos uma viagem no tempo. Ali, onde o alcatrão acaba e a estrada de terra começa, não fosse o ladrar dos cães e quase se ouvia o silêncio. Um luar pálido mal deixa ver aqueles montes salpicados de pontos mais claros, casas onde vivem uma, duas, três pessoas, rodeadas pelo montado e extensos olivais. Não há quaisquer outros néons, só as estrelas. Um postal ilustrado que apenas se desfaz dentro de portas. Onde, para novos e velhos, o bem mais desejado é feito de um conjunto de linhas e postes - a eletricidade. Há os que a esperam ansiosamente, os que só acreditam quando ligarem o interruptor, os que já nem se importam, porque sempre viveram assim.

Como D. Maria. O Sol escondeu-se e a senhora correu a aconchegar-se na mesa da braseira. A filha prepara-se para levar o jantar ao lume, o genro ainda não chegou. Na televisão, as notícias. Pela casa, veem-se fios atrás de fios, ligados a extensões que vêm do gerador, uma caixa cheia de gasóleo, instalada na rua. Só há uma luz acesa, no teto da entrada da casa - que é também a sala e a cozinha. Maria Teixeira Candeia tem 64 anos e já sabe que a eletricidade vai chegar ali em 2012, mas não quer conversas sobre isso, habituou-se aos dias assim. A filha, Maria do Carmo, 41 anos, compreende bem a mãe: "Em a vendo é que eu acredito." Em a vendo, à eletricidade, claro. Até lá, a rotina mantém-se: durante o dia, andam de volta dos animais. Quando o Sol se vai, por volta das seis da tarde, ligam o gerador - para espreitar as novidades na TV, ligar um ou outro candeeiro e uma varinha mágica para bater a sopa. Terminadas as lides, por volta das dez, desliga-se a máquina que lhes leva um cheirinho de energia elétrica - mas que pesa muito na carteira, ao fim do mês. Fogão e frigorífico, esses, são a gás. Mesmo assim, custam um dinheirão. "Uma botija já se faz pagar a 25 euros. No pino do verão, só o frigorífico gasta uma, em duas semanas", contabiliza Maria do Carmo. O homem da casa, Luís Pereira, 45 anos, chega, entretanto, e mostra o seu melhor sorriso. "Para nós, a eletrificação da serra de Serpa é um sonho. Poder ligar os eletrodomésticos normais numa casa..."

Não estão sozinhos - ali, na zona crítica alentejana, como foi apelidada há 20 anos, ainda resistem mais de 500 pessoas, espalhadas por três freguesias: Salvador, Vila Nova de São Bento e Vila Verde de Ficalho, um triângulo esquecido entre Serpa e a fronteira espanhola, a oriente, e Mértola, a sul. É também um local encravado entre uma mão-cheia de centrais de produção de energia solar. Mas, pela noite dentro, não há qualquer reflexo disso. A escuridão é cada vez maior.

Gente esquecida

Até há poucos meses, não se via por ali nem um bocadinho de cabo elétrico - ainda que sob a forma de obra em construção. Mas a reivindicação tinha anos. Levou a protestos e a manifestações, e deixou os agricultores desavindos com o seu Ministério. Foi nos inícios de 2000 que aquela gente pediu fundos comunitários para a obra. Os papéis deram entrada depois do prazo. Repetiram os passos, em 2004. Em 2008, outro "não" rotundo - não havia verba. A resposta sugeria ainda novas candidaturas, em 2012. Mas a notícia da devolução de dinheiro a Bruxelas, uns valentes 30 milhões de euros por gastar do Proder-Programa de Desenvolvimento Rural, não caiu em saco roto.

"Não era, claramente, uma questão orçamental", observa Sebastião Rodrigues, 35 anos, o presidente da Associação de Agricultores de Serpa. "Era falta de vontade política." Mesmo que, e as palavras são de Sebastião Rodrigues, fosse insustentável a existência de uma zona agrícola sem um único fio de eletricidade. "Caso único, em toda a Europa", assinala o representante daquela gente que, anos a fio, se sentiu esquecida. Até que a paz foi assinada, no verão de 2010 - papel passado pelo novo ministro, António Serrano, e a EDP -, traduzida num mapa cheio de pontos azuis e vermelhos, as 221 instalações de postes de eletricidade aprovadas. "Foi a união que fez a força", explica o presidente da autarquia de Serpa, José Rocha da Silva. "Em lugar dos pedidos individuais, desta vez o requerimento foi feito em grupo."

Numa primeira fase, empurrada por 5 milhões de euros, a eletricidade vai chegar a 52 explorações agrícolas (ainda este ano); na segunda, a 169 (em 2012). Mesmo assim, insiste o porta-voz dos agricultores, "a serra tem muito mais pessoas do que as abrangidas por esta eletrificação". Mais de 40 ficaram pelo caminho - já tinham perdido imenso tempo e dinheiro e, desta vez, nem se inscreveram. "Isso nunca há de ir para a frente", disseram-lhes. Na região, com a exposição solar mais extensa da Europa, e no distrito, Beja, com a maior potência fotovoltaica licenciada em Portugal, agarram-se aos geradores e aos candeeiros a petróleo, sem terem a certeza de algum dia haver festa, sem foguetes nem canas, só interruptores. De que lhes serve saber que as 19 - 19! - centrais ali à volta (ver infografia) produzem o suficiente para iluminar mais de 100 mil casas, se não lhes chega nada?

Uma outra estrada de terra leva-nos ao monte da Cruz da Cigana, freguesia de Salvador, onde vivem Jaime Braga e a mulher, Maria Antónia, ambos com 56 anos. "Somos nascidos e criados aqui", apresentam-se. Até há uns anos, só exploravam a carne das ovelhas; desde há três, conseguiram um subsídio para criar uma queijaria. Não há como não ter os geradores ligados o dia todo. "São 2 mil euros por mês em gasóleo - a sete litros por hora, faça as contas...", descreve Jaime. A energia transformada serve também a casa da família, apesar de, tanto o fogão como o frigorífico funcionarem, igualmente, a gás, e de a vida se fazer o mais possível ao ritmo da luz solar. E como o dia começa a clarear às seis da manhã, Jaime já está a pé, por essa hora, para a ordenha dos animais. Maria Antónia segue-lhe depois os passos, até às seis da tarde. Quando o Sol se recolhe, recolhem-se todos.

Em princípio, será por pouco tempo. Antigo presidente da associação local de agricultores, Jaime e a sua família vão estar entre os primeiros a ter eletricidade - após mais de dez anos de papelada para trás e para a frente. Maria Antónia deixa escapar que apenas acredita depois de ver. Só se lhe adivinha um bocadinho mais de esperança quando revela que já se rendeu à máquina da loiça.

Saberá, certamente, que os primeiros postes colocados já estão muito perto. As obras começaram em setembro - e, agora, são dois anos de trabalhos, até ao final de 2012. Três homens, um camião e uma grua erguem o tão desejado recém-elemento da paisagem. "Já instalámos 25 postes", contabiliza o responsável pela obra. "Mas temos mais de duas centenas para montar."

A viver da esperança

No monte da Penalva, na freguesia vizinha de Vila Nova de S. Bento, também se suspira pela eletricidade. "Estamos à espera que chegue", dizem Virgílio e Fábio Agostinho, 64 e 25 anos, pai e filho, o primeiro, agricultor, o segundo, mecânico de automóveis. E repetem: "A ver se vem o dia de ela chegar." Vista dali, a obra ainda se encontra longe - e isso explica que estejam bem menos crentes. "A primeira fase está aí, a ver se a segunda não fica a arder", duvida Fábio.

Até lá, os dias vão passando. Virgílio trata dos animais, 300 ovelhas e dois pares de porcos pretos; Fábio montou a oficina de carros no armazém anexo à casa. Só quando a noite cai se percebe bem o desalento de Virgílio Agostinho - e como promessas e contratos soam demasiado a palavras vãs. Entra em casa, procura a caixa de fósforos e acende o candeeiro a petróleo. É hora de dar um jeito à habitação - arruma-se à maneira do homem, que a mulher levou-a um enfarte, faz dois anos em abril - e Virgílio até se safa bem sozinho. Já tem sopa pronta, que uma prima lhe levou, e depois come mais qualquer coisinha. "Olhe, vou assar uma carne, aqui no lume", anuncia, enquanto destapa a lareira que tem na cozinha. "Basta pôr uma grelhazinha..." Quando é preciso ligar a máquina de lavar a roupa, recorre ao gerador. O resto do tempo, um simples candeeiro a petróleo serve para o alumiar. O filho fez outras contas e aventurou-se por um par de painéis solares. "Para ligar a televisão ou a batedeira, e um de cada vez, que só um gerador pequenino não alimenta mais do que duas lâmpadas."

"E a ver se os homens desta vez não enganam a gente...", insiste Virgílio, a lembrar-se de que, há uns quantos anos, fez-se um levantamento para uma suposta candidatura que nunca chegou a ir para a frente, mas levou-lhe, ainda no tempo dos escudos, mais de 200 contos. "Agora, só tenho de pagar a baixada", nome dos cem a 600 euros que vai desembolsar para estender mais um cabo que lhe traga, até casa, a eletricidade do poste mais próximo.

Nada que abale o otimismo que se sente na casa de Luís Pereira, do outro lado do monte. O jantar está quase pronto, Maria do Carmo põe a mesa, a sogra continua a seguir as notícias na TV. Já todos deram muitas horas da sua vida para trazerem a eletricidade. "Claro que vivemos aqui por opção, também podíamos ter saído, não haver energia traz custos enormes", diz Luís Pereira. "Só com muita carolice é que se consegue trabalhar sem energia elétrica."

Até dezembro de 2012, contam-se os dias. "Parece que, ao fim deste tempo todo, está a encaminhar-se", arrisca o agricultor. "E nós temos de acreditar."