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Dieta dos dois dias nas bocas do mundo

Sociedade

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É a dieta mais popular do momento - e ameaça tornar-se uma das mais controversas, ao propor que dois dias de restrições bastam para que, depois, durante cinco dias por semana, possamos comer tudo o que quisermos (sim, doces incluídos).CONHEÇA OS PRÓS E CONTRAS E ALGUNS MENUS

Ciclicamente, surge um livro de dietas assim, que voa das prateleiras como pãezinhos quentes. As promessas nem sequer precisam de ser novas: emagrecer, sem muitos sacrifícios, e depressa. A receita continua a funcionar, talvez por conter tudo o que as mulheres querem ouvir. Contudo, esta Dieta dos 2 dias (Ed. Lua de Papel, 214 pág., €14,90), que acaba de chegar às livrarias portuguesas, tem alguns ingredientes originais: a começar por contestar a ideia de que devemos comer muitas vezes ao dia. "Alguns estudos sugerem que a ingestão regular de pequenas refeições é vantajosa para a saúde, desde que não acabemos a comer mais. Infelizmente, no mundo real é exatamente isso que acontece", defende o britânico Michael Mosley, que se formou em Medicina mas fez a sua carreira como produtor e apresentador de documentários da BBC, nas áreas da saúde e da ciência.

Em média, quem petisca ao longo do dia come mais 300 calorias do que o recomendável, o que pode ser suficiente para arruinar qualquer tentativa de emagrecimento. O que propõe, então, Mosley? Exatamente o contrário: que fiquemos muitas horas sem comer.

O elogio do jejum

Ainda está aí? Só a ideia de poder passar fome basta para assustar quem pondera aventurar-se numa (ou em mais uma...) dieta. Esse é, talvez, o principal motivo de desmotivação para quem tem excesso de peso mas continua a comer como se não houvesse amanhã. Era precisamente a situação do autor, no início de 2012: aos 55 anos, pesava 85 quilos (com um índice de massa corporal de 26, ligeiramente acima do saudável), tinha o colesterol elevado e era pré-diabético. Em teoria, queria ser mais saudável e perder a barriga; na prática, não estava disposto a grandes sacrifícios para o conseguir. Foi então que o desafiaram a tornar-se cobaia de um documentário da série Horizon, da BBC, para explorar a ciência subjacente ao prolongamento da vida.

Nas últimas décadas, os estudos mais promissores indicam todos o mesmo caminho: praticar uma dieta muito restritiva a nível calórico, fazendo jejuns de forma regular. "Ainda não se sabe ao certo porque é que isto acontece, mas o argumento evolucionista parece ser o seguinte: enquanto temos comida abundante, os nossos corpos estão acima de tudo interessados em crescer, em fazer sexo e em reproduzir-se", nota Mosley. Quando decidimos jejuar, "a reação inicial é de choque. O cérebro recebe sinais a lembrar que estamos com fome, incitando-nos a procurar alguma coisa para comer. Mas nós resistimos. E, numa situação de fome, não vale a pena despender energia em crescimento ou sexo. Em vez disso, a coisa mais sensata que o corpo pode fazer é gastar a sua preciosa energia em reparações, levando-se a si mesmo para o equivalente celular de uma oficina e mantendo-se numa forma razoável até os bons tempos regressarem".

O jejum promove assim o estado geral de saúde e, consequentemente, a longevidade. De caminho, perdem-se os quilos excessivos, que, além de inestéticos, carregam consigo a culpa de algumas das mais mortíferas doenças do mundo ocidental.

Corpo e mente

O problema, como bem nota o médico logo no início do livro, é que a maioria dos comuns mortais não tem a força suficiente para se manter num regime tão ditatorial, passando fome o resto da sua (com alguma sorte) longa vida... Mosley ficou por isso entusiasmado quando descobriu que os mesmos resultados estavam a ser alcançados em ensaios clínicos testando o jejum em dias alternados. De qualquer forma, não comer dia sim, dia não, ainda não soava bem. Mas havia esperança: um estudo com ratinhos em que dois dias de abstinência pareciam bastar para compensar os excessos do resto da semana. Estava decidido: essa seria a experiência que estava disposto a filmar para a BBC, como cobaia.

O documentário Eat, fast, live longer (Coma, jejue, viva mais) foi transmitido durante os Jogos Olímpicos de Londres, em agosto de 2012, e, apesar da concorrência de peso, bateu recordes de audiências, sendo visto por 3 milhões de espectadores. Os britânicos ficaram fascinados com a ideia de fazer os chamados "sacrifícios" de uma dieta apenas duas vezes por semana, tendo depois liberdade para comer "normalmente" - pizzas, bolos e gelados incluídos. Até porque os dois dias de jejum preveem, na verdade, duas refeições: o pequeno-almoço e o jantar, que devem ser leves, totalizando um total de 500 calorias, no caso das mulheres, e 600 calorias, no caso dos homens (ver Menu). Nos dias de liberdade, a população estudada acabou por não comer de forma desregrada. E o médico, apesar de salientar que a perda de peso se mantém, lembra que os benefícios para a saúde são maiores quando se reduz o consumo de açúcares e gorduras.

A partir daí, gerou-se um efeito bola de neve: Mosley escreveu um artigo para o Telegraph (já lido no site do jornal por mais de um milhão de pessoas) e, no final do ano passado, a jornalista de moda Mimi Spencer, muito influente nos media britânicos, publicou um relato da sua própria batalha contra o peso - vencida, finalmente, aos 45 anos, graças à dieta dos 2 dias. "Perdi 10 quilos e sinto-me fabulosa", anunciava. Foi então que teve a ideia de propor a Michael Mosley uma parceria, para a publicação de um livro que explicasse em detalhe os fundamentos do regime e as formas de ultrapassar o calvário dos jejuns.

Publicado no início deste ano em Inglaterra, chegou na primavera aos EUA e, agora, estende a sua influência pelo resto da Europa - Portugal incluído, onde chega com um post-it fluorescente colado na capa, anunciando ser "o livro de dietas mais vendido em todo o mundo".

Se será uma moda passageira ou uma tendência alimentar para ficar, só o tempo o dirá. Mas não podemos ignorar que, por mais que o nosso organismo esteja geneticamente preparado para lidar com períodos de fome, do ponto de vista emocional a história é muito diferente. Como canta Leonard Cohen, os seres humanos "andam sempre à procura de coisas para fazer entre as refeições".

Prós & Contras

  • PRÓS - Nuno Borges, diretor da Associação Portuguesa de Nutricionistas - "O jejum alternado tem mostrado resultados muito promissores, perde-se mesmo peso. E não comer durante 12, 24 ou 36 horas não é prejudicial para a maioria das pessoas, pelo contrário. Só desaconselharia esta dieta a diabéticos. De resto, sabemos que mesmo uma redução de 3 ou 4 kg já tem impactos muito positivos na saúde."
  • CONTRAS - Daniela Seabra, nutricionista - "Não podemos enfiar o mesmo chapéu em todas as cabeças. Se eu, Daniela, estiver sem comer 4 ou 5 horas, fico ansiosa, irritada, nem consigo trabalhar. Os estudos têm resultados ótimos em ratinhos mas o ser humano não é só fisiologia: a parte emocional é crucial em qualquer dieta. Quem quiser perder peso tem de deixar de comer lixo, fazer exercício e beber água. O resto é conversa."

 

 

MENU O que se pode comer nos 2 dias de dieta*

DIA 1 - 2.ª feira

8h, pequeno-almoço: Papas de aveia com mirtilos frescos (190 calorias)

20h, jantar

Frango salteado com legumes e uma tangerina (306 calorias)

Total de calorias: 496

DIA 2 - 5.ª feira

8h, pequeno-almoço: Maçã fatiada, manga e um ovo cozido (223 calorias)

20h, jantar

Salada de atum, feijão e alho. Molho: alho esmagado, raspa e sumo de limão e vinagre de vinho branco (267 calorias)

Total de calorias: 490

*Entre as refeições devem manter-se 12 h de jejum. Pode beber-se água, chá e café. Em SOS, comer pedaços de maçã ou morangos