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Da Tailândia, com suor

Sociedade

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Os campos agrícolas da costa alentejana estão a ser invadidos por centenas de trabalhadores tailandeses - trabalham de sol a sol e ainda imploram horas extraordinárias

Ricardo Fonseca (Texto) e Gonçalo Rosa da Silva (Fotos)

A imagem parece o retrato típico de uma pausa para almoço, numa empresa agrícola do Alentejo: seis homens, sentados em círculo, à sombra de um pinheiro, vão passando de mão em mão alguns tupperwares cheios de comida. Os funcionários de uma empresa que produz plantas ornamentais, situada na zona de São Teotónio, concelho de Odemira, dispensaram as cadeiras - uns preferem estar de cócoras, outros sentados na terra, de frente para a planície. Só já a poucos metros de distância é possível perceber que se trata de trabalhadores asiáticos, denunciados pela fisionomia esguia e pela quantidade de arroz branco e consistente que levam à boca. Todos eles sorriem para a máquina fotográfica, depois de envolverem pedaços de carne de galinha numa mistura avermelhada, guardada dentro de um pequeno recipiente. O picante de fabrico caseiro alegra-lhes o dia.

A poucos metros dali, no interior de um pavilhão, Niran Wichaikhot, 31 anos, e Phikun Wichaikhot, 28, pegam no telemóvel para mostrar as fotografias do filho, com 8 anos, que ficou entregue aos cuidados da avó materna. "Ligo-lhe todas as semanas, um dia ele vai perceber porque estamos tão longe", diz Phikun, a mãe. O jovem casal chegou a Portugal a 16 de Outubro do ano passado, depois de vencer as quase 13 horas de voo que separam Banguecoque de Lisboa. Para trás, a milhares de quilómetros de distância, ficou a antiga vida de Niran, como motorista de camiões de mercadorias, profissão que lhe rendia cem euros por mês. Esse era, aliás, o único rendimento da família, pois a mulher estava desempregada. Agora, o casal consegue poupar cerca de 500 euros mensais - o dinheiro é enviado por transferência bancária para a Tailândia.

Quando regressarem ao país, Niran e Phikun esperam ter condições para criar um segundo filho. Esse objectivo ocupa-lhes o pensamento, libertando a mente da actividade rotineira a que se dedicam diariamente: tratar e agrupar milhares de ramos de folhas de eucalipto, que mais tarde serão exportados para vários países europeus.

Estes, e muitos outros produtos criados nos campos da costa alentejana, quase que poderiam estar identificados com uma etiqueta "Made in Thailand". Esta região do País foi recentemente "invadida" por mais de 300 trabalhadores tailandeses - há três anos eram apenas seis - dispostos a ganhar dinheiro na apanha do tomate, na vindima ou na silvicultura. "São mais baratos, trabalham melhor e não criam problemas", refere um empregador local, que prefere não revelar a sua identidade.

A visita do embaixador

Depois de ler, no jornal Público, que alguns dos seus compatriotas poderiam estar a ser alvo de exploração laboral, o embaixador da Tailândia em Portugal deslocou-se, na quinta-feira, 20, ao litoral alentejano, para verificar o que se passava. Kasivat Paruggamanont esteve em quatro propriedades agrícolas e em algumas das casas onde os imigrantes pernoitam. Fê-lo acompanhado por funcionários da Dfrm Internacional, a principal empresa de recrutamento de trabalhadores tailandeses, propriedade de um empresário israelita.

Pramuan Kongthaisong, 39 anos, nunca tinha visto um BMW cinzento parado à porta da casa que habita. O operário tailandês, que chegou a Portugal há dez meses, estava visivelmente deliciado com a situação, e alinhou, rapidamente, com os oito colegas, ao longo da parede das duas habitações térreas. Após algumas vénias à pequena comitiva diplomática, fez questão de mostrar a habitação que lhe foi disponibilizada pelo patrão. A porta de entrada abre para uma cozinha, que tem uma pequena mesa de refeições ao centro. Aquela divisão serve também de sala - é ali que Pramuan e os colegas vêm os DVD que trouxeram da Tailândia e os quatro canais portugueses. O programa Salve-se quem puder, baseado num conceito japonês e transmitido pela SIC, é dos poucos que consegue arrancar gargalhadas aos quatro inquilinos daquele T2.

Junto do fogão, e de uma prateleira cheia de panelas e tachos, estão arrumadas dezenas de embalagens de produtos portugueses. Café, chocolate em pó para o leite, bolachas e vários pacotes de arroz. "Somos quatro homens e todos cozinham", brinca Pramuan, enquanto mostra o quarto que partilha com outro imigrante. Em cima da mesa-de-cabeceira improvisada vêem-se rascunhos de cartas para a família. "As condições são melhores do que em Israel, onde também já estive a trabalhar", compara.

'Só nos entendemos por gestos'

A qualidade do alojamento destes trabalhadores é uma das principais preocupações das autoridades que acompanham o fenómeno da imigração asiática. Tanto os inspectores do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras como os da Autoridade para as Condições de Trabalho investigam possíveis abusos por parte de empregadores.

A Dfrm, empresa que faz a ponte entre os imigrantes e os patrões, também já foi obrigada a reagir. "Registámos um episódio de um empregador que pretendia alojar os trabalhadores numa casa com um tecto cheio de buracos, que deixava entrar água", conta a gerente Rute Santos Silva. "É claro que recusámos de imediato o contrato", assegura, explicando que todas as empresas estão obrigadas a disponibilizar alojamento digno, e que essas casas são "constantemente verificadas por funcionários da Dfrm." Nenhum dos trabalhadores contactados pela VISÃO apresentou queixas sobre este aspecto.

A ida às compras é uma das poucas alturas em que estes imigrantes se misturam com as populações locais. "Não sabemos português, nem inglês, por isso só nos entendemos por gestos", conta Khamphu Buayai, 40 anos, natural da província de Ubon Rtchathani, pouco depois de ajeitar uma peça de roupa no estendal. Aos fins-de-semama, relata, é habitual darem umas pedaladas ao longo das dezenas de estradas de terra batida que contornam as plantações agrícolas. "As pessoas já não estranham a nossa presença."

O imigrante profissional

O embaixador Kasivat Paruggamanont acredita que o número de imigrantes vai continuar a aumentar, nos próximos meses. "Em Israel, já lá estão mais de 35 mil. Há poucos trabalhadores tão disciplinados como os tailandeses", assegura, enquanto percorre uma ínfima parte dos 44 hectares de estufas para fetos ornamentais, propriedade de uma empresa portuguesa. O diplomata pergunta, insistentemente, se está tudo bem. Pede aos empregados para reportarem qualquer situação de abuso. As autoridades têm consciência de que os asiáticos são mais tolerantes perante episódios de exploração laboral. "Alguns patrões mal intencionados sabem que eles raramente se queixam", explica uma fonte policial.

Somchai Kaewlunan é um dos funcionários mais velhos que se movem entre as ramagens verdes. Aos 41 anos, transformou-se num imigrante profissional, há quase duas décadas que trabalha fora do seu país. Já esteve em Singapura, Taiwan, Finlândia e Israel. Portugal é, provavelmente, o último destino, antes de regressar definitivamente à Tailândia. "Tenho duas filhas, quero vê-las crescer", justifica.

Parte do dinheiro que ganhou - actualmente recebe 479 euros mensais - foi investido nos estudos da sua filha mais velha, já com 20 anos, que está a cursar enfermagem. Questionado sobre o motivo pelo qual aceita trabalhar por tão pouco dinheiro, Somchai responde que aquela quantia já lhe permite constituir uma boa poupança. "Vou conseguir construir uma casa para a minha família. Para mim, isso é muito importante." Nos últimos 18 anos, conta-se pelos dedos das mãos, o número de vezes que foi visitar a mulher e as filhas. "Sinto muito a falta delas, mas sei que, se tivesse ficado lá, estávamos numa situação de pobreza", diz Somchai, que antes de sair do seu país trabalhava nas plantações de arroz, na província de Nakhon Ratchasina.

A popularidade destes trabalhadores já chegou a outras regiões de Portugal. Em Torres Vedras, Leiria e Montijo, também já existem imigrantes tailandeses, ainda que em menor número. Chanettee Khukhan, assistente do embaixador, informa que, além destas pessoas, apenas há registo de mais 50 cidadãos tailandeses a viver entre nós. "São estudantes, senhoras que casaram com portugueses, cozinheiros, massagistas, um professor e uma enfermeira."

Viver para trabalhar

Os trabalhadores tailandeses, ao contrário do que acontece com as comunidades de imigrantes brasileiros ou do Leste da Europa, não pretendem trazer a família para Portugal, nem tão-pouco adquirir o visto de residência. Querem juntar o máximo de dinheiro possível e regressar à terra natal. "Nota-se que estão plenamente focados naquilo que fazem", verifica um empresário alentejano. "Não bebem, não chegam atrasados, não estão constantemente a pedir para fazer um intervalo por tudo e por nada..."

Panom Shampron, 38 anos, confirma a teoria, ao dizer à VISÃO que lamenta não poder laborar até mais tarde. "Há dias em que só trabalho oito horas", diz, desanimado. "Os melhores meses são aqueles em que consigo receber horas extraordinárias."

O imigrante, natural da província de Khon Kaen, já conseguiu enviar milhares de euros para casa, uma ajuda preciosa para a mulher e o filho de 9 anos. Panom só gasta dinheiro em comida - a roupa é reutilizada até se rasgar - e nos telefonemas para a família. Os únicos passeios que dá são para visitar amigos, em plantações vizinhas. Ir à praia? "Nem pensar! Tinha de pagar o transporte [está a cerca de cinco quilómetros do mar] e isso é muito caro." Como se cada cêntimo gasto o afastasse ainda mais da família.