Cristiano Ronaldo: "O Benfica será um justo campeão"
29.04.2010 às 0h01
A VISÃO falou com o craque, em Madrid, sobre a participação da selecção no Mundial 2010, a época do Real Madrid e a Liga portuguesa. VEJA AS FOTOS E OIÇA O QUE DIZ CRISTIANO RONALDO
Numa altura em que Portugal ascendeu ao terceiro lugar do ranking da FIFA (melhor posição de sempre), Cristiano Ronaldo deixa a receita para o sucesso da selecção no mundial. Uma conversa com a VISÃO, tida em Madrid, durante a apresentação do novo equipamento nacional, em que o craque considerou o Benfica como a "melhor equipa portuguesa da actualidade"
Estamos em vésperas de um mundial e fazendo a pergunta ao contrário, o que é que Portugal não pode fazer para ter sucesso?
Não pode cometer erros infantis, não pode deixar de lutar e de acreditar. Temos de ter um pensamento positivo e acreditar que tudo é possível. A primeira fase vai ser complicada, mas a partir daí tudo pode acontecer...
Que erros infantis são esses?
É fácil, todos sabemos que uma equipa só funciona quando os jogadores conhecem a sua função dentro do campo. Não se pode esperar que um defesa saia a driblar. Cada um tem de fazer o que o treinador pede, de acordo com as características de cada jogador e de modo a aproveitá-las da melhor forma.
O que representa esta presença no mundial?
Uma oportunidade de ouro para todos nós, especialmente depois do que passámos na fase de qualificação. Houve alturas em que equacionámos poder falhar o mundial, pelo menos a mim passou-me isso pela cabeça. Mas conseguimos a qualificação e agora só queremos dar uma resposta positiva. Vamos ter bastantes dias no estágio para trabalhar juntos, se calhar demasiados (risos), e isso é importante para o espírito de grupo e para o treinador conhecer melhor os jogadores e criar uma base de jogo.
Apesar do mau início, os últimos jogos da qualificação e o próprio Play-off com a Bósnia já mostraram uma selecção mais próxima do que nos habituou. Essa evolução é para manter no mundial?
Espero bem que sim. Por vezes, quando há muitas mudanças de jogadores a equipa não rende logo o máximo. Na minha opinião foi isso que aconteceu com Portugal. Isso sentiu-se no início...
Já participou em europeus e mundiais, foi eleito o melhor jogador do mundo, joga num dos maiores clubes do mundo. O que é que sente hoje ao jogar um campeonato do mundo, comparando, por exemplo, com a sua estreia numa grande competição, o Euro 2004?
É sempre especial, quase como se fosse a primeira vez. É óbvio que é diferente, mas não deixa de ser especial. Para mim é um orgulho e uma grande motivação estar novamente num mundial. Claro que a minha experiência é hoje muito maior que em 2004, o que é positivo pois muitas vezes as grandes competições definem-se em pequenos detalhes.
Este grupo é comparável com o de 2004 e 2006, que chegou à final do europeu e às meias-finais do mundial?
É diferente. O grupo de 2004 era mais experiente, com jogadores mais velhos e com maior currículo que aqueles que temos actualmente, mas em termos de qualidade é muito parecido. É complicado comparar um grupo com o outro. A actual equipa é muito jovem e já demonstrou que, muitas vezes, a juventude corre mais que os jogadores experientes. De qualquer forma penso que uma boa equipa se faz sempre da mistura de juventude com experiência. Acho que Portugal tem um pouco isso...
Chegar à África do Sul como campeão espanhol seria uma motivação acrescida. Ainda acredita que o Real Madrid pode chegar ao título?
Claro. Ainda faltam 4 jogos e acho que ainda pode haver surpresas. O Barcelona vai ter alguns jogos difíceis e espero que percam alguns pontos, enquanto nós temos de ganhar todos os jogos. Pessoalmente, ainda tenho esperança de ser campeão.
Como analisa a sua primeira época no Real Madrid?
Estou muito feliz. Se me garantissem que na próxima época fazia os mesmos golos que fiz esta época aceitava já. Creio que tenho ajudado muito a equipa a ganhar jogos. Foi pena a eliminação da Liga dos Campeões, mas resta-nos a Liga e um jogador do Real Madrid tem de acreditar sempre até ao fim que é possível...
Se não fosse a lesão, contra o Marselha, acredita que esta poderia ter sido a sua melhor época de sempre?
Talvez. Estava a atravessar um período muito bom e essa lesão fez-me perder 12 jogos. Mas vida de um jogador é mesmo assim. Mas recuperei bem e continuei a ajudar a equipa, que é o mais importante. Se calhar esse período de paragem até foi positivo, pois pode permitir-me estar melhor no mundial.
Mesmo assim, de todas as estrelas contratadas este ano pelo Real Madrid, foi o que mais rendeu...
Por vezes não é fácil para um jogador mudar. Por exemplo o Kaká veio de um longo período de paragem, devido a lesão e o Benzema de uma liga muito diferente. No meu caso consegui ter uma adaptação mais fácil, mas não podemos dizer que as outras contratações foram falhadas. Acredito que tanto um, como o outro vão provar o seu valor no Real Madrid. Pelo que conheço e vejo todos os dias nos treinos, não tenho dúvidas que vão brilhar.
Estamos em vésperas do FC Porto-Benfica, que pode decidir a liga portuguesa e há alguns receios por parte das autoridades devido a conflitos recentes entre adeptos das duas equipas. Com a sua experiência de grandes clássicos, tanto em Inglaterra como em Espanha, como analisa este fenómeno?
O que as pessoas fazem cá fora influencia sempre os jogadores. Já jogo futebol há muitos anos e não consigo entender esse tipo de situações. Deve haver respeito entre os adeptos e em Portugal isso não tem acontecido ultimamente. O futebol é um desporto para toda a família e é assim que tem de ser desfrutado. Há que saber respeitar os adversários.
O que sente um jogador num jogo destes, em que o conjunto rival pode ser campeão na sua própria casa e vice-versa?
Isso faz parte do futebol. Se o Benfica ganhar é porque merece. Os jogadores do Porto são muito experientes e têm de encarar isso como algo normal. Lembro-me que há 4 anos, quando jogava em Inglaterra, o Chelsea foi campeão e a equipa do Manchester fez questão de aplaudir o adversário quando eles entraram no nosso estádio. Isso é normal no futebol. Temos de dar o braço a torcer, quem ganha o campeonato é porque o merece. Só temos de aplaudir e respeitar.
Como analisa o campeonato português?
Temos de ser justos e honestos e reconhecer que, neste momento, a equipa mais forte do campeonato português é o Benfica. É a equipa que pratica um futebol mais atractivo. Foi a melhor equipa e vai ser um justo vencedor do campeonato.
Falou há pouco do modo como as reacções do público influenciam os jogadores, a verdade é que este ano não parece haver tanta euforia com a selecção. Como é que os jogadores sentem isso?
O apoio do público é muito importante. Lembro-me do recente jogo de preparação com a China, em Coimbra, que passamos a segunda parte toda a ser assobiados. Isso condiciona qualquer jogador, mesmo os mais experientes, nem que seja por ver que isso mexe com os companheiros de equipa mais novos. Os jogadores nunca entram em campo para jogar mal, mas acontece. Às vezes são os jogadores a puxar pelo público, outras tem de ser ao contrário. Lembro-me muitas vezes do Alex Ferguson pedir isso aos adeptos do Manchester. O público tem o direito de se manifestar como entender, mas em vez de gastar energias a assobiar, pode fazê-lo a aplaudir, garanto que o efeito vai ser muito melhor...
Equipamento amigo do ambiente
Cristiano Ronaldo foi a estrela escolhido pela Nike para apresentar o equipamento que a selecção nacional vai usar no Mundial da África do Sul. O novo uniforme é inspirado no mítico equipamento dos Magriços que, em 1966, atingiram o terceiro lugar no Mundial de Inglaterra, com meias verdes, calções brancos e camisola vermelha com uma lista horizontal verde a meio do peito. Quanto aos materiais, a grande novidade é a camisola, feita de poliéster reciclado proveniente de oito garrafas de água de plástico.