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Crianças ansiosas com demora na entrega do Magalhães

Sociedade

A demora na chegada do Magalhães às escolas está a criar ansiedade, angústia e alguma "cobiça" nas crianças, que não compreendem por que é que o colega do lado recebeu antes o famoso computador portátil, alertam pais e professores

visao.pt

Dos 354 mil alunos inscritos para receberem o Magalhães através do programa e-escolinhas, apenas 200 mil têm o portátil até agora.

"Há uma grande insensibilidade da parte dos operadores na percepção do que são crianças a receber um bem como o Magalhães, que lhes aguçou o apetite e é gerador de ansiedade", disse à Lusa o presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap), Albino Almeida.

Para evitar o "ciúme" entre as crianças, muitas escolas optaram por não trabalhar com os computadores até todos os meninos terem o Magalhães, enquanto outras optaram por trabalhos de grupo para os alunos irem aprendendo informática.

Todos os dias, Catarina, de seis anos, faz a mesma pergunta à mãe: "Quando chega o Magalhães?". A resposta nem sempre é fácil.

"Como mãe sinto-me indignada, porque nem sequer me dão uma explicação", disse à Lusa a mãe desta menina, que estuda em Algés e espera pelo computador desde o início do ano lectivo.

Para "matar" a ansiedade de Catarina, Ana Rita deixa-a utilizar o seu computador, mas com "algumas reservas".

Mais sorte teve Duarte, que recebeu o computador na passada semana. "Estive muito tempo à espera", confessou à Lusa este aluno do 1º ano do Agrupamento de Escolas Miguel Torga, na Amadora.

Duarte contou que alguns dos seus colegas receberam o Magalhães primeiro: "Na altura fiquei triste, porque eles já tinham computador e o meu nunca mais vinha".

O director do agrupamento de Escolas Miguel Torga, João Pereira, disse à Lusa que uma "parte dos alunos" já recebeu o Magalhães e que os professores vão agora ter de elaborar um plano de utilização para quando houver "condições de funcionamento".

Já numa escola de Leiria, alguns professores optaram pelos trabalhos em grupo para contornar a situação. "Os alunos estão muito ansiosos, muito angustiados na expectativa de serem eles a receber o computador", disse à Lusa um professor de Leiria, contando que houve crianças que choraram quando viram os colegas a receber o Magalhães.

Mas há outras crianças que até já se esqueceram do pequeno computador. "O meu filho já nem se lembra disso", assegurou Elizabete Vieira, mãe de Afonso, que frequenta a escola Alice Vieira, do Agrupamento de escolas Santa Maria dos Olivais, em Lisboa.

"Acho um bocadinho aborrecida esta demora porque se cria expectativas nas crianças e depois demoram muito as entregas", afirmou, salientando que "o ano lectivo já vai a meio e nada de computador".

Albino Almeida afirma existir uma grande preocupação da parte das escolas e dos professores "para evitar constrangimentos aos alunos". "Seria completamente inaceitável que numa sala de aula pudessem estar alunos a trabalhar com o Magalhães e outros não", sublinha.

Entretanto, a empresa que produz o computador, JP Sá Couto, anunciou que até finais de Março serão entregues os restantes portáteis às escolas.

Sobre a promessa dos computadores serem entregues até final de Março, Albino Almeida, disse que se "corresponder à verdade, as escolas terão o último período para se preparem para o próximo ano lectivo, definindo a metodologia e as estratégias" a adoptar sobre a utilização do Magalhães.

É que face aos "atrasos nas entregas e à forma como estão a decorrer", este ano lectivo será apenas para preparar "a utilização do Magalhães de forma cabal no próximo ano lectivo", considera a Confap.

A 23 de Setembro último, o Executivo estimava entregar até ao final do ano um total de 500 mil Magalhães. A 29 de Dezembro, fonte do ministério das Obras Públicas reconheceu à Lusa que houve alguns atrasos, mas assegurou que as entregas tinham entrado já em "velocidade de cruzeiro".

Em Janeiro passado, o Governo abriu as inscrições para os alunos do ensino particular e cooperativo que pretendam ter um computador Magalhães, "um universo que pode abranger mais de 50 mil crianças".

A iniciativa e-escolinha consiste na disponibilização aos alunos do primeiro ciclo do ensino básico (1º, 2º, 3º e 4º ano) de um computador portátil por um custo que varia entre os zero e os 50 euros, durante o ano lectivo de 2008/2009, havendo ainda a possibilidade de acesso à Internet.