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Comentário: Nos ombros dos gigantes

Sociedade

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O Nobel da Medicina premeia a investigação fundamental. Porque a Ciência se faz passo a passo e as grandes descobertas não caem de paraquedas

Dos seres mais simples, como as leveduras, aos mais complexos, como o Homem, todos os organismos precisam de transportar substâncias de um lado para o outro, dentro da célula ou de uma célula para a outra. O processo é tudo menos corriqueiro e os três vencedores com o prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina deste ano dedicaram a vida a tentar descortinar os meandros do tráfego intracelular. Randy Schekman estudou por que razão, em algumas situações patológicas, as proteínas se amontoam em vez de fluírem como deviam, James Rothman percebeu como é que as pequenas bolsas que transportam o material, as vesículas, se agarram às membranas celulares, Thomas Suedholf, com quem o atual presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, Miguel Seabra, trabalhou na Universidade do Texas, pesquisou a libertação do material no destino. "É uma área da Medicina que há muito se previa deveria ser premiada. Rothman e Schekman foram pioneiros usando a bioquímica e a genética como ferramentas, seguidos por Suedhof que aplicou os resultados em neurociência criando e estudando modelos de animais em ratinho", comentou Miguel Seabra, a partir do Japão, onde se encontrava em missão. 

Além de reconhecer o trabalho dos três cientistas, que trabalham em universidades americanas, o comité Nobel dá um sinal aos decisores políticos e gestores de ciência, ao premiar uma investigação essencialmente fundamental. Uma distinção para a Biologia Molecular que pretende esclarecer como funcionam as células, quais são os processos envolvidos na complexa maquinaria que é a base da vida. Daqui poderá sair a cura para a Diabetes, que resulta de uma falha no transporte da insulina, ou da Doença de Alzheimer, que poderá estar associada à acumulação irregular de substâncias. Mas não era esta a preocupação dos cientistas quando puseram mãos à obra. Era pura e simplesmente perceber os fenómenos que põem os organismos vivos a funcionar.   

Cláudia Almeida, investigadora do CEDOC (Centro de Investigação para as Doenças Crónicas), ficou feliz quando viu a notícia. "É um sinal de que estamos no caminho certo", conta a investigadora que estuda precisamente o tráfego neuronal relacionado com o envelhecimento. "Na doença de Alzheimer de início tardio que afeta mais de 95% dos pacientes, suspeita-se que a acumulação anormal do péptido beta-amilóide se deva a alterações de função dos reguladores neuronais de tráfego intracelular. No meu grupo estamos a estudar como é que a desregulação dos mecanismos de tráfego de proteínas nos neurónios leva a acumulação de beta-amilóide e ao aparecimento da doença de Alzheimer", explica a cientista da Universidade Nova. No futuro, o objetivo será descobrir "tratamentos mais eficazes na regularização da acumulação de beta-amilóide para níveis normais", acrescenta. Mas é sempre bom lembrar que qualquer grande descoberta "assenta nos ombros de gigantes", como profetizou Isaac Newton.