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Calçada portuguesa, essa horrível beldade

Sociedade

Uma inimiga e um amigo do pavimento típico português partem pedra, quando Lisboa discute a sua substituição por pisos mais práticos

A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou, esta terça-feira o Plano de Acessibilidade Pedonal, uma iniciativa que prevê a aplicação de 100 medidas, até 2017, para facilitar a mobilidade na capital do país. Uma das medidas prevê a retirada da calçada portuguesa. A propósito desta medida, republicamos um debate organizado pela VISÃO, em Dezembro de 2013

Quando chegam à Praça do Rossio, Viviane Aguiar, 37 anos, e Paulo Ferrero, 50, parecem trajados para desempenhar papéis opostos: ela vem de vestido com padrão a preto e branco, como a calçada que detesta; ele, de roupas pardacentas, como o cimento que abomina. A VISÃO pediu à autora do blogue A Casinha da Boneca e ao fundador do Fórum Cidadania Lx, que lançou a petição Pela Manutenção da Calçada Portuguesa, para debaterem as vantagens e desvantagens deste piso típico, a propósito do Plano de Acessibilidade Pedonal, da Câmara de Lisboa, que levanta a possibilidade de mudar o pavimento em várias zonas da cidade. À mesa de uma casa de chá da Rua do Ouro, falaram das responsabilidades da Câmara, de turistas e, claro, de saltos altos.

O que tem contra a calçada portuguesa?

Viviane Aguiar (VA): Não vou tratá-la por calçada portuguesa. Vou apelidá-la, carinhosamente, de pedrinhas do demo, que é a melhor descrição das ditas pedras que nos dão cabo da saúde e dos nervos. São um perigo para a segurança pública, e, nessa medida, não se podendo alcatifar a cidade ou acolchoá-la como nos parques infantis, arranja-se uma situação de compromisso.

Paulo Ferrero (PF): Pedrinhas do demo... [risos] Compreendo que haja muita gente que não gosta da calçada portuguesa, neste momento, como ela está: mal colocada, mal cortada, sistematicamente ocupada por carros. Chegámos a um estado em que realmente... Eu já caí, uma série de pessoas já caiu - sobretudo senhoras, por causa dos saltos altos -, e as pessoas de idade têm dificuldade. Também é preciso ver que há vários níveis de intervenção: nas ruas íngremes é mais perigoso, quando as pedras estão muito polidas ou esburacadas. Aí, não tenho nada contra a mudança da calçada.

Temos aqui um ponto de encontro?

VA: Aparentemente.

PF: Mas pedrinhas do demo não são...

VA: Eu disse isso com todo o carinho.

PF: A calçada portuguesa é um símbolo de todo o País, não só da cidade.

VA: Mas até que ponto devemos mantê-la quando há tanta desvantagem? As calçadas são uma evolução das ruas de terra batida. Acho que devia haver uma terceira etapa de evolução natural para um piso mais consentâneo com o nosso dia a dia, que está, neste momento, a ser posto em causa.

PF: Não, não acho que esteja...

VA: Olhe que eu acho que sim. Experimente pôr uns saltos altos...

PF: [Risos.]

VA: Com todo o respeito!

PF: Como no filme do Almodôvar?

VA: Uma família em que a mãe está de salto alto e tem um carrinho de bebé, em que o pai, coitado, se magoou e anda de muletas...

PF: Os saltos altos fazem mal às senhoras. Fazem mal à coluna.

VA: Mas fazem tão bem a outras coisas das senhoras... E dos senhores.

PF: E não é só o salto alto. É mais o salto de agulha.

VA: Não entremos por aí... A cidade seria tão mais cinzenta se as senhoras usassem chanatos! Não vamos promover a chanatização de Lisboa.

PF: Estamos a falar de vários níveis da calçada. A artística não está em causa. A câmara não vai mexer muito nos pontos turísticos, o que até é engraçado: o turista já pode cair, mas o lisboeta não.

VA: A verdade é que há muitas queixas dos turistas. Dizem: "São tão bonitas, aquelas pedrinhas, mas fazem-nos cair."

PF: Quando fizemos a petição, houve amigos que nos mandaram artigos de estrangeiros a dizer precisamente o contrário, que era um ex-líbris da cidade.

VA: Não temos de pensar nos estrangeiros, mas nas pessoas que andam na cidade diariamente. A calçada é bonita, mas esqueço a beleza quando não é funcional.

Mas não é parte da identidade da cidade?

VA: Por isso mesmo, parece-me bem que se mantenha em determinadas zonas. O que não faz sentido é vermos habitualmente pessoas a irem pela estrada...

PF: Porque está mal colocada!

VA: ... Ou pelas ciclovias. As pessoas andam pelas ciclovias para evitarem os passeios.

PF: Eu sei. Eu também ando. O passeio está esburacado, vai-se pela ciclovia. Depois, leva-se com uma bicicleta.

VA: Então estamos a chegar a outro ponto comum. Concorda que esta calçada, da forma como está, é péssima.

PF: Ah, mas então o demo é a Câmara que não trata da calçada convenientemente. Olhe, as obras na via pública: cada empresa que abre um buraco, quando volta a pôr a pedra, deixa aquilo tudo mal. Ora não põem o cimento em dose adequada com a areia, ora não cortam bem... Onde há uma obra, já se sabe que vai haver asneira. Depois, vem uma chuvada, um carro em cima do passeio, e pronto, um buraco.

Mesmo que tudo fosse feito na perfeição, não é verdade que a calçada portuguesa é muito mais exigente do ponto de vista da manutenção?

PF: Não sei. Isso dizem os adversários da calçada. O que eu acho é que a calçada contribui para a permeabilidade dos solos, ao contrário dos outros pisos que andam a pôr, e além do mais dignifica, ou devia dignificar, a profissão do calceteiro.

VA: É uma profissão muito dura, não? E essas profissões tendem a desaparecer.

PF: Mas até há métodos automáticos e maquinaria que permitem fazer a calçada.

VA: Então é para manter a tradição e fazemos a calçada com máquinas?

PF: Antes colocar uma pedra cortada por uma máquina do que aquele cimento que estão a pôr nas Avenidas Novas. Uma coisa horrorosa. Outro aspeto: a Câmara disse que não ia intervir nas zonas históricas. Mentira. Já interveio na Rua da Vitória, no miradouro de Santa Catarina, com pedra lioz, e na 5 de Outubro e no Areeiro, com uma mistura de betão e materiais horríveis.

Não admite alteração nem nessas zonas?

PF: Não. Para quê? São zonas quase planas. Precisam é de bom tratamento. Além disso, a calçada é responsável pela grande luminosidade da cidade.

VA: Mas isso não se resolveria com outro tipo de pedra clarinha?

PF: Isso não sei, mas o que estão a pôr não é outra pedra. É cimento.

A Viviane considera que a calçada portuguesa se está a demitir da sua função primordial, que é servir de piso para caminhar?

VA: Precisamente. Cadeiras de rodas, idosos, senhoras de salto alto, pessoas de muletas, invisuais...

PF: Daqui a pouco, só temos passadeiras rolantes.

VA: Basta um piso funcional.

PF: Mas a calçada é funcional!

VA: Da forma como está, não é.

PF: Então estamos de acordo.

E a calçada é mais cara do que outros pisos.

PF: Quem disse?

Só pelo facto de ser um processo moroso e manual...

PF: Não sei, não sei. O que eu sei é que é um elemento característico de Lisboa, permeável e amigo do ambiente, exportável, responsável pela luminosidade da cidade... Faz sentido a Câmara substituir a calçada em zonas íngremes, passeios estreitos.

Resumindo, trocava de caras os saltos altos pela calçada.

PF: Não é isso que está em causa. A minha mulher também usa saltos, e nunca caiu. Cai-se quando se está distraído ou se tem pouca sorte e não se vê o buraco. [Risos.]

Não é mais cansativo, mesmo para os homens, caminhar na calçada portuguesa?

PF: É, é. Talvez seja, sim. Sente-se na sola.

Mas, para si, não é uma diferença que o faça pôr a calçada em causa. Já no caso da Viviane...

VA: Faz toda a diferença. Eu junto vários fatores: é o salto alto, é o carrinho de bebé, são as entorses crónicas nos joelhos.

PF: Pois, está em má condição. É evidente.

VA: Mesmo quando está bem mantida, também é uma espécie de rinque, muito lisinha.

PF: Se estiver muito polida, é, mas pode-se enrugar. Há técnicas para evitar isso. Claro que não evitam tudo. Se vem chuva...

VA: A chuva é uma maravilha, para isso. Se estivéssemos numa sociedade em que as pessoas processassem com frequência, como noutras, a Câmara já estava carregada de processos cíveis à conta de acidentes, com pedidos de indemnização. Eu própria já estaria rica.

PF: E quem processasse a Câmara, teria razão. A Câmara é que tem a responsabilidade de manter a calçada em condições.