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Bairro do Aleixo: Assim murcharam os sonhos

Sociedade

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Implodiu às 11h13 de sexta-feira mais uma torre do bairro do Aleixo, um dos mais problemáticos do Porto. Ali nascerão apartamentos de luxo, com vista soberba para o Douro. Mudam-se vidas de casa. Ficam palavras. Anoitecendo. Até serem pó, cinza e nada. VEJA AS FOTOS

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Quando foi inaugurado, abril era um projeto pequenino, ainda a gatinhar por dentro dos dias cinzentos. A 13 daquele mês de 1974, a primeira das cinco torres do bairro do Aleixo, no Porto, tocou as nuvens, beijou o rio com os olhos e abraçou a esperança de um país novo.

Vieram almas carregando sonhos precários, vidas no precipício e gente cansada de estancar esperas, habitar aquele mês de abril. Começara por ser morada de gente na vertical, de espinha direita, operários de uma história em construção.  

Dali em diante, nada mais foi igual.

Nem no bairro, nem no País.

Existências corroídas pelo desencanto e pelo esquecimento deixaram rasto, criaram pasto. Medraram estigmas, sobrevivências ao abandono. Cresceram, daninhas, as narrativas de um tempo que deixara murchar as palavras prometidas. Em décadas, anoiteceu a vida por dentro das casas e a ilusão por dentro das pessoas. Corromperam-se laços, prostituíram-se partilhas, traficaram-se cumplicidades. O Aleixo foi gueto, território comanche, preconceito galopante. Visto de fora, vivido por dentro.

Nas paredes que sobram das vidas esventradas escorre agora o crepúsculo pela pedra morta, pelas palavras em desalinho, presas à sua condição. As vidas mudam-se de lugar. Se calhar, até para melhor. Mas, nos lugares, ficam ao frio lembranças, palavras ditas, corroídas, vedadas ao sol e ao horizonte, letra a letra, enquanto era tempo.

Amanhã, sexta, 12, quando mais uma torre do Aleixo cair, o lixo será já o estrume do luxo. Ficarão, então, memórias e entregas fora do lugar, órfãs, sem o agasalho deste país condomínio privado, que desmerece a palavra dada. E sonhada.